A data simbólica para a resistência dos povos escravizados é também comemorada nas religiões que cultuam a ancestralidade africana do Brasil
Por Ana Luísa Runho e Lucas Barbato
Desde 2025, Ponta Grossa comemora em 13 de maio o Dia Municipal das Religiões de Matriz Africana. A data foi incluída no calendário municipal em 2024, instituída pela lei nº 15.248/2024. A resistência destas religiões é intensa e viva no município há muito antes; diariamente, pessoas lutam para exercer sua liberdade religiosa plenamente, e enfrentam no caminho julgamentos, intolerância, ataques e violência.
De acordo com o IBGE, em 2022, cerca de 0,69% dos habitantes de Ponta Grossa faziam parte de religiões de matriz africana, aproximadamente 2.470 pessoas, mas este número pode ser subnotificado frente à intolerância de credos. No Brasil, entre 2018 e 2023, foi constatado através do Disque 100, Serviço de denúncias do Governo Federal, que os casos de intolerância religiosa aumentaram em 140%. Estes dados indicam não apenas o aumento do preconceito, mas também a intensificação da resistência contra ele a partir de denúncias.
O Terreiro de Umbanda Pai Antônio de Angola (T.U.P.A.A.) foi fundado em Ponta Grossa em 2019 e o espaço foi erguido no dia 17 de fevereiro de 2024. Na época, o terreiro era simples, com somente um atabaque; já em 2026, possui quatros atabaques, com quatros Ogãs para tocar. A Mãe de Santo Berbiane Pereira de Souza explica o significado do dia 13 de Maio em sua casa: “A celebração do dia em que o povo preto se libertou no papel, depois de apanharem no tronco, no chicote, principalmente na alma. E mesmo com dor, sangrando, continuaram de pé, com a cabeça erguida, lutando e resistindo. É isso que a gente firma no nosso terreiro, na nossa corrente, que tem como representante da casa o Preto Velho”, pontua.

Altar de Pai Antônio de Angola, chefe da linha dos Pretos Velhos no T.U.P.A.A, de Mãe Berbiane. (Foto: Lucas Barbato)
A mãe Berbiane crava a importância da linha dos Pretos Velhos em seu terreiro: “Sem meus Pretos Velhos, minha casa não seria nada. Não existiria corrente. Eles foram uma das primeiras entidades que incorporei. São o amor da minha vida. Aqui quem tem o comando são eles. O chefe do meu terreiro é o Pai Antônio de Angola. É ele que manda e desmanda aqui. Ele é o chefe da Linha inteira, da direita e da esquerda. Na linha dos Pretos Velhos, tem Pai Antônio de Angola, Vó Benedita da Senzala e Tia Maria da Mesa Redonda. Todos são importantes porque mantêm meu terreiro em pé.”
A adepta Camila Freitas Mathias, que frequenta o Terreiro de Umbanda Pai Antônio de Angola, destaca sua perspectiva dos ensinamentos que o chefe espiritual transmite: “Há um ano, o Preto Velho, espírito de luz, vem me conduzindo para que eu seja uma pessoa melhor, através dos aprendizados para que cada dia eu evolua mais. Ele é um exemplo de resistência, além de ser uma lembrança do tempo triste que foi a escravidão. A escravidão foi um período de muito ódio e rancor, mas os Pretos Velhos lutaram e ainda continuam lutando, transmitindo na fé a alegria, amor e simplicidade de um espírito acolhedor”.
O Terreiro de Umbanda Pai José de Aruanda (T.U.P.J.A.) tem origem na Sociedade Espírita Caboclo 7 Estrelas, fundada em 1960, e passou a se chamar assim em homenagem à atual entidade-chefe da casa, o Preto Velho Pai José. Sua mãe pequena, Alana Batista Costa, é um exemplo de luta pela liberdade religiosa da Umbanda em Ponta Grossa. Ela é a idealizadora do projeto “Uma Família do Axé”, que tem como objetivo levar, por meio das redes sociais, a informação e valorização da cultura afro-brasileira, e soma mais de 130 mil seguidores. A sacerdote enfatiza a importância da luta e resistência das religiões de matriz africana e afroameríndia na cidade e sua relação com a ancestralidade cultuada: “Os Pretos Velhos, Caboclos e demais entidades representam histórias de dor, força e sabedoria de povos que resistiram à escravidão, ao apagamento cultural e à marginalização. Manter estes cultos vivos também é preservar a história do povo negro e fortalecer a luta contra o racismo e a intolerância religiosa”, explica Alana.
Ela ainda destaca a importância de trazer esta luta às cidades do interior, onde os povos de terreiro enfrentam uma invisibilização histórica mais profunda. Ela relata que o Terreiro do Pai José sofre um intenso preconceito na cidade e nas redes sociais: “Enfrentamos ameaças, xingamentos, racismo e intolerância religiosa, muitas vezes disfarçada de opinião”. A dirigente também ressalta a invisibilização e a dificuldade que esse e outros terreiros têm em ocupar espaços sociais, culturais e políticos no município.
Um dos principais movimentos de resistência das religiões de matriz africana em Ponta Grossa é o Benzimento na Rua, que ocorreu pela segunda vez em 21 de março de 2026, no Calçadão do centro da cidade. O projeto é da autoria de Alana, e foi realizado pelo Terreiro Pai José de Aruanda com o apoio do Terreiro de Umbanda Boiadeira 7 Porteiras, o Instituto Sorriso Negro dos Campos Gerais, o Grupo Muzenza de Capoeira, o Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial de Ponta Grossa, o Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa LGBT de Ponta Grossa e a Secretaria Municipal da Cultura de Ponta Grossa. Após uma roda de capoeira, foram distribuídos mais de 400 banhos de ervas e benzimentos no local, feitos pelos membros dos terreiros participantes, em um ato que representou a ancestralidade e fé. O evento teve o objetivo de levar às ruas as práticas de acolhimento e a limpeza espiritual por meio das ervas, fundamento presente na Umbanda.
O 13 de Maio dentro da Umbanda
Em 13 de maio, a Umbanda homenageia os pretos velhos, ancestrais que, em vida, foram africanos ou seus descendentes escravizados no Brasil. Os pretos velhos são a figura da resistência. São pessoas que foram violentadas, mortas, retiradas de suas terras e que tiveram suas vidas roubadas pelos senhores, tendo inclusive suas práticas religiosas e culturais reprimidas e apagadas até hoje, com o racismo religioso. A abolição da escravidão não marcou o fim da violência contra os povos pretos no Brasil, e o racismo ainda está enraizado nas relações sociais.
Para coroar o 13 de Maio, Mãe Berbiane faz uma festa com feijoada no terreiro. Ela é divulgada nas redes sociais, para toda a comunidade em torno, das crianças até os mais velhos. A feijoada, que nasceu da fome dos escravizados, hoje alimenta quem ainda resiste à intolerância religiosa e ao preconceito. “Aqui todo mundo se ajuda na preparação da feijoada, alimentamos o corpo e principalmente a nossa alma”, afirma a sacerdote. Ela lembra que o prato nasceu da sobra: “Os senhores comiam o filé e jogavam o resto pros cativos. O que era uma humilhação na época, a gente transformou em resistência. A Feijoada hoje é memória e representatividade para a Umbanda”, pontua. A dirigente reforça a memória coletiva que o alimento representa: “Todo brasileiro tem um pezinho na ancestralidade. Tem parente negro descendente de escravos, de africanos. A feijoada é prova disso, todo brasileiro carrega a África no sangue e o seu legado”. Já no Terreiro do Pai José, os dirigentes preparam o ‘Virado dos Pretos Velhos’ e uma oferenda coletiva com a corrente, em homenagem à memória da ancestralidade cultuada na Umbanda. É compartilhado um momento de descontração entre a corrente e os guias espirituais, que se reúnem para comer juntos os elementos da oferenda.

Registro da oferenda para os Pretos Velhos realizada em 2025, no Terreiro de Umbanda Pai José de Aruanda. (Foto: Acervo do T.U.P.J.A.)
Nos terreiros, o dia é relembrado não como a libertação dos povos escravizados – que ainda estava longe de acontecer de fato em 13 de maio de 1888 –, mas como um momento dedicado para valorizar a luta destas pessoas pelo direito de ocupar seu lugar na sociedade. “Para além da ideia de ‘abolição’, a data representa a continuidade da luta do povo preto por dignidade, respeito e reconhecimento”, informa Alana. A figura do preto velho transforma a dor em reza, traz acolhimento, preenche o silêncio com pontos cantados e, principalmente, enfrenta a invisibilidade religiosa que apaga a fé dos livros, da história e das políticas públicas.
