Além da votação que definiu as representantes do conselho para a gestão 2026 a 2028, a programação teve discussões sobre o papel da justiça e o impacto do luto e da memória em casos de feminicídio
por: Leonardo Correia
Representantes de diversos setores da sociedade e do poder público se reuniram ontem (08) no auditório do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Ponta Grossa (SindServ – PG) para o V Fórum Municipal dos Direitos da Mulher e da Eleição das Entidades não governamentais do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Ponta Grossa (CMDM – PG).
A mesa de abertura do evento foi formada pela presidenta do CMDM – PG, Andrea Marques, e pela secretária municipal da Família e do Desenvolvimento Social, Camila Calisto Sanches, que na ocasião representtou a prefeita Elizabeth Schmidt. Também estiveram presentes a vereadora Marisleidy Rama, da Procuradoria da Mulher, e a dra. Aniele Santana, do 2º Juizado Especial de Violência Doméstica, representando o poder judiciário. Compuseram a mesa ainda a presidenta da OAB de Ponta Grossa, dra. Maria Antonieta, Izabel Ribas representando a deputada estadual Mabel Canto e Angélica Mendes do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais. A composição foi completada pela presidenta da comissão organizadora do Fórum, Índia Mara de Souza Holleben, e a professora Dra. Silvana Mariano, da Universidade Estadual de Londrina.
Cada convidada explicou a importância de compor a mesa como mulher representando suas respectivas funções nas instituições de Ponta Grossa e destacou o Fórum Municipal dos Direitos da Mulher como um espaço fundamental para transformar vozes individuais em força coletiva. O papel do Conselho como lugar seguro para denunciar abusos, debater desigualdades, propor e fiscalizar políticas públicas que garantam segurança e autonomia também ganhou destaque.
Antes da palestra da professora Dra. Silvana Mariano, também foram realizadas homenagens a conselheiras que faleceram nos últimos dois anos, como forma de reconhecimento pela contribuição na luta pelos direitos das mulheres no município.
Feminicídio e Justiça: Punir é Suficiente?
A professora Silvana Mariano possui experiência na área de Sociologia com ênfase em estudos de gênero e atua principalmente em temas como feminismo, políticas públicas, cidadania e o enfrentamento ao feminicídio. A palestrante iniciou a exposição com o questionamento: “Quando o Sistema Responde ao Feminicídio: A quem ele está servindo?”. Durante a fala, ela reproduziu o trecho de um áudio de sua irmã Cidinéia Mariano, vítima de feminicídio. “Eu quero seguir em frente, eu quero erguer a cabeça, levantar cedo, trabalhar e cuidar dos meus filhos, como eu sempre fiz. A única coisa que eu quero é paz”. O relato revela o sofrimento da vítima e expõe o sofrimento de familiares diante da perda.
A palestrante revelou que, no Paraná, entre 2020 e 2024 foram analisados 858 processos judiciais de feminicídio com 899 réus e 934 vítimas entre casos consumados e tentados. Os dados são retirados do Laboratório de Estudos de Feminicídios (LESFEM), um espaço de pesquisa interdisciplinar que reúne pesquisadoras e pesquisadores, profissionais e estudantes da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Universidade Federal da Bahia (UFBA), Coletivo Feminino Plural (CFP) e Secretaria Municipal de Políticas para Mulheres de Londrina (SMPM). O objetivo do Laboratório é produzir e analisar dados sobre crimes de feminicídios, consumados e tentados, no Brasil, contribuindo para o monitoramento e visibilização do fenômeno e para a melhoria da qualidade das estatísticas oficiais e da resposta da sociedade e do Estado ao enfrentamento à violência contra mulheres e meninas, considerando os três pilares dessa política: prevenção, punição e restituição de direitos. Confira dados, pesquisas e levantamentos do LESFEM clicando [AQUI]
Silvana Mariano ressaltou, com base nos dados, que a condenação do agressor não desfaz o que aconteceu: “A condenação é uma resposta ao crime que já aconteceu. O que nós queremos é que o crime não aconteça”.
A palestrante considera que os crimes revelam marcas enraizadas de poder, controle e punição e menciona a edição 2025 do Memorial de Vítimas de Feminicídio no Paraná, “A Falta que Faz”, com o registro de 122 casos consumados no estado. A publicação se soma ao debate nacional sobre luto e memória, reforçado pela Lei Federal nº 15.334/2026, que instituiu o Dia Nacional de Luto e Memória às Mulheres Vítimas de Feminicídio, celebrado em 17 de outubro.
Durante o debate com o público, a professora foi indagada sobre acompanhamentos com recortes específicos como surdez e mulheres trans. “Nesse caso não é o dado que vai falar, mas sim a ausência que vai gritar”, observa, destacando a necessidade de aprimoramento da rede de enfrentamento à violência.
Como as pesquisas utilizam materiais jornalísticos, a palestrante também pontuou que muitas vezes as mortes de mulheres trans são retratadas de forma rasa nos jornais. “A imprensa é uma parceria fundamental nesse trabalho de ressignificação das histórias, de como falar sobre violência e retratar mulheres”. Ela acredita que o espaço de diálogo com o jornalismo contribui para a mudança na abordagem de casos de violência.
Eleição das Entidades não governamentais do CMDM
No período da tarde ocorreu a eleição para a nova composição do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Ponta Grossa com a inscrição de 15 entidades da sociedade civil que propõem a continuidade em pautas de proteção e empoderamento feminino no município. As entidades vencedoras assumem uma gestão de dois anos para o período de 2026 a 2028.
Inicialmente, houve a apresentação obrigatória de três minutos para cada entidade com as propostas para a nova gestão, em conformidade com o previsto no regulamento das eleições. Como a União por Moradia Popular de Ponta Grossa e Região (UMPPG) não cumpriu este requisito, acabou desclassificada da eleição. Participaram da votação 14 entidades e o resultado foi disponibilizado no mesmo dia.
As entidades que assumem as dez vagas da sociedade civil no conselho são: Associação Comercial, Industrial e Empresarial de Ponta Grossa (ACIPG), Associação Flor de Liz LGBT, Associação Garagem Mulher, Associação União das Mulheres dos Campos Gerais (AUMCG), Conselho Regional de Serviço Social (CRESS 11º), Instituto Cidade Viva, Instituto Sorriso Negro, Instituto União das Mulheres em Ação e Desenvolvimento (IUMAD), Santa Casa de Ponta Grossa e Seção Sindical dos Docentes da Universidade Estadual de Ponta Grossa (SINDUEPG).
Na suplência, ficaram as entidades Sociedade Espiritualista Caboclos da Lei, Sindicato Rural e Associação dos Usuários de Transportes Coletivos Urbanos, Rodoviárias, Ferroviários, Metroviários, Táxis, Moto Táxis e Aéreos de Ponta Grossa (AUTRANS).
