Imigrantes compartilham trajetórias de acolhimento e reconstrução em Ponta Grossa

Mesa-redonda no Museu Campos Gerais reuniu relatos de refugiados, estudantes e trabalhadores estrangeiros durante a Semana Nacional de Museus.

Por: Celyne Stefani, Lorena Santana e Natalia Almeida 

O Museu Campos Gerais sediou, na noite de terça-feira (20), a mesa-redonda “Museu Escuta: Ponta Grossa, Vozes e Encontros do Mundo”, atividade integrante da 24ª Semana Nacional de Museus. Realizado em parceria com a Cáritas Ponta Grossa, o evento reuniu imigrantes residentes na cidade para compartilhar histórias de deslocamento, acolhimento e reconstrução de vida.

A mediação foi realizada pelo professor Felipe Soares e pela professora Merylin Ricieli, docentes do curso de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa, em três rodadas de perguntas aos participantes. A proposta foi destacar trajetórias contemporâneas de imigração e ampliar o debate sobre diversidade cultural em Ponta Grossa.

Entre os convidados estava Mahmoud Shamsi, sheik natural do Irã, para liderar a Mesquita Imam Ali. Ele já esteve em Ponta Grossa, em 2021, exercendo a liderança, mas depois de três anos voltou ao país de origem. Agora, em 2026, Mahmoud retornou para executar suas feitorias. Segundo ele, os líderes religiosos islâmicos costumam permanecer por períodos de até três anos nas cidades onde atuam, sendo posteriormente substituídos. Mahmoud relatou ter sido bem recebido em Ponta Grossa e afirmou que a população demonstra curiosidade respeitosa sobre a religião muçulmana. Além disso, afirmou que em nenhum outro lugar do mundo encontrou o mesmo acolhimento e carinho que os brasileiros proporcionam. 

Também participou da mesa Tawfeiq Jabbar Abdulla, que chegou ao Brasil em 2013 com a família, após fugir da Guerra Civil Iraquiana. Em busca de segurança e melhores condições para os filhos, encontrou em Ponta Grossa uma oportunidade de trabalho. Apesar da rotina intensa de viagens, ele destacou que o esforço valeu a pena. Os três filhos concluíram a graduação em Direito pela Universidade Estadual de Ponta Grossa. Abdulla ressaltou a importância do ensino superior público e gratuito oferecido pela instituição.

A experiência de adaptação entre diferentes cidades brasileiras foi abordada por Yuran Tinta. Filho de uma médica angolana que veio ao Brasil em busca de especialização, Yuran viveu em São Paulo durante parte da juventude, onde estudou Publicidade e se aproximou da área de tecnologia. No início de 2024, após formar família, mudou-se para Ponta Grossa em busca de uma rede de apoio para a criação do filho. Ele comparou o ritmo acelerado da capital paulista à tranquilidade da cidade paranaense, destacando a qualidade de vida encontrada no município.

A nigeriana Temitope Jane Aransiola relatou ter chegado ao Brasil em 2011, por meio do Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G), que possibilita a estudantes estrangeiros cursarem gratuitamente o ensino superior em universidades brasileiras. Jane contou que foi acolhida por colegas e professores na universidade, mas observou a baixa diversidade étnico-racial na instituição e relatou dificuldades enfrentadas no cotidiano, como a ausência de espaços especializados em cabelos cacheados. Segundo ela, é impossível falar sobre o seu cotidiano sem destacar o fato de ser uma mulher negra. Suas experiências serviram de incentivo para fortalecer pesquisas voltadas à cultura nigeriana e ao feminismo.

Já Luiza Paola Villarroel explicou que veio para Ponta Grossa em 2022, após recomendações de amigos, em meio à crise econômica na Venezuela, que se agravou durante a pandemia. A barreira do idioma dificultou o acesso ao mercado de trabalho, mas, com apoio da Cáritas, conseguiu desenvolver o português e ampliar as possibilidades de inserção profissional. Para ela, “pontes unem pessoas”, e hoje busca oferecer o mesmo apoio que recebeu ao chegar na cidade.

O dramaturgo paraguaio Carlos Daniel Monges afirmou que a principal motivação para vir ao Brasil foi o acesso à saúde pública. Ele destacou a precariedade do sistema de saúde paraguaio e elogiou o atendimento recebido em Ponta Grossa, especialmente em relação ao acesso a especialistas e medicamentos. “Mais do que tratamento, minha dignidade foi restaurada”, afirmou. Ele ressalta a importância do Sistema Único de Saúde (SUS).

Ao final do encontro, o mediador Felipe Soares ressaltou a relevância de discutir os fluxos migratórios contemporâneos. “Muitas vezes só são relembradas as histórias de imigrações dos séculos XIX e XX, mas a cidade é viva. As histórias do agora, do hoje, precisam ser expostas”, declarou. O professor afirma que Ponta Grossa não tem dono, ela é composta por uma pluralidade de vozes, cores e etnias. Para ele, uma cidade é definida como “vozes e encontros do mundo”. 

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