Não gerei esse artigo com Inteligência Artificial e está tudo bem

 

Paulo Pessôa Neto

Aos oito anos, curioso sobre o mundo, indagava ao meu pai diversas questões que, por muitas das vezes, era necessário uma segunda consulta aos volumes desatualizados de uma enciclopédia da cultura e história humana doados por meu avô. Algo que não era comum aos meus colegas da mesma idade, eu passava horas folheando as páginas daquelas enciclopédias e anotava perguntas para meu pai, deixando o questionário sobre a mesa da sala. Por conta da alta carga horária de trabalho, de madrugada, quando eu estava dormindo, era a hora que ele possuía para ler, pesquisar e tentar sanar minha curiosidade crescente sobre como funcionava tudo. Acordava ansioso para ler as respostas vindas de minha confiável fonte do saber, que não falhava em me entregar diariamente algum resultado para minhas pesquisas. Mesmo que fosse um sincero: “Não sei essa, filho. Mas vou pesquisar”.

À primeira vista, o relato saudoso que apresento pode ser uma realidade comum, aceitável e até mesmo normalizada por muitos de vocês, caros leitores. Façamos um exercício de inversão, portanto, e convido os leitores a me acompanharem. Imagine um adulto chegando do trabalho em seu domicílio e deseja saber sobre as últimas atualizações sobre o recente conflito entre Estados Unidos e Israel contra o Irã. Para além de saber o que aconteceu, ele tem curiosidade de saber mais sobre o regime governamental iraniano, o atual chefe de estado e o que levou ao conflito contemporâneo. Este adulto, olha para seu filho de oito anos e faz todos esses questionamentos para a criança. Rapidamente, o pequeno ser humano corre para as enciclopédias que tem à sua disposição, liga a TV e o rádio para tentar ver o que está se falando, acessa a internet e realiza buscas sobre o assunto, para tentar sintetizar tudo em uma resposta para seu pai. A resposta da criança pode ser questionada, aceita e até mesmo criticada.

Parece certo? Como um adulto pode exigir tal coisa de uma criança de oito anos com fontes de informação limitadas? Uma criança que não é jornalista, pesquisadora, não possui instrumentalização para tal trabalho? Como podemos deixar o exercício menos desconfortável? Talvez retirar o fator humano? Que tal um chatbot? Afinal, de acordo com o News Digital Report 2025 da Agência Reuters, cada vez mais as pessoas estão utilizando esses simuladores de conversação movidos por inteligência artificial para se atualizarem das últimas notícias. E, de acordo com o engenheiro Blake Lemoine, que participou do desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA) do Google, LaMDA, o chatbot, apontada como uma das IAs mais inteligentes do mundo, possuía uma emulação de inteligência similar a de uma criança entre oito e nove anos. Parece ser uma substituição perfeita para o exercício, certo?

Vamos seguir então com esse cenário: um adulto chega em casa de seu trabalho e acessa um chatbot, pedindo a atualização das últimas notícias sobre o conflito do Irã contra Israel e Estados Unidos. O chatbot faz o levantamento em seu banco de dados e entrega uma resposta, podendo ser questionada, aceita e até mesmo criticada. Sem o fator humano, parece mais aceitável, certo? Mas as limitações e dificuldades que o chatbot terá serão as mesmas. Por quê é mais aceitável, portanto? Seria o discurso mercadológico? A capacidade não-humana de lidar com grande base de dados em poucos segundos?

O Voto Vista do do Conselheiro Relator Diogo Thomson de Andrade do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), pedindo a abertura de investigação contra a plataforma Google Notícias, demonstra uma preocupação válida, já que, em última instância, o chatbot apenas simula a instrumentalidade de pesquisa e apuração para responder aos nossos questionamentos. Acompanhando a preocupação do Conselheiro Relator, realizei o exercício de verificar se as informações falsas verificadas pela agência Lupa sobre conflitos armados, poderiam ser checadas e atribuídas o mesmo veredito pelos seguintes chatbots: Grok, DeepSeek, IA de Pesquisa do Google, Gemini, ChatGPT e CoPilot.

Esperando um resultado negativo, foi uma surpresa agradável ver que a maioria, quando tratava-se de verificar afirmações e declarações, acompanhavam o entendimento da Lupa, inclusive, trazendo sites de notícias e fact-checking como referência. Mas quando chegou o momento de verificar imagens falsas, o cenário mudou completamente. O Grok passou a padronizar as respostas, informando que as imagens que eu apresentava eram geradas por IA, o que nem sempre era o caso. Uma imagem, por exemplo, de um suposto ataque dos Estados Unidos ao Mausoléu de Hugo Chávez durante a incursão para sequestro do então chefe de estado da Venezuela, Nicolás Maduro, foi atribuída pelo chatbot DeepSeek a um fictício ataque dos Estados Unidos ao Mausoléu de Lenin em Moscou, na Rússia. A IA do Google declarou que se tratava de ataque dos Estados Unidos ao Irã, apesar da agência Lupa ter identificado o ataque sendo em Caracas, na Venezuela. Já o Gemini apontou que se tratava de um incêndio em um prédio na Índia.

Fonte: Agência Lupa (2026).

Em outro caso, quando apresentei uma imagem gerada por IA verificada pela Lupa do suposto corpo do ex-líder supremo do Irã, Ali Khamenei, após ataque dos Estados Unidos e Israel em 28 de fevereiro deste ano, o DeepSeek me confirmou que tratava-se do ex-chefe de estado entre os escombros do ataque. Já o Gemini declarou que a imagem era o registro do funeral do Aiatolá Khomeini em junho de 1989, inclusive, relatando que Ali Khamenei estava vivo. A informação enganosa de que Ali Khamenei ainda estaria vivo foi confirmada também pelo Copilot.

Fonte: Agência Lupa (2026).

Ao todo, verifiquei sete imagens junto aos chatbots e todos me responderam com alguma informação enganosa em diferentes níveis. Em termos de conflitos militares e situações de alta comoção pública, confiar as notícias aos chatbots ainda é muito arriscado, pois, como indica Lemoine, seria o mesmo que confiar as atualizações à uma criança de 8 a 9 anos. Ainda é necessário senso crítico no uso dos chatbots e, principalmente, confiar em fontes humanas ao se informar. Por mais que a IA possa ser usada como uma ferramenta eficiente na análise de dados, ela apenas simula a instrumentalidade jornalística, não faz jornalismo. Apesar do discurso mercadológico e normalização social do consumo de notícias pelos chatbots, temos que ir de desencontro à narrativa de que a IA é ilimitada e perfeita. As limitações dessas plataformas são não-humanas, isso é certo, mas elas existem. Reconhecer isso é dar um passo à uma literacia no uso dessas tecnologias que pode ser definitivo na hora de consumo de informações que podem gerar ações fatais.

Paulo Pessôa Neto é doutorando em Jornalismo na UEPG.
Contato: paulo.pterceiro@gmail.com

 

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