{"id":4278,"date":"2026-07-28T16:50:52","date_gmt":"2026-07-28T19:50:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/?p=4278"},"modified":"2026-07-28T16:50:52","modified_gmt":"2026-07-28T19:50:52","slug":"numeros-e-realidade-das-violencias-domesticas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/numeros-e-realidade-das-violencias-domesticas\/","title":{"rendered":"N\u00fameros e realidade das viol\u00eancias dom\u00e9sticas"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><i><span style=\"font-weight: 400\">Brasil registra maior n\u00famero de feminic\u00eddios no ano que a Lei Maria da Penha completa 20 anos<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Foto: Karine Santos<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">\u201c\u00c9 f\u00e1cil citar 10 mulheres que foram agredidas e n\u00f3s conhecemos, mas \u00e9 muito dif\u00edcil n\u00e3o conhecer ao menos uma que n\u00e3o sofreu alguma viol\u00eancia\u201d. A frase \u00e9 de uma v\u00edtima que passou por um abuso sexual aos 13 anos e hoje, maior de idade, vive com os reflexos da viol\u00eancia que sofreu dentro de casa pelo padrasto. Ela n\u00e3o ser\u00e1 identificada com o nome verdadeiro para preservar sua integridade. Aqui, ser\u00e1 chamada de <\/span><b>Patr\u00edcia*<\/b><span style=\"font-weight: 400\">.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Patr\u00edcia hoje \u00e9 uma mulher adulta, com personalidade forte e caracter\u00edstica, vive a vida como qualquer outra mulher, trabalha, estuda, vive rela\u00e7\u00f5es afetivas e de amizade, sorri, chora. E assim como outras milh\u00f5es de mulheres vive com um peso invis\u00edvel nas costas. Por muitos anos ela conviveu com a culpa da viol\u00eancia que sofreu, precisou de anos de terapia e, segundo ela, s\u00f3 assim p\u00f4de deixar de pensar que tudo o que aconteceu foi sua responsabilidade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">De acordo com o <\/span><a href=\"https:\/\/forumseguranca.org.br\/publicacoes\/anuario-brasileiro-de-seguranca-publica\/\"><span style=\"font-weight: 400\">Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\"> de 2025, 634.987 mil mulheres tiveram medidas protetivas concedidas em 2024. Apesar disso, 70 mulheres foram v\u00edtimas de feminic\u00eddio mesmo com medida protetiva, segundo o Anu\u00e1rio.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Tais n\u00fameros n\u00e3o refletem a quantidade total de mulheres v\u00edtimas das mais diversas viol\u00eancias de g\u00eanero. De acordo com a historiadora e pesquisadora de g\u00eanero, Cristina Wolff, os n\u00fameros s\u00e3o subnotificados, contudo, recentemente, os casos passaram a ser reportados \u00e0s autoridades.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">\u201cSempre existiu viol\u00eancia contra as mulheres, h\u00e1 muito tempo, pelo menos na hist\u00f3ria da humanidade. Por\u00e9m, mais recentemente, foram criadas leis sobre isso, ent\u00e3o por um lado o aumento diz respeito a uma expans\u00e3o das notifica\u00e7\u00f5es. Mas, por outro lado, alguns autores t\u00eam falado que tamb\u00e9m existe um crescimento\u00a0 mesmo, especialmente a partir de 2018\u201d, explica.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Em 2015, haviam 328.634 mil medidas protetivas, segundo <\/span><span style=\"font-weight: 400\">dados divu<\/span><span>lgados pelo<\/span><a href=\"https:\/\/www.cnj.jus.br\/justica-concedeu-mais-medidas-protetivas-a-mulheres-em-2015\/\"><span> Departamento de Pesquisas Judici\u00e1rias do Conselho Nacional de Justi\u00e7a (DPJ\/CNJ<\/span><span>)<\/span><\/a><span>. Houve um aumento das medidas e por consequ\u00eancia das viol\u00eancias contra as mulheres em 93,2%, em 10 anos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Para Patr\u00edcia, o caminho da medida protetiva poderia ter transformado sua vida mais f\u00e1cil. \u201cTeria sido a melhor op\u00e7\u00e3o, pois encontrei o agressor outras vezes de modo surpresa, na escola, por exemplo, e eu congelei. Mas fazer isso sozinha, sem ter apoio, acabei n\u00e3o indo atr\u00e1s\u201d, destaca.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Segundo o <\/span><a href=\"https:\/\/dossies.agenciapatriciagalvao.org.br\/\"><span style=\"font-weight: 400\">Dossi\u00ea do Instituto Patr\u00edcia Galv\u00e3o<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, em rela\u00e7\u00e3o aos abusos sofridos por crian\u00e7as e adolescentes, estima-se que apenas 10% dos crimes sejam reportados \u00e0s autoridades. Patr\u00edcia n\u00e3o entra na estimativa. Aos 13 anos, a v\u00edtima foi desacreditada, teve que conviver com seu agressor e nunca obteve justi\u00e7a e puni\u00e7\u00e3o para ele. Hoje, com 20 anos de idade, o homem segue como parceiro de sua m\u00e3e.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">\u201cMesmo ap\u00f3s sair da casa da minha m\u00e3e, da casa dele, eu ainda sofria com crise de p\u00e2nico pensando que ele estava no meu quarto\u201d, relembra. Ainda crian\u00e7a, Patr\u00edcia sofreu de ins\u00f4nia, compuls\u00e3o alimentar, ansiedade e m<\/span>uitos outros reflexos da viola\u00e7\u00e3o que sofreu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O mais alto escal\u00e3o da viol\u00eancia de g\u00eanero \u00e9 a morte da mulher, o que nos \u00faltimos 10 anos tem parecido o objetivo principal dos agressores. Segundo o Anu\u00e1rio Brasileirto de Seguran\u00e7a P\u00fablica de 2026, 1.571 mulheres foram v\u00edtimas de feminic\u00eddio em 2025. E a \u00fanica motiva\u00e7\u00e3o para o crime \u00e9 o g\u00eanero. Ao todo, 96,4% dos agressores s\u00e3o homens, que, de acordo com o levantamento, podem ser parentes pr\u00f3ximos das v\u00edtimas, como pai, padrasto, marido ou companheiro, namorado, tio, cunh<\/span>ado, irm\u00e3o, filho ou primo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Os dados existem aos montes para retratar as viol\u00eancias di\u00e1rias das mu<\/span>lheres, mas as hist\u00f3rias s\u00e3o reais. Nas palavras de Maria da Penha: \u201cA vida come\u00e7a quando a viol\u00eancia acaba\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_4280\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4280\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-4280 size-medium\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/07\/IMG_1691.JPG-300x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/07\/IMG_1691.JPG-300x300.jpeg 300w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/07\/IMG_1691.JPG-1024x1024.jpeg 1024w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/07\/IMG_1691.JPG-150x150.jpeg 150w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/07\/IMG_1691.JPG-768x768.jpeg 768w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/07\/IMG_1691.JPG.jpeg 1080w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-4280\" class=\"wp-caption-text\">Infogr\u00e1fico: Karine Santos<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: center\">\n<p style=\"text-align: justify\"><b>Hist\u00f3ria que se repete<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Patr\u00edcia vivia em um ambiente dif\u00edcil e disfuncional. Seus pais se separaram enquanto ela ainda era crian\u00e7a. Aos 10 anos, em 2016, foi morar com a m\u00e3e e com o irm\u00e3o mais novo. Em abril do mesmo ano, sua m\u00e3e conheceu quem viria a ser o seu agressor.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A m\u00e3e come\u00e7ou a trabalhar em um mercado e que precisava de algu\u00e9m que levasse ela e o irm\u00e3o para a escola. O homem trabalhava com van escolar. Eles se conheceram a partir disso. Em 2017 se viu dentro de uma casa estranha, com um homem que nunca viu antes, e que viveu por cerca de dois anos. Durante esse tempo sentiu aproxima\u00e7\u00f5es estranhas e falas desconexas, at\u00e9 estar completamente vulner\u00e1vel dentro da casa dele. \u201cEu era uma crian\u00e7a, tinha muita dificuldade de aceitar que aquilo tinha acontecido comigo\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Viver naquele ambiente era muito dif\u00edcil, ela tinha medo, n\u00e3o se sentia segura. Patr\u00edcia relata que teve que aprender a se defender sozinha, a ser mulher sozinha, nunca sentiu que recebeu apoio das pessoas que, supostamente, deveriam proteg\u00ea-la: sua fam\u00edlia. Enquanto vivia o pior momento da vida, ainda lidou com o constrangimento de ser acusada de fingimento. Foi apontada de ser a culpada da pr\u00f3pria agress\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">\u201cPor muito tempo eu deixei todos os sentimentos ruins me definirem. O que mais me do\u00eda era toque f\u00edsico e aproxima\u00e7\u00e3o (por conta da mem\u00f3ria do abuso f\u00edsico). Foi um reflexo de sete anos na minha vida\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A v\u00edtima realizou anos de terapia para poder lidar com o ocorrido, mas ainda sofre com os reflexos da viola\u00e7\u00e3o. Patr\u00edcia n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica. Milhares de mulheres brasileiras vivem em constante medo de serem agredidas ou mortas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\"><b>S\u00e9rie de reportagens<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Esta \u00e9 a primeira reportagem da s\u00e9rie \u201cNenhum lugar \u00e9 seguro: as viol\u00eancias de g\u00eanero nos \u00e2mbitos digital e presencial\u201d, que ao longo deste ano vai tratar de casos de viol\u00eancia dom\u00e9stica e ataques \u00e0s mulheres produzidos pelo discurso redpill e outras manifesta\u00e7\u00f5es que violentam as mulheres na internet.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: center\"><b>Ficha t\u00e9cnica<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><b>Produ\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Karine Santos<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><b>Edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Sarah Brasil, Nath\u00e1lia St\u00fcpp e Emanuelle Pasqualotto<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><b>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Hendryo Andr\u00e9<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><b>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o<\/b><b>: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Aline Rosso e Muriel Em\u00eddio Amaral<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Brasil registra maior n\u00famero de feminic\u00eddios no ano que a Lei Maria da Penha completa 20 anos Foto: Karine Santos &nbsp; \u201c\u00c9 f\u00e1cil citar 10 mulheres que foram agredidas e n\u00f3s conhecemos, mas \u00e9 muito dif\u00edcil n\u00e3o conhecer ao menos uma que n\u00e3o sofreu alguma viol\u00eancia\u201d. A frase \u00e9 de uma v\u00edtima que passou&nbsp;&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":932,"featured_media":4279,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[2],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4278"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/users\/932"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4278"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4278\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4281,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4278\/revisions\/4281"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4279"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4278"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4278"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4278"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}