Atividade reuniu profissionais para refletir sobre o papel da mídia na reprodução de estereótipos, a valorização de referências negras e a construção de narrativas antirracistas
por: Leonardo Correia e Malu Dip
Na última quarta-feira (10), ocorreu a mesa “Vozes em resistência: Raça, Gênero e Mídia”, atividade que integra a programação da 20ª Semana de Integração da Resistência. Participaram do debate a jornalista e mestranda do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Elaine Barcellos; a integrante do Instituto Sorriso Negro dos Campos Gerais, vice-presidente do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (COMPIR) e vice-presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, Cristiane Zelenski, e a multiartista e idealizadora do projeto “Glória do Meu Quilombo – A Importância de Carolina Maria de Jesus” e do Coletivo Fiandeiras, Ligiane Ferreira.
Elaine relembrou que a mídia hegemônica segue padrões coloniais e, nesse sentido, ressaltou a importância do evento. “É muito importante este encontro, pois a gente sabe que a mídia hegemônica coloca corpos pretos em situações negativas. Isso é consequência do modelo escravocrata”, destacou. A jornalista trouxe como exemplo recente a situação sofrida pela seleção senegalesa no aeroporto estadunidense, quando chegaram ao país para um jogo amistoso da Copa do Mundo deste ano. Confira o caso completo na reportagem da CNN Brasil clicando [AQUI]. “Os jogadores passaram por uma revista humilhante”. Cristiane também destacou a importância do encontro ser aproveitado como forma de reconhecimento do povo preto. “Não quero falar apenas de resistência. Eu quero falar do nosso povo enquanto potência”.
A mesa aconteceu em forma de debate com o público presente. A estudante do terceiro ano da graduação em Jornalismo da UEPG, Karine Santos, questionou a falta de incentivo à leitura de autores(as) negros, a ausência de docentes negros no curso de Jornalismo e o impacto na formação profissional. Zelenski destacou que este problema é de cunho estrutural. “Existe muita coisa disponível na internet, cabe a vocês também enquanto estudantes acharem suas referências. E além disso, cobrar dos professores, e do curso, que incluam e abordem pesquisadores negros em sala de aula”, completou.
A artista independente e atriz, Ligiane Ferreira, relatou a sua passagem pela cidade de Castro, onde iria ministrar uma palestra em uma escola sobre questões raciais. A ativista relembra que, ao chegar na instituição, se deparou com uma exposição de louças holandesas. Ela descreveu o que viu como um “território tomado pela colonialidade holandesa”. Ligiane reforçou em seu discurso a importância de apresentar e explorar a identidade nacional e a ancestralidade negra em ambientes de formação educacional. “Sinto informar, mas a gente não está na Holanda, estamos no Brasil e por isso, vamos falar de pessoas como Carolina Maria de Jesus”, concluiu.
A abordagem da artista ressalta a Lei nº 10.639/2003, que alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). A legislação tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira nas redes de Ensino Fundamental e Médio, buscando resgatar a contribuição da população negra na construção social, econômica e cultural do país.
Próximo ao encerramento, as convidadas indicaram produções culturais para que estudantes conheçam e consumam. Ligiane disponibilizou e circulou alguns materiais de divulgação de trabalhos sobre a vida no Quilombo Colônia Sutil, como o panfleto do documentário “Sutil” e a cartilha da história “A glória do meu Quilombo”.
