Primeira advogada da etnia Rom no Paraná, Hayanne Iovanovitchi defende a ocupação de espaços de poder e a visibilidade para a comunidade cigana
Por Leonardo Correia

Foto: Lincoln Morais
Nesta sexta-feira (22), a fundadora do Coletivo das Mulheres Ciganas do Brasil (COMCIB), Hayanne Iovanovitchi, realizou uma palestra sobre o povo cigano na Câmara Municipal de Ponta Grossa. O evento foi marcado pelo diálogo, pela escuta a valorização da cultura cigana e pela apresentação do Museu Romano de Curitiba.
Hayanne, que é da etnia Rom e a primeira advogada cigana do estado do Paraná, revelou um cenário preocupante sobre a representatividade de seu povo. “Isso é motivo de orgulho, mas também motivo de preocupação por ver o quanto meu povo não ocupa esses espaços, o quanto a gente se sente sozinho e o quanto a gente precisa lutar ainda”.
A advogada fez um resgate da história do povo cigano até a chegada de sua família ao país. Ela explicou que os ciganos se dividem em três grandes etnias: os Rom, que migraram da Índia para o Leste Europeu e de lá para o mundo, os Calon, que foram do norte da Índia para os países ibéricos e se tornaram os primeiros ciganos a chegar ao Brasil, em 1574, e os Sinti, que também saíram do norte da Índia e migraram principalmente para a Alemanha e a França.
Hayanne destacou que, na época da colonização, era crime ser cigano. “Era proibida a manifestação da cultura, da língua e dos costumes, e foi aí que os ciganos vieram para o Brasil. A nossa presença dentro do território brasileiro já se dá marginalizada pela própria existência”, pontuou.
A palestrante também compartilhou a origem do Museu Romano de Curitiba, idealizado por seu avô, Cláudio Domingos Iovanovitchi. A história começou com uma tia de Cláudio, que guardou todos os documentos e registros da família. Após o falecimento dela, Cláudio recebeu esse acervo como herança e teve a ideia de criar o museu em formato online, permitindo o acesso de povos ciganos espalhados por todo o mundo.
O museu é uma iniciativa de preservação cultural e de memória. “A memória faz parte de nós, nos constitui enquanto pessoas racializadas dentro desse mundo”, destacou Hayanne. O espaço conta a trajetória dos Iovanovitchi, primeira família de etnia Rom a chegar ao município de Curitiba, em 1927.
No âmbito legal, a Constituição de 1988 ampliou a garantia de direitos às várias populações brasileiras minoritárias, dentre elas, a cigana. Mais tarde, em 2007, essas comunidades passaram a ser protegidas pela Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, por meio do Decreto nº 6.040.
Preservação da cultura cigana
Cláudio Iovanovitchi, que também foi uma figura ativa e histórica no teatro paranaense, dedicou a vida à preservação da cultura cigana no Brasil e foi uma voz fundamental na luta por direitos e visibilidade. Seu trabalho ajudou a construir pontes, combater o preconceito e manter vivas as tradições.
Por meio da Associação de Preservação da Cultura Cigana (APRECI), ele esteve presente em momentos históricos de afirmação de pautas para ciganos de todas as etnias. A APRECI participou, inclusive, da I Conferência Nacional de Igualdade Racial, momento em que o Brasil assumiu uma dívida histórica de cinco séculos ao reconhecer a contribuição cultural dos povos ciganos para a construção da identidade nacional. Quando Cláudio iniciou os trabalhos na associação, ele contava com apenas dois companheiros no cenário de ativismo nacional, os Roms Mio Vacite e Mirian Stanescon.
Cláudio faleceu aos 67 anos, em 2025, em Curitiba. No entanto, seu legado segue vivo com sua neta, Hayanne. Como cofundadora do COMCIB, ela continua a levantar pautas que buscam entender e combater as violências específicas sofridas pela comunidade. “Penso mesmo em criar essa base de mundo para entender quais caminhos a gente enfrenta, necessários para o futuro”, concluiu a advogada.
Para acompanhar de perto a trajetória e a preservação da memória desse povo, tanto no Brasil quanto no mundo, acesse o site oficial do museu e explore todo o acervo histórico [AQUI]
