Entre Vilas e Avenidas: Memória do Espaço Urbano de Ponta Grossa – PR
Desde sua fundação, Ponta Grossa tem sua história urbana conduzida pelo trabalho, seja dos viajantes tropeiros, dos funcionários de estalagens, ou mais tarde, dos operários das ferrovias e fábricas que se instalaram na cidade. A localidade cresceu espontaneamente, sem planejamento,formando ruas e vilas conforme as necessidades desses trabalhadores. Tal desenvolvimento urbano foi aos poucos disciplinando os espaços da cidade, ora pela divisão de classes sociais, ora pela separação dos lugares de trabalhar e de morar (Sahr, 2007) e dessa forma Ponta Grossa foi adquirindo características que mantém até hoje. Conforme as paisagens urbanas sofrem os efeitos do tempo e mudam suas funcionalidades, percebemos as construções da área central recebendo revitalizações, e em alguns casos, tendo seus registros preservados e reconhecidos. Enquanto que as regiões periféricas se expandem e se transformam frequentemente sem receber um olhar cuidadoso, que lhes garanta a valorização de suas memórias.
Entretanto, uma iniciativa das/dos professoras/es do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) no ano de 1988, possibilitou emergir um projeto que propôs reunir fontes para a historiografia também dessa Ponta Grossa periférica, ampliando os olhares sobre as múltiplas memórias de Ponta Grossa. O projeto de extensão "Preservação da Memória Histórica dos Campos Gerais", elaborado pela Prof.ª Aída Mansani Lavalle e continuado pela Prof.ª Cirlei Francisca Gomes Carneiro, levantou um extenso acervo documental de algumas cidades dos Campos Gerais contando com mapas, entrevistas, livros e fotografias. Esses materiais foram doados ao Centro de Documentação e Pesquisa em História (CDPH) no ano 2000. Dentre a coleção iconográfica trazemos uma seleção de onze fotografias que demonstram cenários não tão habituais para a memória imagética pontagrossense. Não se tratam de prédios ornamentados ou das conhecidas ferrovias,mas de uma arquitetura cotidiana e popular, dos trabalhadores que construíram suas casas com as mesmas mãos que construíram os sobrados das avenidas centrais.
Vista Aérea de Ponta Grossa entre 1950 e 1960
Na parte superior da fotografia é possível observar o Pátio de Manobras da RFFSA.
Os espaços urbanos são territórios que têm uma forte carga simbólica atribuída a pontos de referência de memórias, onde a população se reconhece e constrói um sentimento de pertencimento. A partir disso a identidade urbana, gerada através de hábitos, monumentos e narrativas, sejam elas pessoais ou coletivas, constituem a cidade em si. Para Lefebvre (1991), as pessoas produzem a história conforme produzem a cidade, em um processo artístico e material de “produção e reprodução de seres humanos por seres humanos” (Lefebvre, 1991, p. 46-47, apud Santos, 2010, p.57).
Nesse sentido, a História Social não se constitui como um exercício de simples rememoração do passado e sim como uma ferramenta política e estratégica de identidades no tempo presente. Expor as fotografias das casas desses moradores que ajudaram a construir a cidade, é fundamental para dar visibilidade às trajetórias desses indivíduos. A preservação das imagens e estruturas dessas arquiteturas funciona como uma reparação da memória, deslocando o valor patrimonial da "pedra e cal", (Fonseca, 2003), das elites centrais para a madeira das regiões suburbanas.
Avenida Dr. Vicente Machado na década de 1930
Na imagem à esquerda vemos a Casa Ideal (atual Banco do Brasil), Casa Paulo Lange (Atual Casa Tango) e a Casa Juanita. À direita temos a Casa Portuguesa (atual Marlon Joalheiros).
Avenida Dr. Vicente Machado na década de 1950
Residência em madeira (1924–1925)
Casa construída entre 1924 e 1925, de propriedade de Abide Jorge Abib, em estilo colonial e com acabamentos em lambrequim.
Conforme demonstra Kohlrausch (2007), a arquitetura dessas edificações resulta do encontro entre diferentes tradições trazidas por diversos grupos de imigrantes que chegaram ao Paraná entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Poloneses, alemães, italianos, ucranianos, entre outros grupos contribuíram para a constituição de formas específicas de habitar, cujas marcas ainda podem ser identificadas em diferentes pontos de Ponta Grossa. Os lambrequins (ornamentos recortados em madeira ou metal posicionados sob os beirais dos telhados) não possuíam apenas função decorativa, seus desenhos, formas e acabamentos expressavam referências culturais e revelavam permanências das tradições arquitetônicas reelaboradas no contexto brasileiro e, particularmente, em Ponta Grossa.
As imagens também permitem observar diferentes formas de organizar os espaços domésticos e de ocupar os terrenos urbanos. A disposição das construções, a presença de varandas, quintais e áreas de circulação revelam maneiras específicas de estruturar a convivência cotidiana e de estabelecer relações com o entorno. As casas de madeira construídas em Ponta Grossa apresentavam diferentes formas de implantação nos terrenos. Entre elas destacam-se as chamadas "casas de polaco", caracterizadas pela varanda frontal, entrada principal centralizada e disposição transversal em relação ao lote. Outras tipologias acompanhavam longitudinalmente os terrenos urbanos, reorganizando a distribuição dos ambientes e ampliando as possibilidades de uso dos espaços internos. Ao observar essas moradias, torna-se possível compreender a casa não somente como uma estrutura física, mas como um espaço social no qual se materializam relações familiares, práticas de sociabilidade e experiências cotidianas.
Residência em madeira construída em 1947
Imóvel construído em 1947, de propriedade de Wladislau Charneski, localizada na Rua Alves de Azevedo, n° 448, no bairro Ronda.
Casa de madeira construída em 1952
Imóvel construído em 1952, de propriedade de Leonel dos Santos, localizada na Rua Sebastião Paraná , n° 1156, no bairro Ronda.
Casa de madeira, vista dos fundos
Casa de madeira vista pelos fundos, com sotão, chaminé e área anexa. Localizada na Rua Arthur de Azevedo, n° 48, no bairro de Oficinas.
As fotografias permitem observar para além das fachadas os processos históricos inscritos na materialidade urbana. Em algumas imagens, as casas ocupam o primeiro plano enquanto, ao fundo, surgem edifícios, avenidas e novas paisagens. Esse contraste evidencia que diferentes temporalidades coexistem no mesmo espaço. Essas construções não representam uma cidade que desapareceu, mas uma dimensão da história de Ponta Grossa que continua presente em vilas, ruas e formas de viver a cidade. Sua permanência em diferentes bairros sugere que a história urbana não se limita a arquiteturas ecléticas, Art Déco ou Colonial. Ela também se manifesta em construções destinadas às necessidades ordinárias da vida social. Nesses espaços permanecem marcas de trabalho, de circulações e convivências que contribuíram para a configuração da cidade e para sua expansão econômica.
“É poética a simplicidade das casinhas de madeira resistindo bravamente ao crescimento da cidade, guardando os segredos de uma estética tão elaborada que o único elemento além de uma essência minimalista seria a delicadeza sinuosa de uma linha de lambrequins, que só poderia estar ali, no equilíbrio perfeito da proporção das paredes com o telhado com sua textura e cores variantes com o caminho do sol”. (KOHLRAUSCH, 2007, p. 43).
Residência em madeira construída em 1945
Residência localizada na Rua Chile, nº 229, no bairro Ronda, de propriedade de Elisa Vargas. Ao fundo, podem ser observados os edifícios que marcam o processo de verticalização da cidade.
Casa de madeira, 1912
Residência em madeira construída em 1912, localizada na Rua Marquês do Paraná, nº 543, no bairro Ronda, de propriedade de Adolfo Schneider.
Casa de madeira, 1945
Casa de madeira construída em 1945, em estilo colonial, localizada na Rua Baltazar Lisboa, nº 800, no bairro Ronda, de propriedade de Angelo Zamproni.
Casas de madeira
Conjunto de casas de madeira localizado na Rua Emílio de Menezes, nº 411, no bairro Estrela.
Referências bibliográficas
FELTRAN, G. S. Periferias, direito e diferença: notas de uma etnografia urbana. Revista de Antropologia, São Paulo, Brasil, v. 53, n. 2, 2012. DOI: 10.11606/2179-0892.ra.2010.37711. Disponível em: https://revistas.usp.br/ra/article/view/37711.
FONSECA, M. C. L. Para Além da pedra e cal: por uma concepção ampla de patrimônio cultural. In: ABREU, R.; CHAGAS, M. Memória e Patrimônio: ensaios contemporâneos. São Paulo: DP&A, 2003. p. 56-76.
KOHLRAUSCH, A. J. F. Introdução à história da arquitetura de Ponta Grossa/PR: as casas de madeira, 1920-1950. 2007. Dissertação (Mestrado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007. Disponível em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/16/16133/tde-19052010-102628/.
PESAVENTO, S. J. Cidade, Espaço e Tempo: Reflexões Sobre a Memória e o Patrimônio Urbano. Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, [S. l.], n. 158, 2020. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/revistaihgrgs/article/view/109697.
PESAVENTO, S. J. História, Memória e Centralidade Urbana. Revista Mosaico - Revista de História, Goiânia, Brasil, v. 1, n. 1, p. 3–12, 2008. DOI: 10.18224/mos.v1i1.225. Disponível em: https://seer.pucgoias.edu.br/index.php/mosaico/article/view/225.
SAHR, C. L. L. Dimensões de Análise da Verticalização: exemplos da cidade média de Ponta Grossa/PR. Revista de História Regional, [S. l.], v. 5, n. 1, p. 9–36, 2007. Disponível em: https://revistas.uepg.br/index.php/rhr/article/view/2094.
SANTOS, L. M. R. A Cidade de Ponta Grossa (PR) enquanto expressão de arte: um olhar sobre a arquitetura pontagrossense. 2010. Tese (Doutorado) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2010. Disponível em: https://hdl.handle.net/1884/27550.
Curadoria
Jeferson Osni de Souza Junior
Sabrina da Silva Rocha
Profª. Dra. Elizabeth Johansen
Kamila dos Santos Mainardes
Deisy Anne Coimbra de Araujo
Stephanie Alves Nardini
