{"id":4286,"date":"2026-08-04T14:05:45","date_gmt":"2026-08-04T17:05:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/?p=4286"},"modified":"2026-08-04T14:05:45","modified_gmt":"2026-08-04T17:05:45","slug":"quem-cuida-de-quem-cuida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/quem-cuida-de-quem-cuida\/","title":{"rendered":"Quem cuida de quem cuida?"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><i><span style=\"font-weight: 400\">A desvaloriza\u00e7\u00e3o dos cuidadores familiares n\u00e3o \u00e9 somente dentro de casa e a situa\u00e7\u00e3o se agrava entre as mulheres<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Foto: Emanuelle Pasqualotto<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Terezinha Maciel e Adriana Lara s\u00e3o duas cuidadoras familiares que, ao longo da trajet\u00f3ria de cuidado, sempre buscaram por seus direitos. Sem nenhuma remunera\u00e7\u00e3o para cuidar dos parentes que necessitavam de apoio por quest\u00f5es de sa\u00fade, ambas realizaram o esfor\u00e7o sem amparo p\u00fablico espec\u00edfico para cuidadores. \u201cO governo devia prestar mais aten\u00e7\u00e3o em n\u00f3s\u201d , observa Terezinha.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A <\/span><a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2023-2026\/2024\/lei\/l15069.htm\"><span style=\"font-weight: 400\">lei 15.069<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">\/2024 reconhece o cuidado como direito humano e trabalho essencial para a sociedade brasileira. A pol\u00edtica define como cuidado todo \u201ctrabalho cotidiano de produ\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os necess\u00e1rios \u00e0 sustenta\u00e7\u00e3o e \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o di\u00e1ria da vida humana, da for\u00e7a de trabalho, da sociedade e da economia e \u00e0 garantia do bem-estar de todas as pessoas\u201d. Tamb\u00e9m conhecida\u00a0 Pol\u00edtica Nacional de Cuidados, a lei visa o direito ao cuidado e corresponsabilizar homens e mulheres pela provis\u00e3o de cuidados.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">\u201cDurante todos os 18 anos que meu filho viveu, minha dedica\u00e7\u00e3o era exclusiva a ele, s\u00f3 voltei a trabalhar depois que ele faleceu\u201d, conta Adriana. J\u00e1 Terezinha teve que abandonar o emprego para se dedicar ao pai, Juarez Maciel, que teve um acidente cerebral vascular. \u201cMeu marido passou a bancar a casa sozinho e minha \u00fanica fonte de renda pelo cuidado era a aposentadoria do meu pai, que ia quase completamente para os custos do cuidado dele\u201d, afirma. Dados de 2024 da Pnad Cont\u00ednua\/IBGE apontam que quase 1\/3 das mulheres com mais de 16 anos de idade que n\u00e3o trabalham ou n\u00e3o podem trabalhar declararam que a impossibilidade de trabalho \u00e9 por conta de cuidar de algu\u00e9m. Em compara\u00e7\u00e3o, essa propor\u00e7\u00e3o era de 3,6% entre os homens. A falta de reconhecimento do trabalho de cuidado exclui as mulheres do mercado de trabalho e at\u00e9 mesmo da vida social.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Adriana e seu filho Alex, que sofria com paralisia cerebral, utilizavam o Tratamento Fora do Domic\u00edlio (TFD), benef\u00edcio do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS), que garante aux\u00edlio de custo para transporte, alimenta\u00e7\u00e3o e hospedagem a pacientes que necessitam de atendimento m\u00e9dico especializado em outra localidade, quando n\u00e3o h\u00e1 recursos dispon\u00edveis na regi\u00e3o do paciente. J\u00e1 Terezinha conseguiu aparelhos hospitalares para utilizar em casa e apoio jur\u00eddico em domic\u00edlio.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Elas reconhecem o impacto da assist\u00eancia p\u00fablica no trabalho de cuidado. \u201c\u00c9 um amparo que n\u00e3o existia quando eu precisei, mas que ajudaria na rotina\u201d, afirma Adriana. Al\u00e9m do reconhecimento governamental, Terezinha aponta a necessidade do reconhecimento entre os familiares. \u201cMuitas pessoas acham um absurdo n\u00e3o abdicar de tudo para cuidar de um parente que necessita, mas n\u00e3o levam em considera\u00e7\u00e3o a dificuldade desse esfor\u00e7o, principalmente quando se est\u00e1 sozinha como principal respons\u00e1vel\u201d, observa. Al\u00e9m da obriga\u00e7\u00e3o refor\u00e7ada de forma cultural pelo g\u00eanero, Adriana e Terezinha ainda tinham que cuidar dos afazeres dom\u00e9sticos e de outros membros da fam\u00edlia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O Plano Nacional de Cuidado organiza 79 a\u00e7\u00f5es em cinco eixos, que v\u00e3o do reconhecimento e valoriza\u00e7\u00e3o de trabalhadoras dom\u00e9sticas \u00e0 forma\u00e7\u00e3o profissional e valoriza\u00e7\u00e3o de saberes e pr\u00e1ticas tradicionais. O investimento previsto \u00e9 de quase R$ 25 bilh\u00f5es entre 2024 e 2027. No Paran\u00e1, o programa Bolsa Cuidador Familiar disponibiliza aux\u00edlio financeiro mensal de meio sal\u00e1rio m\u00ednimo (R$ 810,50 em 2026) para os cuidadores de idosos, no entanto, a bolsa alcan\u00e7a 15 cuidadores a cada munic\u00edpio beneficiado, que s\u00e3o apenas 20. A bolsa tamb\u00e9m s\u00f3 prev\u00ea cuidadores de idosos, o que limita ainda mais o apoio integral aos cuidadores paranaenses.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A lei prev\u00ea que o trabalho de cuidado n\u00e3o \u00e9 apenas uma situa\u00e7\u00e3o individual, mas uma quest\u00e3o p\u00fablica estrutural da sociedade brasileira. No entanto, \u00e9 necess\u00e1rio que os Estados e munic\u00edpios aderem e executem o plano. At\u00e9 o momento de publica\u00e7\u00e3o desta reportagem, n\u00e3o foram publicados nenhum dado de resolu\u00e7\u00f5es ou resultados em rela\u00e7\u00e3o ao Plano Nacional de Cuidados. Esta reportagem integra uma colet\u00e2nea de livro-reportagem. Este cap\u00edtulo trata da problem\u00e1tica estrutural do trabalho de cuidado. Leia o cap\u00edtulo anterior aqui . Acompanhe no Peri\u00f3dico as pr\u00f3ximas publica\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>Ficha t\u00e9cnica<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"font-weight: 400\"><strong>Produ\u00e7\u00e3o:<\/strong> Amanda Los\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"font-weight: 400\"><strong>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o:<\/strong> Hendryo Andr\u00e9\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"font-weight: 400\"><strong>Edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o:<\/strong> Daniel Am\u00e9rico e Ticyane Almeida\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"font-weight: 400\"><strong>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o:<\/strong> Aline Rosso e Muriel Amaral<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; A desvaloriza\u00e7\u00e3o dos cuidadores familiares n\u00e3o \u00e9 somente dentro de casa e a situa\u00e7\u00e3o se agrava entre as mulheres Foto: Emanuelle Pasqualotto &nbsp; Terezinha Maciel e Adriana Lara s\u00e3o duas cuidadoras familiares que, ao longo da trajet\u00f3ria de cuidado, sempre buscaram por seus direitos. 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