{"id":753,"date":"2026-06-18T11:03:44","date_gmt":"2026-06-18T14:03:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www2.uepg.br\/rici\/?p=753"},"modified":"2026-06-26T16:33:14","modified_gmt":"2026-06-26T19:33:14","slug":"perspectivas-colonialidade-discursiva-polarizacao-afetiva-e-violencia-simbolica-nas-intervencoes-de-isabel-diaz-ayuso-no-mexico-apontamentos-para-uma-analise-critica-da-comunicacao-politica-contempora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www2.uepg.br\/rici\/perspectivas-colonialidade-discursiva-polarizacao-afetiva-e-violencia-simbolica-nas-intervencoes-de-isabel-diaz-ayuso-no-mexico-apontamentos-para-uma-analise-critica-da-comunicacao-politica-contempora\/","title":{"rendered":""},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www2.uepg.br\/rici\/wp-content\/uploads\/sites\/297\/2026\/06\/PERSPECTIVAS-logo.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-825\" src=\"https:\/\/www2.uepg.br\/rici\/wp-content\/uploads\/sites\/297\/2026\/06\/PERSPECTIVAS-logo-300x69.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"69\" srcset=\"https:\/\/www2.uepg.br\/rici\/wp-content\/uploads\/sites\/297\/2026\/06\/PERSPECTIVAS-logo-300x69.jpg 300w, https:\/\/www2.uepg.br\/rici\/wp-content\/uploads\/sites\/297\/2026\/06\/PERSPECTIVAS-logo.jpg 337w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>A se\u00e7\u00e3o Perspectivas prop\u00f5e um espa\u00e7o de reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre comunica\u00e7\u00e3o, pol\u00edtica, cultura e sociedade a partir de diferentes enfoques acad\u00eamicos e anal\u00edticos. Neste primeiro texto da se\u00e7\u00e3o, Ver\u00f3nica Pereyra Carrillo analisa as declara\u00e7\u00f5es de Isabel D\u00edaz Ayuso durante sua visita ao M\u00e9xico em 2026, abordando como os discursos pol\u00edticos contempor\u00e2neos articulam polariza\u00e7\u00e3o afetiva, revisionismo colonial e viol\u00eancia simb\u00f3lica na constru\u00e7\u00e3o do debate p\u00fablico contempor\u00e2neo.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Colonialidade discursiva, polariza\u00e7\u00e3o afetiva e viol\u00eancia simb\u00f3lica nas interven\u00e7\u00f5es de Isabel D\u00edaz Ayuso no M\u00e9xico: apontamentos para uma an\u00e1lise cr\u00edtica da comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica contempor\u00e2nea<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Ver\u00f3nica Pereyra Carrillo<\/em><\/strong><\/p>\n<p>\u201cChamo de pedagogias da crueldade todos os atos e pr\u00e1ticas que ensinam, habituam e programam os sujeitos a transmutar o vivo e sua vitalidade em coisas\u201d (Segato, 2018, p. 13).<\/p>\n<p>A visita de Isabel D\u00edaz Ayuso ao M\u00e9xico, em maio de 2026, gerou intensa controv\u00e9rsia pol\u00edtica e midi\u00e1tica devido a uma s\u00e9rie de declara\u00e7\u00f5es que articularam elementos de polariza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, revisionismo colonial reacion\u00e1rio e constru\u00e7\u00e3o discursiva do antagonismo.<\/p>\n<p>Nesse contexto, uma das manifesta\u00e7\u00f5es mais significativas da controv\u00e9rsia ocorreu em torno da chamada \u201cCelebra\u00e7\u00e3o pela Evangeliza\u00e7\u00e3o e a Mesti\u00e7agem no M\u00e9xico: Malinche e Cort\u00e9s\u201d, evento que condensou dimens\u00f5es pol\u00edticas, culturais e religiosas em uma encena\u00e7\u00e3o atravessada por intensas disputas simb\u00f3licas em torno da mem\u00f3ria colonial, da identidade latino-americana e da legitima\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea de narrativas conservadoras.<\/p>\n<p>Express\u00f5es como \u201cdo socialismo se sai\u201d ou a afirma\u00e7\u00e3o de que \u201co M\u00e9xico est\u00e1 a dois passos de seguir o caminho da Venezuela\u201d constituem opera\u00e7\u00f5es discursivas orientadas \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de uma emocionalidade pol\u00edtica baseada no medo, na amea\u00e7a e na divis\u00e3o moral do espa\u00e7o p\u00fablico.<\/p>\n<p>A partir de uma perspectiva cr\u00edtica latino-americana, esse tipo de discurso pode ser analisado em rela\u00e7\u00e3o aos processos contempor\u00e2neos de acirramento comunicacional. Al\u00e9m da confronta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, esse acirramento pressup\u00f5e a instala\u00e7\u00e3o permanente de uma l\u00f3gica afetiva de inimizade, na qual o advers\u00e1rio deixa de ser um interlocutor democr\u00e1tico para se tornar um perigo existencial. Nesse quadro, a comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica abandona progressivamente a delibera\u00e7\u00e3o racional e se desloca para formas de simplifica\u00e7\u00e3o bin\u00e1ria sustentadas em slogans emocionais, hip\u00e9rboles e narrativas de salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As declara\u00e7\u00f5es de Ayuso adquirem uma dimens\u00e3o particularmente significativa por terem sido pronunciadas no M\u00e9xico, pa\u00eds historicamente atravessado por disputas em torno da mem\u00f3ria colonial e da soberania cultural. A reivindica\u00e7\u00e3o expl\u00edcita e enviesada da heran\u00e7a hisp\u00e2nica, da \u201cmesti\u00e7agem\u201d e da evangeliza\u00e7\u00e3o reproduz matrizes de colonialidade do poder que, como adverte Rita Segato, continuam operando na Am\u00e9rica Latina por meio de hierarquias simb\u00f3licas que naturalizam rela\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas de domina\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, a apela\u00e7\u00e3o a uma suposta \u201cfam\u00edlia cultural\u201d entre Espanha e Am\u00e9rica Latina invisibiliza as viol\u00eancias constitutivas do processo colonial e reatualiza uma narrativa paternalista de legitima\u00e7\u00e3o imperial.<\/p>\n<p>Segato sustenta que as novas direitas produzem pedagogias da crueldade orientadas a dessensibilizar socialmente diante da desigualdade e da exclus\u00e3o. A constru\u00e7\u00e3o de inimigos ideol\u00f3gicos \u2014 o socialismo, o feminismo, os movimentos populares ou os governos progressistas \u2014 funciona como mecanismo de coes\u00e3o afetiva para setores conservadores. No caso do discurso de Ayuso, o elogio a governos ultradireitistas como o de Milei, na Argentina, ou a refer\u00eancia reiterada \u00e0 Venezuela como horizonte amea\u00e7ador operam como dispositivos disciplinadores: instala-se uma ret\u00f3rica do colapso destinada a produzir temor e rejei\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a determinadas experi\u00eancias pol\u00edticas latino-americanas.<\/p>\n<p>Por sua vez, as contribui\u00e7\u00f5es de Rey Lennon permitem compreender como a viol\u00eancia discursiva contempor\u00e2nea nem sempre assume formas explicitamente agressivas, embora admita que \u201ca exacerba\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia discursiva no plano simb\u00f3lico leva necessariamente a um comportamento agressivo\u201d (Rey Lennon, 2024). Essa viol\u00eancia pode manifestar-se por meio de opera\u00e7\u00f5es de simplifica\u00e7\u00e3o extrema, desumaniza\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e satura\u00e7\u00e3o emocional. A repeti\u00e7\u00e3o de slogans dicot\u00f4micos e o uso estrat\u00e9gico da provoca\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica geram cen\u00e1rios de alta intensidade afetiva nos quais o debate p\u00fablico se torna crescentemente hostil. Nesse contexto, a incita\u00e7\u00e3o ao \u00f3dio n\u00e3o se expressa necessariamente por meio de chamados diretos \u00e0 viol\u00eancia f\u00edsica, mas atrav\u00e9s da legitima\u00e7\u00e3o de climas sociais de intoler\u00e2ncia, desprezo e estigmatiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Diversos setores interpretaram essas declara\u00e7\u00f5es como uma interven\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter injerencista e provocador, particularmente pela associa\u00e7\u00e3o expl\u00edcita entre o governo mexicano e cen\u00e1rios de deriva autorit\u00e1ria ou colapso democr\u00e1tico. A controv\u00e9rsia resultante evidencia que a comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica transnacional consolidou-se como um espa\u00e7o estrat\u00e9gico de disputa simb\u00f3lica, no qual as novas direitas globais articulam repert\u00f3rios discursivos convergentes sustentados em matrizes anticomunistas, imagin\u00e1rios de restaura\u00e7\u00e3o imperial e din\u00e2micas crescentes de polariza\u00e7\u00e3o cultural e afetiva.<\/p>\n<p>Em conclus\u00e3o, o discurso de Isabel D\u00edaz Ayuso no M\u00e9xico constitui um fen\u00f4meno particularmente revelador das muta\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas da comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica transnacional e da reconfigura\u00e7\u00e3o das direitas radicalizadas. Para al\u00e9m da controv\u00e9rsia conjuntural, suas interven\u00e7\u00f5es evidenciam a crescente articula\u00e7\u00e3o entre espetaculariza\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica, revisionismo colonial, emocionaliza\u00e7\u00e3o extrema do debate p\u00fablico e constru\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de antagonismos pol\u00edticos irreconcili\u00e1veis.<\/p>\n<p>A partir das perspectivas te\u00f3ricas de Rita Segato e Rey Lennon, essas pr\u00e1ticas discursivas configuram formas de viol\u00eancia simb\u00f3lica que, al\u00e9m disso, contribuem ativamente para corroer as condi\u00e7\u00f5es culturais da democracia por meio da naturaliza\u00e7\u00e3o da hostilidade, da desumaniza\u00e7\u00e3o do advers\u00e1rio e da legitima\u00e7\u00e3o afetiva do \u00f3dio pol\u00edtico. Nesse quadro, a reivindica\u00e7\u00e3o acr\u00edtica da evangeliza\u00e7\u00e3o colonial e a utiliza\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica de slogans polarizantes n\u00e3o operam como epis\u00f3dios isolados, mas como parte de uma pedagogia pol\u00edtica da confronta\u00e7\u00e3o destinada a produzir ades\u00f5es identit\u00e1rias intensas a partir do medo, da exclus\u00e3o e do acirramento permanente do espa\u00e7o p\u00fablico.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>SEGATO, R. L. Contra-pedagogias da crueldade. Prometeo Libros, 2018.<\/p>\n<p>MIQUEL, A. Federico Rey Lennon: \u201cExacerbar a viol\u00eancia simb\u00f3lica gera o risco de que ela se converta em viol\u00eancia f\u00edsica\u201d. Politicar, 9 out. 2024. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/politicar.com.ar\/contenido\/76\/federico-rey-lennon-cuando-exacerbamos-la-violencia-en-el-plano-simbolico-correm?\">https:\/\/politicar.com.ar\/contenido\/76\/federico-rey-lennon-cuando-exacerbamos-la-violencia-en-el-plano-simbolico-correm<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><em>Ver\u00f3nica Pereyra Carrillo \u00e9 doutoranda em Comunica\u00e7\u00e3o (UCA).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><strong><em>Contato:<\/em><\/strong><em> veronicapereyra@yahoo.com.ar<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A se\u00e7\u00e3o Perspectivas prop\u00f5e um espa\u00e7o de reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre comunica\u00e7\u00e3o, pol\u00edtica, cultura e sociedade a partir de diferentes enfoques acad\u00eamicos e anal\u00edticos. 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