Jornalista Giuliana Gragnani destaca esforço de aproximar poesia e jornalismo em oficina para estudantes da UEPG
Por Lucas Barbato
Estudantes do curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) participaram nesta segunda-feira, dia 21 de setembro, às 14h, da oficina “Da notícia ao poema: outras formas de dizer o cotidiano”, ministrada pela jornalista Giuliana de Gragnani. A atividade integrou a 35ª Semana de Comunicação do Curso de Jornalismo, evento organizado pelo Departamento de Jornalismo e pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo.
Giuliana iniciou a atividade destacando que o objetivo principal da oficina era promover reflexões sobre o cotidiano e discutir quais técnicas da linguagem poética podem ser apropriadas para repensar os textos da prática jornalística diária. Ela apresentou cinco poemas que dialogam com o jornal, com o jornalismo e com a notícia, como repertório para pensar a prática da reportagem.
Entre os poetas, estavam Ferreira Gullar, cronista e jornalista que atuou como colunista da Folha de S. Paulo até 2016, ano de seu falecimento. Gullar manteve uma relação muito forte com o jornalismo, tendo atuado também como crítico de arte em diversos periódicos nacionais.
O poema escolhido de Gullar foi “Coisas da Terra”. A jornalista trouxe a obra para provocar uma reflexão sobre outras formas de dizer o cotidiano: o que é esse cotidiano, do que ele é feito e como ele se constitui tanto na poesia de Ferreira Gullar quanto nos jornais. Segundo ela, tanto a poesia quanto o jornalismo falam dessas “coisas da terra”, elementos que compõem o dia a dia. A proposta era refletir sobre o que constitui esse cotidiano, seja do ponto de vista do jornalista ou do poeta. Para ela, o poema ilustra bem essa dimensão, ao reunir coisas concretas e abstratas, como sonhos e greves, por exemplo.
Na percepção da estudante Rafaela Rothstein, o poema é interessante justamente por essa mistura entre o abstrato e o concreto. Segundo a estudante, não é possível escrever um texto que realmente toque o outro se não partir também do abstrato. “Até, por exemplo, o cheiro de cabelo que volta: o que isso tem a ver com texto jornalístico, se pensarmos da forma corriqueira? Porém, tem tudo a ver. Como você escreve se não partindo dessas coisas abstratas que estão, sim, na nossa vida cotidiana?”, refletiu.
Giulia complementou que se trata de elementos sensoriais, ligados a sentimentos, que normalmente tendemos a deixar de lado por não serem factuais. “Isso não é ser objetivo. É claro que não estou sugerindo que a gente comece a fazer poesia no lugar de jornalismo, não é isso. Mas que, de alguma forma, a gente consiga pensar quais são justamente esses elementos do cotidiano para os quais, às vezes, não olhamos, mas que também estão presentes nele”, explicou.
Para ela, trata-se do sentimento do outro, do gesto que o outro faz. “Quando a gente consegue trazer isso para os nossos textos, a gente já está fazendo poesia, independente da maneira como está escrevendo. São esses detalhes que vão deixar o texto mais literário, mais poético, mais humano, enfim, como quiser chamar”, finalizou.
Para a palestrante, o poema de Gullar transmite a sensação de que tudo o que está entre o céu e a terra faz parte desse todo, inclusive com o contraditório coexistindo. A partir dessa ideia, é possível utilizar uma técnica chamada de atrito e contraste, que explora justamente o convívio entre grandezas incompatíveis e como as articulamos, construindo um arranjo entre uma ou mais verdades: bem e mal coexistindo, caos e serenidade, alegria e tristeza, construção e demolição, parado e em movimento, perecível e interno, como o poeta utiliza no texto.
“Essa técnica parte do princípio: eu já sei o que tenho diante de mim, já fiz minha apuração, já tenho minhas informações. Onde está o contraditório da minha história? Não na informação que eu tenho, mas no entorno dela, no que envolve o contexto. Onde está o atrito, o contraste entre as coisas que posso trazer para o meu texto e deixá-lo mais poético, mais literário?”, provocou. Segundo Giulia, a técnica propõe explorar no texto o convívio entre aquilo que é aparentemente incompatível.
O segundo poema escolhido foi “Jornal, longe”, de Cecília Meireles jornalista, cronista e pintora. Giulia trabalhou o verso “Caem as folhas secas sobre os longos relatos de guerra”, revelando que a vida segue acontecendo, a natureza segue seu curso enquanto aquele jornal desbota. É o próprio tempo em movimento. Para a autora, todo jornal serve para fazer um embrulho.
Para a estudante Maria Cecília Avelino Melo, no trecho “e o sol empalidece suas letras infinitas”, é possível notar que uma parte da memória do passado permanece, mas o tempo avança e transforma. “Então é uma questão de o que a gente faz com o passado, já que estamos vivendo no presente. A parte do embrulho também tem conexão com isso, tanto com o presente quanto com o desejo de mudança”, avaliou.
Giuliana complementa dizendo que independente do que a autora esteja tratando no poema e que toda interpretação e percepção é válida , ela também enxerga ali uma técnica de atrito. “Eu percebo que, quando ela fala ‘jornal, longe’, esses ‘relatos de guerra’, na frase ‘o que faremos com esses jornais’, me parece que ela está falando daquilo que é o relato da vida que vem pelos jornais e daquilo que é a vida agora, aquilo que é da vida observável, que são ‘as folhas secas sobre os longos relatos de guerra’, ‘lemos na flor que nasce e na abelha que voa’, no aqui e no agora”, observou a jornalista.
“Parece que ela está querendo dizer eu vejo dessa maneira aquilo que é longe, aquilo que é relato sobre a vida, aquilo que acontece em um lugar que eu não conheço, estão me falando que é aquilo, mas eu não sei. Eu sei daquilo que eu vejo, daquilo que está diante de mim, que eu toco, que eu percebo, que eu sinto”, completou. “Em termos de técnicas, eu vejo aqui aquilo que a gente chama de campo semântico. Essa é uma técnica fácil de colocar em prática para deixar o texto mais literário”, explica.
O terceiro poema foi “Dedicatória”, de Mário Quintana, poeta, jornalista e tradutor. Na percepção da estudante Pietra Gasparini, chamou a atenção o fato de o autor dizer que, para quem está com o jornal na mão, a única novidade é a poesia. “Na verdade, as notícias, esse caos todo de criminalidade, notícias policiais, é o comum, a gente já está acostumado, e o que tem de novo, de inovador, é a poesia. Eu achei essa parte muito interessante”, destacou.
Giuliana complementa afirmando que o poema de Mário Quintana traz técnicas que podem ser usadas na produção de textos, como a repetição de palavras.
“Às vezes achamos que repetir está errado. Às vezes pode estar, mas é uma questão de análise, pode ficar ruidoso, mas às vezes não. A repetição é um reforço, eu reafirmo o que foi mencionado anteriormente. Não estou repetindo, estou reafirmando”, pontuou.
Para ela, a palavra “escreva” no poema aparece nesse sentido, deixando o texto com uma forma de argumentação mais contundente. “Para utilizar a técnica em um texto, só precisa ter coesão e coerência naquilo que você quer dizer, quer informar.”
O quarto texto foi “Poema tirado de uma notícia de jornal”, de Manuel Bandeira, poeta e crítico literário brasileiro. Talvez o autor tenha escrito sobre a notícia de João Gostoso justamente por ser algo muito simples, muito corriqueiro, e ter visto nesse simples algo extraordinário para fazer um poema.
A jornalista chama a atenção para o atrito no poema, no trecho em que Manuel Bandeira diz “num barracão sem número”: João Gostoso morava em um barraco que não tinha número, mas a rua do bar onde ele estava tinha um número. Há um atrito presente entre o ter e o não ter, entre ter identificação e não ter. Outro ponto destacado é que o poema tem uma lógica e uma verticalidade: a palavra “morro” está no alto, na primeira estrofe; as palavras “bebeu”, “cantou” e “dançou”, uma embaixo da outra, representam a superfície; e “se jogou na lagoa” fica na última estrofe. O autor estabelece essa verticalidade entre os verbos para simular a queda, para simular o fato que aconteceu com João Gostoso — algo que tem muito mais a ver com a forma.
Giulia destaca ainda que o poema apresenta a técnica da elipse, que consiste basicamente em omitir algo sem tirar o sentido do que se quer dizer. “Elipse é você justamente tirar o excesso, brincar com aquilo que é mais importante do que você quer dizer e ir cortando. E aí tem o ritmo e, portanto, consegue construir uma estrutura diferente”, esclareceu.
Para a estudante Marina Ranzani, o trecho que diz que João Gostoso era carregador de feira livre e morava em um barracão sem número significa, em sua percepção, que ele era do mundo. Daí foi beber, ficou bêbado, cantou e dançou no bar e, logo depois, se atirou na lagoa e veio a falecer.
O quinto e último texto foi “Poema do jornal”, de Carlos Drummond de Andrade, jornalista por 30 anos e também redator-chefe em Minas. Na percepção da estudante Julia Smaka, o texto fala um pouco sobre como o jornalismo às vezes não se importa em humanizar o acontecimento, o que de fato aconteceu. O que importa é dar a notícia. “Na minha percepção, faz uma crítica ao jornalismo naquela época, de 1930”, afirmou.
Giuliana adiciona sua perspectiva de que Carlos Drummond de Andrade, de certa maneira, está dizendo que o repórter é um cara muito sagaz, muito perspicaz, que está no momento certo, na hora certa e no lugar certo, onde exatamente está a história para ser noticiada. Em termos de técnicas, ela destaca que o autor utiliza a descrição de objetos em cenas e fecha a última estrofe adicionando a máquina de escrever ao som de uma doce música, dando a ideia não de uma crítica, mas de uma homenagem ao repórter sagaz. “Para mim, é onde a gente consegue puxar para a produção prática dos nossos textos, seja uma reportagem, onde você pode utilizar o recurso das descrições dos objetos de cena, narrando nos mínimos detalhes, pensando nos objetos em volta da história”, concluiu.
Para Giuliana Gragnani, a ideia de fazer a oficina foi trazer um universo de técnicas possíveis de serem discutidas. “Minha seleção de técnicas foi, de fato, de técnicas que pudessem ser aplicadas na nossa produção no dia a dia, na universidade, no curso de Jornalismo. Minha seleção foi de técnicas que, de fato, fossem aplicadas nas nossas produções jornalísticas, nas reportagens, e que têm uma operacionalização mais simples. Elas foram selecionadas justamente para facilitar e serem usadas na produção da reportagem”, explicou.
