{"id":3927,"date":"2026-06-23T14:02:03","date_gmt":"2026-06-23T17:02:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/?p=3927"},"modified":"2026-06-23T14:03:17","modified_gmt":"2026-06-23T17:03:17","slug":"impactos-visiveis-do-trabalho-invisivel-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/impactos-visiveis-do-trabalho-invisivel-no-brasil\/","title":{"rendered":"Impactos vis\u00edveis do trabalho invis\u00edvel no Brasil"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><i><span style=\"font-weight: 400\">76,3% dos cuidadores brasileiros apresentam sintomas de sobrecarga<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Imagem: Amanda Los<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Se o trabalho de cuidado fosse remunerado, acrescentaria 8,6% ao Produto Interno Bruto (PIB) e movimentaria R$ 905 bilh\u00f5es por ano, segundo dados do Instituto Locomotiva. O valor foi calculado com base no tempo m\u00e9dio que mulheres brasileiras com 14 anos ou mais dedicam \u00e0 atividades dom\u00e9sticas, segundo\u00a0 estat\u00edsticas de g\u00eanero do Instituto Brasileiro de Geografia e Estast\u00edstica de 2024. De acordo com o instituto, elas passam, em m\u00e9dia, 21,3 horas por semana em afazeres dom\u00e9sticos, o dobro do tempo dedicado pelos homens. O c\u00e1lculo tomou como refer\u00eancia o valor m\u00e9dio pago por hora ao trabalho dom\u00e9stico remunerado no Brasil. Apesar do impacto econ\u00f4mico expressivo, a atividade segue, em grande parte, invis\u00edvel. No Brasil, cerca de 6,4 milh\u00f5es de pessoas exercem fun\u00e7\u00f5es de cuidado, 93,5% mulheres, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios (Pnad Cont\u00ednua) de 2023. Por tr\u00e1s dos n\u00fameros, hist\u00f3rias como a de Adriana Lara (54) ajudam a dimensionar o peso dessa realidade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Cuidadora n\u00e3o remunerada desde a inf\u00e2ncia, Adriana teve poucas oportunidades no mercado de trabalho. Sem forma\u00e7\u00e3o profissional, encontrou ainda mais barreiras ao tentar se inserir em empregos formais. Com o nascimento do segundo filho, Alex Francisco, que desenvolveu paralisia cerebral ap\u00f3s complica\u00e7\u00f5es no parto, o cuidado deixou de ser uma condi\u00e7\u00e3o e passou a ser uma dedica\u00e7\u00e3o integral.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Durante anos, a rotina foi marcada por hospitaliza\u00e7\u00f5es e esfor\u00e7o f\u00edsico cont\u00ednuo. \u201cCarregar meu filho e ficar em p\u00e9 ao lado da cama do hospital por horas resultou em uma les\u00e3o no meu tend\u00e3o de aquiles\u201d, conta. Informa\u00e7\u00f5es do Portal Drauzio Varella indicam que les\u00f5es no tend\u00e3o est\u00e3o frequentemente associadas a esfor\u00e7os repetitivos e prolongados, realidade comum entre cuidadores.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O impacto n\u00e3o se limita ao corpo. Um estudo de 2023 do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea) aponta que o trabalho de cuidado n\u00e3o remunerado gera o chamado \u201ccusto de oportunidade\u201d, conceito que diz respeito ao que se deixa de ganhar ao optar ou ser levado a exercer determinada atividade. No caso das mulheres entre 25 e 59 anos, a perda m\u00e9dia chega a cerca de R$ 1,7 mil mensais.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Al\u00e9m da falta de compensa\u00e7\u00e3o financeira, o desgaste f\u00edsico e mental se acumula. Uma <\/span><a href=\"https:\/\/scielo.pt\/pdf\/psd\/v23n1\/1645-0086-psd-23-01-319.pdf\"><span style=\"font-weight: 400\">pesquisa<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\"> realizada no Hospital das Cl\u00ednicas da Faculdade de Medicina de Ribeir\u00e3o Preto, em 2022, mostra que 76,3% apresentaram sintomas de sobrecarga, 49,5% de ansiedade, outros 45,5% sintomas de depress\u00e3o e 23,8% avaliaram suas fam\u00edlias como disfuncionais.. A aus\u00eancia de reconhecimento e de redes de apoio contribui para o esgotamento emocional e dificulta o cuidado com a pr\u00f3pria sa\u00fade mental.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Para a psic\u00f3loga Marina de Oliveira, o trabalho de cuidado \u00e9 exigente e cobra um pre\u00e7o alto, muitas vezes invis\u00edvel at\u00e9 para quem o vive. \u201cO cuidador perde a sua qualidade de vida para dar ao outro\u201d, afirma. No consult\u00f3rio, ela observa um padr\u00e3o repetitivo de pacientes exaustos, com sintomas de estresse, depress\u00e3o e ansiedade acumulados ao longo de uma rotina silenciosa mas desgastante. Al\u00e9m do esfor\u00e7o f\u00edsico, existe o fator cultural que sustenta essa realidade. \u201cA sociedade espera que, principalmente m\u00e3es e filhos, exer\u00e7am a fun\u00e7\u00e3o de cuidador quando algum parente precisa sem questionar. A press\u00e3o \u00e9 ainda maior nas mulheres\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Adriana reconhece esse efeito na pr\u00f3pria hist\u00f3ria. \u201cNa \u00e9poca, eu tinha tanto empenho em cuidar do meu filho que n\u00e3o tinha tempo para lidar com as minhas emo\u00e7\u00f5es. Tudo veio depois\u201d, relata ao lembrar do per\u00edodo ap\u00f3s a morte de Alex, em 2017. Hoje, ela faz uso de medica\u00e7\u00f5es para lidar com o transtorno depressivo e de bipolaridade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A rotina de cuidado tamb\u00e9m afeta a vida social dos cuidadores. No caso de Adriana, grande parte das amizades surgiu dentro dessa realidade. \u201cA maioria das minhas amizades se estabeleceu com pessoas que conheci na trajet\u00f3ria do Francisco, como pais e m\u00e3es de crian\u00e7as PCDs e funcion\u00e1rios dos hospitais\u201d. Ela destaca a experi\u00eancia na Casa de Apoio S\u00e3o Lucas, em Bras\u00edlia, onde as fam\u00edlias se apoiavam nas dificuldades. Dentro da pr\u00f3pria fam\u00edlia, a din\u00e2mica tamb\u00e9m era adaptada. Quando poss\u00edvel, Adriana e o marido, Adenilson Lara, se revezavam para cuidar do filho em eventos familiares.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Segundo a <\/span><a href=\"https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv101670.pdf\"><span style=\"font-weight: 400\">Pesquisa de Or\u00e7amentos Familiares<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\"> de 2018, apenas 17,6% dos domic\u00edlios brasileiros tinham condi\u00e7\u00f5es de contratar trabalhadores dom\u00e9sticos. Em contrapartida, a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Gerontologia estima que cerca de 70% dos idosos no pa\u00eds necessitam de algum tipo de cuidado especial. Entre a demanda crescente e a falta de recursos para terceirizar o trabalho, o cuidado n\u00e3o remunerado se mant\u00e9m como base silenciosa da vida social e econ\u00f4mica. Invis\u00edvel, mas indispens\u00e1vel no cotidiano, sustentado na maior parte por mulheres como Adriana.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Esta reportagem integra uma colet\u00e2nea do livro-reportagem. Este cap\u00edtulo trata dos principais impactos do trabalho de cuidado n\u00e3o remunerado nos cuidadores familiares, desde a sa\u00fade e o financeiro at\u00e9 a vida social. Leia o cap\u00edtulo anterior <\/span><a href=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/sem-salario-e-sem-pausa-a-rotina-invisivel-das-cuidadoras-familiares\/\"><span style=\"font-weight: 400\">aqui<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">. Acompanhe no Peri\u00f3dico as pr\u00f3ximas publica\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Ficha t\u00e9cnica<\/b><\/p>\n<p><b>Produ\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Amanda Los<\/span><\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Hendryo Andr\u00e9<\/span><\/p>\n<p><b>Edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Emanueli Garcia e Matheus Le\u00f4nidas<\/span><\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>76,3% dos cuidadores brasileiros apresentam sintomas de sobrecarga Imagem: Amanda Los Se o trabalho de cuidado fosse remunerado, acrescentaria 8,6% ao Produto Interno Bruto (PIB) e movimentaria R$ 905 bilh\u00f5es por ano, segundo dados do Instituto Locomotiva. 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