{"id":4011,"date":"2026-06-25T10:42:55","date_gmt":"2026-06-25T13:42:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/?p=4011"},"modified":"2026-06-25T11:09:07","modified_gmt":"2026-06-25T14:09:07","slug":"dois-lados-mesmo-cuidado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/dois-lados-mesmo-cuidado\/","title":{"rendered":"Dois lados, mesmo cuidado"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><span style=\"font-weight: 400\"><i>Diferentes perspectivas do cuidar<\/i><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Arquivo pessoal: Terezinha Maciel<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Terezinha Maciel (61) e Michele Buss (60) s\u00e3o duas perspectivas diferentes do mesmo trabalho: cuidar de membros da fam\u00edlia quando adoeceram. Terezinha \u00e9 porto-alegrense e, ap\u00f3s dois anos cuidando do pai, se apaixonou pelo cuidado e agora atua como t\u00e9cnica em enfermagem. J\u00e1 Michele, que vive em Curitiba, \u00e9 bi\u00f3loga aposentada e afirma ter vivido o momento mais estressante de sua vida quando teve que cuidar da m\u00e3e idosa.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Terezinha \u00e9 uma senhora sorridente e simp\u00e1tica, sempre muito carinhosa e trabalhadora e isso reflete nos trabalhos de cuidado. Em 2013, quando seu pai, Juarez Maciel, de 77 anos, teve um AVC, ela o recebeu em casa e foi a principal respons\u00e1vel por ele durante dois anos, at\u00e9 seu falecimento\u00a0 em setembro de 2015. Terezinha deixou de trabalhar com o marido na empresa de acabamentos para gr\u00e1ficas\u00a0 para se dedicar 100% aos cuidados com o pai. Juarez n\u00e3o conseguia comer nem se mexer sem ajuda,\u00a0 o que gerou uma\u00a0 rotina de cuidado\u00a0 intensa. A filha precisava exercer as atividades b\u00e1sicas do dia a dia. \u201cEra necess\u00e1rio dar alimenta\u00e7\u00e3o por sonda, rem\u00e9dios, trocar fraldas, dar banho e at\u00e9 mesmo costurar roupas adequadas para o conforto do pai\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A cuidadora conta que mesmo com o apoio das pessoas mais pr\u00f3ximas, a responsabilidade maior era dela. \u201cNenhum dos meus irm\u00e3os quis dividir a responsabilidade dos cuidados\u201d, relata. Juarez possui cinco filhos, que com o passar dos anos o visitavam cada vez menos. \u201c\u00c9 um abuso os familiares jogarem todo o trabalho em cima de uma pessoa s\u00f3\u201d. A cuidadora nunca recebeu nenhum apoio financeiro da fam\u00edlia, mas sempre correu atr\u00e1s dos direitos e dependia da aposentadoria do pai.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">\u201cA minha principal motiva\u00e7\u00e3o era o amor\u201d, afirma. Segundo Terezinha, seu pai era uma pessoa dif\u00edcil de lidar, mas mantinham uma boa comunica\u00e7\u00e3o.Terezinha adaptou sua casa para os cuidados com cama hospitalar, ar-condicionado e guincho. Ela sempre prestava muita aten\u00e7\u00e3o a todos os procedimentos que o pai realizava no hospital para repetir o que fosse necess\u00e1rio em casa. \u201cFoi no acompanhamento do meu pai que eu descobri o meu amor pelo trabalho de cuidado\u201d, afirma. Dois anos ap\u00f3s a morte do pai, Terezinha fez curso de t\u00e9cnica em enfermagem e se dedica a esse tipo de trabalho at\u00e9 hoje.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\"><b>Duas realidades<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Michele Buss tamb\u00e9m passou pelo trabalho de cuidadora n\u00e3o remunerada de um membro da fam\u00edlia, com uma experi\u00eancia diferente. Michele se apresenta de maneira s\u00e9ria, mas bem humorada, como quem busca rir em meio \u00e0s dificuldades relatadas. A m\u00e3e, Zilpha Carvalho, tem 89 anos e sofre com problemas card\u00edacos. Assim como o pai de Terezinha, Michele relata que a m\u00e3e n\u00e3o \u00e9 uma pessoa f\u00e1cil de lidar. Sempre muito independente, Zilpha n\u00e3o aceita receber os cuidados que necessita, o que dificulta muito a responsabilidade da filha.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0Michele \u00e9 a principal respons\u00e1vel pelos cuidados com a m\u00e3e desde setembro de 2025. Zilpha precisava comer, tomar banho e de medica\u00e7\u00f5es. \u201cFoi a coisa mais dif\u00edcil que eu tive que fazer na vida\u201d, afirma a cuidadora. Casada e m\u00e3e de quatro filhos, a curitibana relata ter tido diversas consequ\u00eancias em sua sa\u00fade devido \u00e0 dedica\u00e7\u00e3o aos cuidados com a m\u00e3e. \u201cEu tive fortes crises de vertigem e meu psiquiatra triplicou a dose do rem\u00e9dio por conta do estresse\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O estudo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Cuidadores do Brasil<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, publicado em 2021 pelo Instituto Lado a Lado pela Vida (LAL) e a Veja Sa\u00fade, aponta que seis em cada dez cuidadores t\u00eam pelo menos 50 anos; 27% t\u00eam 60 anos ou mais. No que diz respeito ao impacto na sa\u00fade emocional e f\u00edsica dos cuidadores, 48% relataram sofrer com estresse e um em cada cinco apresentou problemas de ins\u00f4nia. Al\u00e9m disso, \u00e9 comum o relato de dores e les\u00f5es por esfor\u00e7o repetitivo (LER). Terezinha e Michele s\u00e3o exemplos reais do que os dados indicam.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Al\u00e9m disso, o levantamento mostra que cerca de 80% dos cuidadores familiares n\u00e3o possuem a capacita\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria na \u00e1rea de sa\u00fade, apenas seguem as orienta\u00e7\u00f5es dos m\u00e9dicos. \u201cO governo tinha que ser mais presente no apoio aos cuidadores\u201d, observa Terezinha. Quando a cuidadora estava em busca de direitos, tomou conhecimento que poderia solicitar o aux\u00edlio-acompanhante, que representa um adicional de 25% no sal\u00e1rio do aposentado. No entanto, ela sofreu um impasse ao descobrir que o aux\u00edlio s\u00f3 pode ser solicitado quando o paciente foi aposentado por incapacidade permanente, o que n\u00e3o era o caso de seu pai.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\"><b>O pre\u00e7o de cuidar<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Apesar das diferentes experi\u00eancias, Terezinha Maciel e Michele Buss retratam realidades que atingem cidad\u00e3s de todo o pa\u00eds. No Brasil, 90% dos cuidadores n\u00e3o remunerados s\u00e3o mulheres, em sua maioria filhas, m\u00e3es, netas e c\u00f4njuges.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Segundo a professora Georgiane V\u00e1zquez, do Departamento de Hist\u00f3ria da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), o trabalho de cuidado tem uma imposi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica sobre as mulheres. \u201cA cultura que enxerga a mulher ideal como m\u00e3e refor\u00e7a a ideia da obriga\u00e7\u00e3o familiar atrelada ao cuidado\u201d, afirma. Para a docente, a romantiza\u00e7\u00e3o do trabalho deriva da sustenta\u00e7\u00e3o do sistema econ\u00f4mico vigente. Ela observa que o trabalho dom\u00e9stico n\u00e3o \u00e9 reconhecido como um trabalho real. \u201cPara o trabalhador prestar seu servi\u00e7o, ele precisa de comida, roupas e apoio em casa, o que faz muitas mulheres serem exploradas por falta de reconhecimento\u201d, afirma. \u201c\u00c9 preciso caminhar em dire\u00e7\u00e3o a divis\u00e3o igualit\u00e1ria dos trabalhos dom\u00e9sticos em casa, entre homens e mulheres, e n\u00e3o apenas designar o servi\u00e7o a um indiv\u00edduo baseado em seu g\u00eanero\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Esta reportagem integra uma colet\u00e2nea do livro-reportagem. Este cap\u00edtulo trata da dualidade na quest\u00e3o do trabalho de cuidado. Leia o cap\u00edtulo anterior <a href=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/impactos-visiveis-do-trabalho-invisivel-no-brasil\/\">aqui.<\/a> Acompanhe no Peri\u00f3dico as pr\u00f3ximas publica\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p><b>Ficha t\u00e9cnica<\/b><\/p>\n<p><b>Produ\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Amanda Los<\/span><\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Hendryo Andr\u00e9<\/span><\/p>\n<p><b>Edi\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o:<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> Emanuelle Pasqualotto\u00a0<\/span><\/p>\n<p><strong>Publica\u00e7\u00e3o: <\/strong>Larissa Viero e Luiz Cruz<\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diferentes perspectivas do cuidar Arquivo pessoal: Terezinha Maciel &nbsp; Terezinha Maciel (61) e Michele Buss (60) s\u00e3o duas perspectivas diferentes do mesmo trabalho: cuidar de membros da fam\u00edlia quando adoeceram. 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