{"id":4567,"date":"2026-08-25T16:29:39","date_gmt":"2026-08-25T19:29:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/?p=4567"},"modified":"2026-08-25T16:32:56","modified_gmt":"2026-08-25T19:32:56","slug":"as-tres-dandaras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/as-tres-dandaras\/","title":{"rendered":"As tr\u00eas Dandaras"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><i><span style=\"font-weight: 400\">H\u00e1 cinco anos, Dandara Castro transforma sua trajet\u00f3ria como drag queen preta e mulher trans em uma forma de ocupar espa\u00e7os\u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Qual \u00e9 o pre\u00e7o de se tornar uma refer\u00eancia? Muitos se perguntam e imaginam a dificuldade de se encontrar nesse papel. Dandara Castro d\u00e1 vida \u00e0 Dandara Raven Bondage Mugler, com quem compartilha, al\u00e9m do nome, o peso de ser a \u00fanica drag queen preta de Ponta Grossa. \u201cO cen\u00e1rio daqui da cidade at\u00e9 hoje \u00e9 muito escasso de drags pretas. Foi o que me motivou a continuar na cena. N\u00f3s\u00a0 s\u00f3 vemos as\u00a0 refer\u00eancias para fora, ent\u00e3o eu resolvi ser uma refer\u00eancia\u201d, afirma. Mas isso n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo direto de for\u00e7a ou status. Para ela, o impacto \u00e9 mais complexo: \u201cO lugar de preta \u00fanica n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o bom quanto parece. Se as pessoas v\u00e3o buscar refer\u00eancia em voc\u00ea, as pessoas v\u00e3o cobrar. Se eu fosse s\u00f3 preta j\u00e1 ia pesar, entende?\u201d. Dandara busca usar suas performances para al\u00e9m\u00a0 da beleza e carisma. Ela busca conscientizar o p\u00fablico sobre o lugar que cada um tem na sociedade. \u201cAo mesmo tempo que \u00e9 inspirador, \u00e9 assustador tamb\u00e9m, sabe? Em todas as minhas performances, quando tenho a oportunidade de conversar com o p\u00fablico, eu falo justamente sobre isso, para fazer os outros pensarem e sa\u00edrem da caixinha\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O nome \u201cDandara\u201d surgiu na vida de Dandara Castro muito antes de qualquer contato com programas sobre Drag queens ou com o universo drag. Ela sempre teve uma grande admira\u00e7\u00e3o por Dandara dos Palmares, guerreira do Quilombo dos Palmares no s\u00e9culo XVII, uma figura hist\u00f3rica ainda pouco celebrada se comparada ao marido, Zumbi dos Palmares. A escolha se consolidou tamb\u00e9m pela mem\u00f3ria de Dandara dos Santos, travesti v\u00edtima de LGBTc\u00eddio em fevereiro de 2017, em Fortaleza, Cear\u00e1. Onde foi espancada e torturada brutalmente por cinco homens. O crime impulsionou a <\/span><a href=\"https:\/\/www.camara.leg.br\/noticias\/1080901-comissao-aprova-pena-maior-para-homicidio-que-envolver-discriminacao-contra-populacao-lgbti\/\"><span style=\"font-weight: 400\">Lei 7292\/2017<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400\">, com seu nome, que classifica o LGBTc\u00eddio como crime hediondo. Para ela, essas refer\u00eancias foram suficientes para a escolha da personagem e da pr\u00f3pria vida: \u201cEu nunca cogitei outro nome, nunca procurei outro nome. Esse foi o nome certo\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A sua primeira vez caracterizada de\u00a0 drag n\u00e3o serviu apenas como entretenimento mas como um processo de autoaceita\u00e7\u00e3o. \u201cEu me olhei no espelho e, para mim, como uma mulher trans, isso tem um peso diferente. Eu me vi como nunca tinha me visto na vida. Veio uma necessidade de mostrar isso para as pessoas, de dizer que essa pessoa realmente sou eu\u201d. A estreia aconteceu no antigo bar Las Fridas. Dandara lembra que se achava feia na \u00e9poca, mas que estava confiante. Aquele momento mudou a sua trajet\u00f3ria. \u201cLembro de sair e ver as pessoas me olhando. \u00c9 exatamente o que eu gosto na arte drag, a estranheza que causa, mas, ao mesmo tempo, a beleza que ela carrega\u201d, conta.<\/span><\/p>\n<p><b>\u201cNingu\u00e9m faz drag por dinheiro, faz por amor!\u201d<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O fato da arte drag queen consistir em maquiar-se e performar pap\u00e9is femininos n\u00e3o significa que seja voltada exclusivamente ao p\u00fablico<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> LGBTQIAPN+.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> Reescrever texto em azul Em cinco anos de carreira, Dandara atuou, e ainda atua, como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">hostess (explicar express\u00e3o),<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> recepcionando eventos, animando a pista e servindo shots. \u201cDurante tr\u00eas anos da minha vida, eu n\u00e3o era contratada para estar em locais LGBT\u2019s. Por mais que existissem pessoas LGBT\u2019s nesses lugares, o p\u00fablico era majoritariamente h\u00e9tero\u201d, relata. Isso exigia outro tipo de esfor\u00e7o,\u00a0 como buscar mais refer\u00eancias para agradar a uma plateia diferente. \u201cEssa performance \u00e9 um pouco mais dif\u00edcil, justamente porque esse p\u00fablico \u00e9 cr\u00edtico e dif\u00edcil de agradar, ainda mais sendo de uma das letras da sigla<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> (T) <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">que mais \u00e9 atacada.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O desafio mais recorrente que enfrenta na cidade, \u00e9 a falta de remunera\u00e7\u00e3o adequada e a <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">n\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> contrata\u00e7\u00e3o de drags em casas noturnas: \u201cantes de eu saber me impor e colocar o meu pre\u00e7o e o meu valor, j\u00e1 tiveram\u00a0 muitas vezes em que me pagaram R$70 para ficar cinco, seis horas em cima de um salto, sendo simp\u00e1tica e bonita\u201d. Para ela, essa \u00e9 uma das maiores desmotiva\u00e7\u00f5es, agravada pelo uso do conceito de<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> \u201cPink Money\u201d<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, o poder de compra da popula\u00e7\u00e3o LGBT: \u201cem alguns eventos de que participei, vi que as pessoas n\u00e3o estavam fazendo pela arte drag, faziam porque queriam p\u00fablico e precisavam de dinheiro. Ent\u00e3o n\u00e3o pagavam bem as drags. As drags traziam o p\u00fablico, o p\u00fablico pagava, mas e as drags? Ficavam como?\u201d, relata.<\/span><\/p>\n<p><b>A heran\u00e7a da passarela<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Desde cedo, Dandara esteve pr\u00f3xima das passarelas e competi\u00e7\u00f5es em Ponta Grossa, influenciada por sua m\u00e3e, que foi rainha do carnaval da cidade por cerca de uma d\u00e9cada. Em 2026, ela conseguiu unir o legado da m\u00e3e ao seu pr\u00f3prio trabalho. A convite de L\u00e9o Pasetti, desfilou como drag na Avenida Visconde de Mau\u00e1. \u201cFoi fant\u00e1stico e incr\u00edvel\u00a0 ver a receptividade das pessoas em uma cidade que ainda \u00e9 muito conservadora, mas ver essa recep\u00e7\u00e3o na rua foi demais.\u201d Ap\u00f3s o desfile, Dandara foi convidada a participar do concurso Rainha Trans de Ponta Grossa, no qual conquistou o 3\u00ba lugar. Ela demonstra alegria em ocupar espa\u00e7os al\u00e9m das casas de shows tradicionais: \u201cQuem pensaria que uma drag queen estaria desfilando no carnaval, sambando?\u201d. Para montar a apresenta\u00e7\u00e3o do concurso, Dandara buscou o apoio direto da m\u00e3e, que atuou por muitos anos como professora de samba, ela se tornou a maior apoiadora e cr\u00edtica durante o processo, o que aproximou muito as duas. \u201cEla me fazia treinar todos os dias, e isso foi muito gostoso porque nos aproximou bastante. Ela me apresentou ao universo dela, n\u00e3o s\u00f3 o universo do <\/span><b><i>samba<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">, mas o universo de uma <\/span><b><i>rainha<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400\">\u201d.<\/span><\/p>\n<p><b>O sonho<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Quando perguntada sobre o futuro, Dandara n\u00e3o hesita em definir o seu maior desejo. Trabalhar com a arte drag \u00e9 o centro dos seus planos, ainda que venha acompanhado por limita\u00e7\u00f5es locais. \u201c\u00c9 isso que eu quero fazer da minha vida. \u00c9 o trabalho que eu quero ter. \u00c9 o meu sonho a longo prazo\u201d, conta. Ela reconhece a import\u00e2ncia do apoio que recebe, mas precisa manter os p\u00e9s no ch\u00e3o. \u201cAo mesmo tempo sei que, infelizmente, talvez isso nunca aconte\u00e7a aqui em Ponta Grossa, de trabalhar s\u00f3 com a arte drag. Mas eu nunca digo nunca\u201d. A busca pela mudan\u00e7a de ares tamb\u00e9m vem da necessidade de encontrar pares e vivenciar refer\u00eancias de perto. Por muito tempo, a \u00fanica drag preta com quem teve um contato mais pr\u00f3ximo foi a curitibana Yasmin Carraro. Ir para centros maiores e vivenciar outras manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, como a cultura \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Ballroom\u201d<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, \u00e9 uma de suas metas. \u201cTenho o sonho de conhecer essa cultura de perto, estar nesses lugares para pegar refer\u00eancia e trazer para c\u00e1 tamb\u00e9m.\u201d. O desejo de ocupar esses espa\u00e7os n\u00e3o significa abandonar Ponta Grossa, mas sim vencer o vazio de ser uma das poucas figuras pretas no palco da cidade. \u201cQueria ver outras pessoas pretas comigo, para fazermos n\u00fameros juntos. J\u00e1 performei m\u00fasicas da Beyonc\u00e9, por exemplo, mas n\u00e3o tenho com quem compartilhar essa cultura aqui em Ponta Grossa. Ela n\u00e3o existe na cidade, existe em Curitiba. Eu sigo v\u00e1rias de l\u00e1, mas o meu sonho \u00e9 estar nesses lugares\u201d. Quando Dandara come\u00e7ou a inserir tem\u00e1ticas de religi\u00f5es de matriz africana e de combate ao racismo em suas apresenta\u00e7\u00f5es, o receio do preconceito ainda era um obst\u00e1culo. Com o tempo e com a experi\u00eancia no teatro, a arte tornou-se seu principal pilar. Com o espet\u00e1culo intitulado \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">As Tr\u00eas Dandaras\u201d<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, ela trouxe para o palco as hist\u00f3rias de Dandara dos Palmares, da travesti Dandara dos Santos e da sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria como drag e mulher trans. Logo em seguida, desenvolveu a performance \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A Revolta de Dandara\u201d<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, com a m\u00fasica <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Gasolina<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, de teor antirracista. \u201cNa \u00e9poca, eu tinha muito medo de falar sobre isso com a minha drag, mas decidi fazer. Na performance, trouxe uma personifica\u00e7\u00e3o de Dandara dos Palmares fugindo dos feitores, at\u00e9 que se cansa daquilo e resolve se reerguer. \u00c9 sobre cansar de ficar no lugar de v\u00edtima. \u00d3bvio que \u00e9 importante entender toda a trajet\u00f3ria, mas a ideia era passar a mensagem de &#8216;cansei de apanhar&#8217;\u201d, explica. Isso foi um divisor de \u00e1guas na vida de Dandara, antes, onde existia cautela para apresentar o que gostava, hoje n\u00e3o se v\u00ea mais nesse lugar. \u201cDepois que eu vivi esse momento, criei essa performance e fiz tudo isso, n\u00e3o tenho mais medo de nada. N\u00e3o tenho mais medo de apresentar o que eu acredito\u201d.<\/span><\/p>\n<p><b>Ficha t\u00e9cnica<\/b><\/p>\n<p><b>Produ\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Marina Ranzani<\/span><\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Hendryo Andr\u00e9<\/span><\/p>\n<p><b>Edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Celyne Stefani, Emilly Paitch e Maria Eduarda Leme\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Aline Rosso e Muriel Em\u00eddio Pessoa do Amaral<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 cinco anos, Dandara Castro transforma sua trajet\u00f3ria como drag queen preta e mulher trans em uma forma de ocupar espa\u00e7os\u00a0 Qual \u00e9 o pre\u00e7o de se tornar uma refer\u00eancia? Muitos se perguntam e imaginam a dificuldade de se encontrar nesse papel. 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