{"id":4451,"date":"2026-08-18T15:42:36","date_gmt":"2026-08-18T18:42:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/?p=4451"},"modified":"2026-08-18T15:42:36","modified_gmt":"2026-08-18T18:42:36","slug":"o-corpo-feminino-na-performance","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/o-corpo-feminino-na-performance\/","title":{"rendered":"O corpo feminino na performance"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><i><span style=\"font-weight: 400\">Lilly Orchid enfrenta ass\u00e9dio e preconceito nos palcos da cena drag em Ponta Grossa<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Foto: Jo\u00e3o Pimentel<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Giovana Fonseca, 26 anos, curitibana residente em Ponta Grossa, \u00e9 quem d\u00e1 vida a drag Lilly Orchid h\u00e1 mais de quatro anos. Mesmo de subir ao palco, sua exist\u00eancia j\u00e1 provoca questionamentos. Em um mundo onde a maquiagem \u00e9 imposta como um adere\u00e7o feminino, a press\u00e3o est\u00e9tica persegue mulheres cotidianamente, muitas vezes moldada para agradar o olhar masculino. Ser mulher e fazer drag ainda provoca um certo estranhamento, o que \u00e9, por si s\u00f3, contradit\u00f3rio. Afinal, n\u00e3o \u00e9 essa mesma feminilidade que \u00e9 cobrada diariamente? Somos cobradas para performar o feminino, vestir roupas coloridas, mas n\u00e3o t\u00e3o chamativas, usar vestidos, mas n\u00e3o t\u00e3o curtos, maquiar-se, mas n\u00e3o a ponto de ultrapassar o limite do \u201caceit\u00e1vel\u201d. H\u00e1 sempre uma medida obrigat\u00f3ria para tentar regrar e reprimir mulheres. E a arte drag, por natureza, rompe com esta expectativa<\/span><span style=\"font-weight: 400\">.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">\u00c9 nesse rompimento que surge o inc\u00f4modo, como se a arte drag estivesse condicionada a um corpo espec\u00edfico (o masculino), como se houvesse uma regra silenciosa determinando quem pode e quem n\u00e3o pode performar. Para Lilly Orchid, essa tens\u00e3o n\u00e3o se manifesta apenas simbolicamente, ela atravessa a mente e o corpo. \u201cComo mulher, no geral, voc\u00ea\u00a0 lida com muitos julgamentos. Se usar uma roupa diferente, alguma coisa fora do esperado, isso j\u00e1 chama aten\u00e7\u00e3o. E eu acho que, por estar montada, as pessoas t\u00eam a impress\u00e3o de que voc\u00ea est\u00e1 ali para elas, que voc\u00ea vira um objeto. Como se, por estar toda produzida, passasse a ser s\u00f3 uma personagem\u201d, diz. Lilly tamb\u00e9m relata quando o ass\u00e9dio deixa de ser mental e se torna f\u00edsico. \u201cJ\u00e1 aconteceu de pegarem no meu peito em evento e eu ficar extremamente desconfort\u00e1vel e sem saber o que fazer. For\u00e7aram uma proximidade que eu sei que n\u00e3o aconteceria se eu n\u00e3o estivesse montada em drag. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o completamente problem\u00e1tica\u201d, relata Lilly.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O senso comum ainda associa a arte drag a homens LGBTQIAPN+ que performam o feminino numa l\u00f3gica de invers\u00e3o de g\u00eanero. Mas essa leitura estereotipada \u00e9 uma linguagem mais complexa que isso. Mulheres, cis e trans, nunca estiveram ausentes dessa hist\u00f3ria, na verdade, muitas s\u00e3o refer\u00eancia do movimento. Contudo, quando mulheres deixam de ser apenas inspira\u00e7\u00e3o e passam a ocupar o palco, encontram resist\u00eancia e, por vezes, viol\u00eancia. \u201c\u00c0s vezes a gente t\u00e1 andando na rua, em grupo de drags, e as pessoas passam mexendo, falando coisas. \u00c9 algo que acontece e voc\u00ea tem que aprender a lidar na hora\u201d, comenta Lilly.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Nesse processo, Lilly aprende coisas n\u00e3o por escolha, mas por necessidade e sobreviv\u00eancia. \u00c9 a realidade de muitas mulheres:entender como reagir e como se posicionar. A drag conta que ficar em sil\u00eancio nunca foi uma op\u00e7\u00e3o. \u201cEu cheguei a falar que n\u00e3o sabia o que fazer e que estava me sentindo desconfort\u00e1vel. Me disseram que eu n\u00e3o deveria aceitar isso calada, que deveria falar com a seguran\u00e7a e identificar quem assedia. Porque n\u00f3s, como mulher, \u00e0s vezes \u00e9 socializada para ficar quieta, para relevar. N\u00e3o \u00e9 assim que funciona, cada vez mais eu sinto que tem que pontuar, tem que cortar\u201d, ressalta.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_4454\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-4454\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-4454\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/08\/Foto_-Joao-PImentel-1-1-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/08\/Foto_-Joao-PImentel-1-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/08\/Foto_-Joao-PImentel-1-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/08\/Foto_-Joao-PImentel-1-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/08\/Foto_-Joao-PImentel-1-1-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/08\/Foto_-Joao-PImentel-1-1-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/08\/Foto_-Joao-PImentel-1-1-1232x821.jpg 1232w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/08\/Foto_-Joao-PImentel-1-1-1620x1080.jpg 1620w, https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/wp-content\/uploads\/sites\/282\/2026\/08\/Foto_-Joao-PImentel-1-1-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-4454\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Jo\u00e3o Pimentel<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Essa viv\u00eancia revela uma contradi\u00e7\u00e3o profunda. A arte drag \u00e9 frequentemente entendida como espa\u00e7o de liberdade, de experimenta\u00e7\u00e3o e de pot\u00eancia, o que realmente \u00e9, mas essa liberdade n\u00e3o \u00e9 sem limites. Lilly atua em diferentes \u00e1reas, como casas noturnas, pe\u00e7as teatrais, eventos privados e shows de drag queens. Os ambientes deveriam passar seguran\u00e7a, mas nem sempre \u00e9 isso que acontece. \u201cVoc\u00ea est\u00e1 em um\u00a0 ambiente em que se sente muito livre, se divertindo, fazendo sua arte. Muitas vezes \u00e9 um espa\u00e7o com presen\u00e7a <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">queer<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, LGBT, que deveria ser seguro. E a\u00ed algu\u00e9m atravessa esse limite. Parece que, quando veem um corpo feminilizado, entendem que n\u00e3o precisa de consentimento\u201d, conta. Ao ocupar esse espa\u00e7o, Orchid n\u00e3o apenas tenciona normas de g\u00eanero, mas exp\u00f5e como essas normas continuam operando, inclusive dentro de ambientes que se intitulam livres de preconceitos. Isso n\u00e3o evidencia apenas quem e como se faz drag, mas sim como diferentes corpos s\u00e3o lidos e tratados. \u201c\u00c9 uma coisa que eu j\u00e1 vi acontecer com outras colegas tamb\u00e9m. \u00c9 complicado\u201d, diz.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Apesar de experi\u00eancias ruins vividas com pessoas n\u00e3o necessariamente da comunidade LGBTQIAPN+, Lilly foi muito bem recebida na cena drag da cidade. \u201cElas sempre foram muito acolhedoras e me incentivaram muito. Mesmo no in\u00edcio, quando eu mesma me perguntava: \u2018Ah, ser\u00e1 que sou bem-vinda aqui? Como \u00e9 esse ambiente? V\u00e3o me receber bem?\u2019, a resposta era: \u2018sim!\u2019\u201d, afirma.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Lilly Orchid, com nome inspirado nas flores e cores que mais gosta (lil\u00e1s e orqu\u00eddea), come\u00e7ou sua trajet\u00f3ria em um concurso de drag queens no Janela Bar em 2023. Desde aquele dia, explora sua performance art\u00edstica, busca novas refer\u00eancias na arte, incentiva outras mulheres a embarcarem na cena drag e a n\u00e3o se manterem caladas quando o limite do seu corpo \u00e9 ultrapassado.<\/span><\/p>\n<p><b>Ficha t\u00e9cnica<\/b><\/p>\n<p><b>Produ\u00e7\u00e3o:\u00a0<\/b>Marina Ranzani<\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o:\u00a0<\/b>Hendryo Andr\u00e9<\/p>\n<p><b>Edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o: <\/b>Emanuelle Pasqualotto, Jo\u00e3o Pimentel e Larissa Didres<\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o:\u00a0<\/b>Aline Rosso e Muriel\u00a0Em\u00eddio Pessoa do Amaral<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lilly Orchid enfrenta ass\u00e9dio e preconceito nos palcos da cena drag em Ponta Grossa Foto: Jo\u00e3o Pimentel &nbsp; Giovana Fonseca, 26 anos, curitibana residente em Ponta Grossa, \u00e9 quem d\u00e1 vida a drag Lilly Orchid h\u00e1 mais de quatro anos. 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