{"id":4673,"date":"2026-09-03T11:40:04","date_gmt":"2026-09-03T14:40:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/?p=4673"},"modified":"2026-09-17T10:36:47","modified_gmt":"2026-09-17T13:36:47","slug":"tradicao-que-deixa-marcas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/tradicao-que-deixa-marcas\/","title":{"rendered":"Tradi\u00e7\u00e3o que deixa marcas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><i><span style=\"font-weight: 400\">75% das trabalhadoras dom\u00e9sticas n\u00e3o t\u00eam carteira assinada<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Em 2026, ainda existe a associa\u00e7\u00e3o dos trabalhos dom\u00e9sticos \u00e0s mulheres. Cuidar da casa e dos familiares ainda s\u00e3o vistos como atividades inerentes ao g\u00eanero feminino. Apesar da luta do movimento feminista, principalmente desde a d\u00e9cada de 1970, que visava a exig\u00eancia de remunera\u00e7\u00e3o diante do trabalho dom\u00e9stico e romper com a imposi\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres, movimentos atuais da internet pregam o trabalho de cuidadora familiar de forma romantizada, sem considerar dificuldades e problemas<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O movimento das \u201ctradwives\u201d (abrevia\u00e7\u00e3o de esposas tradicionais, do ingl\u00eas) ganhou visibilidade nas redes sociais por meio de influenciadoras que romantizam a rotina dom\u00e9stica e a dedica\u00e7\u00e3o exclusiva \u00e0 fam\u00edlia. S\u00e3o quase 230 mil posts somados com a hashtag no<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> Instagram <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">e no <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Tiktok<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">. Por meio de fotos e v\u00eddeos curtos, as influenciadoras romantizam e incentivam mulheres a serem donas de casa e submissas a seus maridos. Os conte\u00fados s\u00e3o produzidos dentro de grandes casas, com fartura e preocupa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, o que associa o trabalho de cuidado \u00e0 riqueza e valores tradicionais.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">No entanto, ao observar a classe social das principais influenciadoras do movimento no mundo, percebe-se a posi\u00e7\u00e3o privilegiada econ\u00f4mica e socialmente. Nara Smith e Hannah Neeleman, grandes nomes do movimento das <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">tradwives<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, s\u00e3o milion\u00e1rias. Elas faturam com a pr\u00f3pria monetiza\u00e7\u00e3o das redes sociais e possuem redes de apoio (como empregadas e bab\u00e1s) que n\u00e3o aparecem nos v\u00eddeos editados. Essa parte oculta da hist\u00f3ria leva o p\u00fablico a uma outra vis\u00e3odo trabalho de cuidado, influenciando pessoas de classes mais baixas a almejar a mesma realidade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">No entanto, sem as condi\u00e7\u00f5es privilegiadas iguais \u00e0s das influenciadoras, o cuidar torna-se uma tarefa complicada, dif\u00edcil de romantizar. Nicoly Sedlak (19) e Terezinha Maciel (61)\u00a0 s\u00e3o duas cuidadoras. Al\u00e9m do trabalho \u00e1rduo e pouco reconhecido, elas n\u00e3o tiveram rede de apoio, diferente do que \u00e9 mostrado nas redes sociais. Terezinha foi a \u00fanica respons\u00e1vel por seu pai, Juarez Maciel, durante dois anos. A mesma realidade se aplica a Nicoly que, apesar de estar em uma fam\u00edlia grande, \u00e9 a \u00fanica respons\u00e1vel por sua bisav\u00f3, Anastacia Sutil.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">As duas cuidadoras exp\u00f5em as dificuldades de realizar todas as tarefas di\u00e1rias sozinhas. \u201cNenhum dos meus irm\u00e3os quis ajudar a cuidar do meu pai, jogaram todo o trabalho em cima de uma pessoa s\u00f3\u201d, relata Terezinha. Al\u00e9m dos cuidados com o pai, Terezinha era respons\u00e1vel pelas tarefas dom\u00e9sticas de casa. \u201cTenho uma fam\u00edlia grande que poderia se dividir para cuidar, mas cada vez mais as obriga\u00e7\u00f5es recaem sobre mim\u201d, lamenta Nicoly. A jovem est\u00e1 no in\u00edcio da fase adulta e tenta equilibrar os cuidados com trabalho e estudos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O que \u00e9 visto na internet como \u201ctradi\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cbons valores\u201d \u00e9, na realidade, um trabalho exaustivo. Todas as entrevistadas s\u00e3o exemplos de como o senso de obriga\u00e7\u00e3o est\u00e1 presente nessa problem\u00e1tica. \u201cEra dif\u00edcil, mas n\u00e3o havia outra pessoa dispon\u00edvel, tinha que ser eu\u201d, relata Alesandra Machado, outra cuidadora, que era a principal respons\u00e1vel pela sa\u00fade de sua sogra, Silvia de Freitas, e pela cria\u00e7\u00e3o de\u00a0 tr\u00eas filhos. Adriana Lara, que passou a maior parte da vida cuidando de parentes enfermos, relata a mesma experi\u00eancia. \u201cO senso de responsabilidade nos faz esquecermos de n\u00f3s mesmas\u201d, afirma.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Todas as cuidadoras foram impactadas de forma negativa pelo trabalho de cuidado, diferente do mostrado nas redes sociais pelo movimento de \u201cesposas tradicionais\u201d. Michele Buss, cuidadora de sua m\u00e3e, Zilpha Carvalho, desabafa sobre as dificuldades desse trabalho. \u201cFoi a coisa mais dif\u00edcil que tive que fazer na vida\u201d. As entrevistadas relatam impactos econ\u00f4micos, sociais e na sa\u00fade, principalmente a mental. \u201cQuando eu tinha que cuidar, eu n\u00e3o pensava nas minhas emo\u00e7\u00f5es, senti tudo depois que as minhas responsabilidades acabaram\u201d, diz Adriana.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A romantiza\u00e7\u00e3o do trabalho de cuidado pode ser usada como uma forma de opress\u00e3o das cuidadoras. O esfor\u00e7o di\u00e1rio cont\u00ednuo \u00e9 visto como \u201camor\u201d e \u201cdever maternal\u201d. Na internet, \u00e9 associado \u00e0 est\u00e9tica, com casas e roupas arrumadas. \u00c9 o caso de Adriana, Alesandra, Terezinha, Michele e Nicoly, todas cuidadoras brasileiras que nunca receberam remunera\u00e7\u00e3o pelo trabalho de cuidar e sofrem com os danos causados pelo esfor\u00e7o cont\u00ednuo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O discurso a favor da submiss\u00e3o do g\u00eanero feminino e que refor\u00e7a o trabalho de cuidado a elas prejudica todas as mulheres, n\u00e3o apenas as cuidadoras. O trabalho dom\u00e9stico \u00e1rduo, visto como obriga\u00e7\u00e3o e amor, submete as mulheres \u00e0 dupla jornada e rela\u00e7\u00f5es familiares n\u00e3o saud\u00e1veis. \u201c\u00c9 um abuso deixar todas as responsabilidades para uma pessoa s\u00f3\u201d, desabafa Terezinha. \u201cAl\u00e9m de cuidadoras, temos outras fun\u00e7\u00f5es e desejos na vida\u201d, afirma Nicoly.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Esta reportagem integra uma colet\u00e2nea do livro-reportagem. Este cap\u00edtulo trata da submiss\u00e3o hist\u00f3rica do trabalho de cuidado \u00e0s mulheres. Leia o cap\u00edtulo anterior aqui. Acompanhe no Peri\u00f3dico as pr\u00f3ximas publica\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><b>Ficha t\u00e9cnica<\/b><\/p>\n<p><b>Produ\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Amanda Los<\/span><\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Hendryo Andr\u00e9<\/span><\/p>\n<p><b>Edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Celyne Stefani e Mafe Sperafico<\/span><\/p>\n<p><b>Edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o:\u00a0<\/b>Luiz Cruz e Matheus de Lara<\/p>\n<p><b>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o: <\/b><span style=\"font-weight: 400\">Aline Rosso e Muriel Em\u00eddio Pessoa do Amaral\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>75% das trabalhadoras dom\u00e9sticas n\u00e3o t\u00eam carteira assinada Em 2026, ainda existe a associa\u00e7\u00e3o dos trabalhos dom\u00e9sticos \u00e0s mulheres. 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