{"id":5058,"date":"2026-10-08T11:40:25","date_gmt":"2026-10-08T14:40:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/?p=5058"},"modified":"2026-10-20T15:54:53","modified_gmt":"2026-10-20T18:54:53","slug":"a-casa-do-luto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/a-casa-do-luto\/","title":{"rendered":"A Casa do Luto"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\">Foto: Canva<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em><span style=\"font-weight: 400\">Entre o sil\u00eancio do luto e a dor do desacolhimento: a jornada de mulheres que enfrentaram a perda gestacional diante de traumas m\u00e9dicos<\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Escrever sobre luto nunca foi uma tarefa f\u00e1cil. Antes de iniciar, deixo a reflex\u00e3o sobre a dor e tristeza, que apesar de passageiras, se tornaram para esta autora figuras \u00edntimas. Deixei de ver a tristeza como algo puramente negativo, e aprendi com as mulheres que entrevistei que, mesmo diante da morte, foram fi\u00e9is at\u00e9 o fim, n\u00e3o apenas a Deus, mas a si mesmas. Espero que ao escrever este e os pr\u00f3ximos cap\u00edtulos deste livro, eu possa acessar a cura do tal \u2018luto\u2019 e continuar fiel a quem fui e sempre serei.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Patr\u00edcia dos Santos Dobkowski Mainarte teve sua perda gestacional em mar\u00e7o de 2014, aos 38 anos. A costureira aut\u00f4noma relata que gravidez havia sido planejada por ela e pelo marido. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201cFicamos extremamente felizes, pois aconteceu do mesmo jeito que tinha sido com a primeira gesta\u00e7\u00e3o. Tudo dentro dos nossos planos, e tamb\u00e9m pensamos que estivesse nos planos de Deus tamb\u00e9m\u201d.<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Ao descobrir a gravidez, Patr\u00edcia e\u00a0 Lucas, n\u00e3o exitaram em compartilhar a not\u00edcia com amigos, fam\u00edlia e igreja. Apesar da comunidade apresentar uma resposta positiva a gravidez, Patr\u00edcia diz que expor a gravidez assim que confirmada, foi um erro. A filha do casal, Ester, na \u00e9poca com 3 anos, tamb\u00e9m estava animada, j\u00e1 que sempre pediu um irm\u00e3o. Na s\u00e9tima semana de gesta\u00e7\u00e3o, a costureira relata que sentiu dores p\u00e9lvicas baixas e um pequeno sangramento. Na gesta\u00e7\u00e3o de sua primeira filha, ela conta que passou por um deslocamento de placenta, o que na \u00e9poca justificou as dores. No dia seguinte ao ocorrido, Patr\u00edcia continuou com mal-estar e aumento do sangramento, o que a levou a buscar atendimento m\u00e9dico imediato. No hospital, ela passou por uma ecografia, exame m\u00e9dico de imagem indolor, na esperan\u00e7a de ouvir o que seria apenas um descolamento ovular. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201cO m\u00e9dico nos informou de uma forma grotesca, que n\u00e3o tinha mais nada no meu \u00fatero, n\u00e3o havia mais batimentos card\u00edacos, e que era para eu me vestir. Isso para n\u00f3s foi uma bomba, a tristeza e decep\u00e7\u00e3o foram maiores que a alegria que t\u00ednhamos sentido no come\u00e7o\u201d, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">conta<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Ap\u00f3s a consulta, Patr\u00edcia foi encaminhada para passar pelo processo de curetagem, decis\u00e3o tomada pela m\u00e9dica plantonista que atendeu o casal. O aborto espont\u00e2neo ocorreu de forma retida, quando o feto para de se desenvolver e o corpo n\u00e3o expulsa os tecidos da gravidez. O processo natural de expelir o embri\u00e3o demoraria em torno de sete dias, o que poderia causar uma infec\u00e7\u00e3o, e risco \u00e0 sa\u00fade da mulher. Em casos de abortos retidos, \u00e9 necess\u00e1rio um procedimento para abertura do c\u00f3lon do \u00fatero, para evitar que no processo, o mesmo seja perfurado. Eram oito horas da noite quando Patr\u00edcia tomou um comprimido intravaginal, para dar in\u00edcio a este processo. A curetagem estava marcada para a manh\u00e3 seguinte, e as longas horas que seguiram foram de dores f\u00edsicas e emocionais. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201cPassavam as horas, e a dor era terr\u00edvel. Preferia ter tido uns 10 partos normais a estar passando por aquilo. Por volta de umas onze e meia, a m\u00e9dica retornou para ver como estava o andamento e se fosse preciso introduzir mais um comprimido. Ao fazer o toque constatou o c\u00f3lon totalmente aberto!\u201d.<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">No mesmo momento, ela foi finalmente encaminhada para o processo, n\u00e3o foi poss\u00edvel tomar anestesia geral e recebeu apenas uma anestesia nas costas, mesma usada em casos de ces\u00e1reas. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201cNestes momentos senti que estavam matando meu filho. Parecia uma mentira. Apesar de terem me explicado tudo, ainda parecia uma mentira.\u201d<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o houve explica\u00e7\u00e3o m\u00e9dica exata para o aborto espont\u00e2neo de Patr\u00edcia. Ela relata que a possibilidade era de malforma\u00e7\u00e3o, e que a crian\u00e7a iria nascer com alguma defici\u00eancia f\u00edsica ou mental, e que o corpo por si s\u00f3 decidiu interromper a gesta\u00e7\u00e3o. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201cRecebi alta na manh\u00e3 seguinte, ainda com muito mal estar, e enfrentar a vida aqui fora n\u00e3o foi f\u00e1cil. Explicar para Ester e falar sobre com todos que me perguntavam foi muito dolorido\u201d\u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Patr\u00edcia conta que os meses que se seguiram foram dif\u00edceis e tristes, e que o sonho de ser m\u00e3e novamente foi substitu\u00eddo por uma depress\u00e3o. A condi\u00e7\u00e3o foi agravada ap\u00f3s a cunhada, Pamela, perder o beb\u00ea com 38 semanas, seis meses depois, em outubro do mesmo ano. A comunidade em que as mulheres participavam ficou abalada, e segundo Patr\u00edcia, a resposta foi apoio e \u201cconselhos\u201d mais uma vez.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><b>O protestantismo e suas ideologias<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O professor de hist\u00f3ria e mestre Ot\u00e1vio Teles Indart aborda em sua pesquisa <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Entre chronos e kair\u00f3s: renova\u00e7\u00e3o lit\u00fargica e identidade cultural do protestantismo brasileiro em O Novo Canto da Terra, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">como teologias mais liberais nos anos 1960 e 1970, acabaram influenciando a igreja evang\u00e9lica protestante no Brasil, e como a ela fez para construir um di\u00e1logo ou uma rela\u00e7\u00e3o com a realidade brasileira econ\u00f4mica, social e cultural. O contexto da pesquisa tamb\u00e9m \u00e9 a ideia de abertura, de novas oportunidades e de novas rela\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas. Na vis\u00e3o do pesquisador, as igrejas evang\u00e9licas reformam sua identidade cultural a partir dessa realidade brasileira que est\u00e1 tamb\u00e9m em transforma\u00e7\u00e3o por conta do contexto hist\u00f3rico.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O tema do aborto sempre esteve relacionado com pautas progressistas dentro de igrejas. Vale lembrar que no Brasil, as igrejas evang\u00e9licas s\u00e3o consequ\u00eancia da vinda do protestantismo ao pa\u00eds no s\u00e9culo XIX, que deu in\u00edcio a vertentes religiosas at\u00e9 chegarmos hoje, no que conhecemos por \u201cigrejas evang\u00e9licas\u201d. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201cO protestantismo no Brasil se configura de um jeito bastante conservador e at\u00e9 um tanto quanto reacion\u00e1rio. E particularmente falando, perdeu muitas oportunidades em se aproximar de fato da cultura brasileira. N\u00f3s vemos um fen\u00f4meno recente de ascens\u00e3o dos evang\u00e9licos na m\u00eddia, na pol\u00edtica, uma influ\u00eancia na cultura e tudo mais, mas \u00e9 uma influ\u00eancia que eu vejo bastante complicada\u201d, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">relata Ot\u00e1vio<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O professor explica sobre uma grande enxurrada de a\u00e7\u00f5es mission\u00e1rias nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX que v\u00eam para o Brasil, principalmente dos Estados Unidos. Os mission\u00e1rios ent\u00e3o trazem pensamentos, e ideologias pol\u00edticas pr\u00f3prias, como um modo de vida e como encarar a realidade do mundo. A partir disso, foi criado no Brasil o costume de ser evang\u00e9lico, sem ser brasileiro. Ot\u00e1vio explica:<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201cEra de condenar tudo aquilo que era visto no pa\u00eds, da cultura popular brasileira, como algo que n\u00e3o poderia fazer parte do ser evang\u00e9lico, da pessoa convertida \u00e0 f\u00e9 protestante. Ela n\u00e3o poderia ser em algum sentido brasileira, porque ela tinha que abrir m\u00e3o dessas pr\u00e1ticas culturais que n\u00e3o seriam condizentes com o evangelho, por exemplo, ou com a vida protestante, a vida evang\u00e9lica\u201d.<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201cVoc\u00ea acabava [se] afastando, demonizando elementos culturais que n\u00e3o deveriam ter sido demonizados. Voc\u00ea tem recentemente a discuss\u00e3o no Congresso de acabar com qualquer tipo ou quase todos os tipos de aborto legal, o que seria, de certa maneira, um retrocesso grande. Isso j\u00e1 \u00e9 complexo na sociedade brasileira, sempre foi, e dentro do mundo gospel ou evang\u00e9lico, isso \u00e9 muito mais\u201d.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">O pesquisador afirma que a grande maioria das igrejas evang\u00e9licas se op\u00f5e ao aborto sem nenhum ou qualquer di\u00e1logo: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">\u201cse n\u00e3o existe di\u00e1logo, quando acontece, a maior parte das igrejas n\u00e3o vai saber lidar, n\u00e3o vai saber acolher, aconselhar, ou cuidar da vida da mulher que passou por uma experi\u00eancia como essa. Mas eu vejo que as igrejas n\u00e3o est\u00e3o preparadas. Na verdade, acho que muitas igrejas n\u00e3o est\u00e3o preparadas para um monte de quest\u00e3o social\u201d.<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">A afirma\u00e7\u00e3o de Ot\u00e1vio \u00e9 vista de forma pr\u00e1tica na vida de muitas mulheres que passaram por perdas gestacionais, incluindo Patr\u00edcia. Ao abominar a ideia do aborto, as comunidades evang\u00e9licas n\u00e3o preparam o apoio necess\u00e1rio para estas situa\u00e7\u00f5es. O que resta para mulheres vulner\u00e1veis \u00e9 a cura atrav\u00e9s do tempo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Atualmente, Patr\u00edcia dos Santos Dobkowski Mainarte tem 50 anos, dois filhos, Ester e o pequeno Davi, que foi gerado por uma gesta\u00e7\u00e3o intitulada por ela \u201cperfeita\u201d, que aconteceu tr\u00eas anos depois do aborto espont\u00e2neo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">\u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Melhor \u00e9 ir \u00e0 casa onde h\u00e1 luto do que ir \u00e0 casa onde h\u00e1 banquete, pois naquela se v\u00ea o fim de todos os pessoas; e que os vivos o tomem em considera\u00e7\u00e3o&#8221; Eclesiastes 7:2<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><b>S\u00e9rie de reportagem<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400\">Este texto faz parte do livro-reportagem \u201cDo luto \u00e0 festa\u201d, s\u00e9rie de reportagem que aborda abortos espont\u00e2neos e seus desdobramentos dentro de comunidades evang\u00e9licas. Leia o cap\u00edtulo anterior <a href=\"https:\/\/www2.uepg.br\/periodico\/todas-as-coisas-cooperam-para-o-bem\/\">aqui<\/a>. Acompanhe no Peri\u00f3dico as pr\u00f3ximas publica\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Ficha t\u00e9cnica<\/strong><\/p>\n<p><strong>Produ\u00e7\u00e3o<\/strong>: Eduarda Leal<\/p>\n<p><strong>Supervis\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o<\/strong>: Hendryo Andr\u00e9<\/p>\n<p><strong>Edi\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o<\/strong>: Giulia Neves<\/p>\n<p><strong>Supervis\u00e3o de publica\u00e7\u00e3o<\/strong>: Aline Rosso e Muriel Em\u00eddio Pessoa do Amaral<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto: Canva Entre o sil\u00eancio do luto e a dor do desacolhimento: a jornada de mulheres que enfrentaram a perda gestacional diante de traumas m\u00e9dicos Escrever sobre luto nunca foi uma tarefa f\u00e1cil. 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