Tradição de bandas marciais e fanfarras marcam a história de Ponta Grossa

Tradição de bandas marciais e fanfarras marcam a história de Ponta Grossa

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A história das bandas na cidade iniciou há mais de 100 anos

Ponta Grossa é uma cidade marcada pela tradição de bandas marciais. A Banda do Seu Camargo é a primeira a ser registrada em documentos. Após a morte do criador da banda pioneira, por volta de 1876, a Banda rompeu e os membros se dividiram para dar origem à Banda do Theatro e a Banda Lyra dos Campos. De acordo com o artigo publicado por Luiz Ricardo Pauluk em 2011, as duas bandas entraram em conflito pelo domínio musical da cidade. A disputa ganhou proporção política, fazendo com que a elite local apoiasse a Banda do Theatro e, assim, as apresentações da Lyra dos Campos eram prejudicadas. Pauluk diz que elas contribuíram para o desenvolvimento cultural da cidade. 

Ambas se desenvolveram através das apresentações cívicas realizadas pelo Exército Brasileiro e incorporam a marcha como movimento corporal, entretanto, é preciso ter conhecimento da diferença entre elas. As fanfarras contam com bateria, caixa, pratos, triângulos e bombo e os instrumentos de percussão. Já as bandas marciais são compostas, principalmente, por instrumentos de metal, como trombones, trompetes, flugueos, trompas, bombardinos e tubas. Esses grupos são encontrados com maior frequência em escolas, universidades, entre outras instituições. 

Entre as bandas marciais e fanfarras que atuam na cidade, pode-se citar a Banda Lyra dos Campos, Banda Marcial Marista Pio XII, Banda Marcial Sant’Anna, Fanfarra do Colégio Instituto de Educação de Ponta Grossa, Banda Fanfarra Sagrada Família, Fanfarra Regente Feijó e a Banda do 13º BIB. 

O professor de licenciatura em música da Universidade Estadual de Ponta Grossa e maestro da Banda Lyra dos Campos e da Banda Marcial Marista Pio XII, Rafael Dalalibera Rauski, ressalta que a construção da história das bandas de Ponta Grossa se dá ao longo de 100 anos. Para Rauski, a Banda Lyra dos Campos apresenta grande importância para o cenário musical pontagrossense, “a Lyra dos Campos é uma das bandas mais antigas e saudosas, que têm um longo tempo de estrada e mantém uma tradição na cidade”, relata o professor. 

O maestro explica que a partir da década de 1970 houve um movimento expressivo das escolas públicas e privadas de investirem em atividades musicais. De acordo com Rauski, na década de 1990, Ponta Grossa possuía cerca de nove bandas marciais e fanfarras. Hoje em dia, a cidade conta com oito bandas. 

Ensaio Banda Marista na cidade de Amparo – SP. Foto: Wesley Machado.

Desenvolvimento e história das bandas

A Banda Marcial Marista Pio XII completou 40 anos em 2021, ao longo desses anos conquistaram títulos de relevância, sendo seis vezes campeã geral em campeonatos nacionais. A banda surgiu como uma fanfarra no ano de 1981, com o objetivo de realizar eventos institucionais e privados. A mesma se popularizou na cidade por meio do incentivo das famílias participantes e, consequentemente, foi aberta para o público externo. Hoje em dia o grupo conta com mais de 400 troféus e por volta de 60 membros. 

O coordenador da Banda Marista, Antônio Carlos Schmidt, explica que para os integrantes poderem participar de campeonatos municipais, estaduais e nacionais é necessário passar pela escola de aprendizes durante o período de um ano. “Além da parte musical tem a parte de apresentações, que inclui marcha, ordem unida, e outros requisitos necessários para um campeonato de banda; mas participar, com dedicação, qualquer pessoa realmente interessada pode”, fala Schmidt. 

A Banda do Colégio Sant’Ana surgiu de uma gincana cultural no ano de 1995. Hoje, ela conta com 70 membros e todos são ou já foram alunos do colégio. O maestro Carlos Taques participa desde o surgimento e explica que os ensaios, realizados de segunda-feira à sábado, ocorrem durante todo ano letivo. Em 2023, a banda participou de um festival internacional de bandas marciais e fanfarras em Montevidéu, no Uruguai. Segundo o maestro, os estudantes são convidados e incentivados a participar da banda. “É uma atividade disciplinar, é necessário que os componentes tenham comprometimento e estejam dispostos a aprender”, comenta Carlos. 

Foto: Wesley Machado.

A Banda Marcial do Colégio Sagrada Família foi fundada em 1973, e atualmente possui 70 alunos. O maestro Anderson Margraf relata que a partir do 6º ano do Ensino Fundamental II é possível participar. Os ensaios ocorrem durante o ano letivo, entre fevereiro e janeiro. Os alunos se apresentam em jogos escolares, eventos do colégio e desfiles cívicos. “Neste ano não estamos apenas convidando de sala em sala, estamos levando um instrumento para poderem ver como funciona e despertar o interesse”, expõe Anderson. 

O Colégio Estadual Regente Feijó é uma das instituições de ensino público que possui fanfarra desde sua fundação, na década de 1930. De acordo com o diretor do Colégio, Rudnei Roza de Abreu, a fanfarra era utilizada para que os alunos realizassem apresentações em eventos e comemorações da cidade. A partir do segundo semestre os alunos são convidados a integrarem a banda e em seguida é contratado pela Associação de Pais, Mestres e Funcionários (APMF). A Fanfarra do Colégio conta com 40 integrantes, além de 40 alunas que são porta bandeiras e dançarinas nas apresentações. 

Um diferencial da Fanfarra Regente Feijó é que os professores e demais integrantes da comunidade escolar também participam e se apresentam. A fanfarra do colégio se apresenta apenas no desfile em comemoração ao aniversário de Ponta Grossa, em 15 de setembro. O diretor relata que aqueles que já pertencem a banda se apresentam para os estudantes para motivar outros a participar, “é pela própria iniciativa dos alunos de se apresentar que os outros se motivam a participar da banda”, conta. A banda de fanfarra é uma atividade extra-classe, onde os alunos ensaiam em períodos em que não possuem aulas. 

A importância da música 

O trompetista Gabriel Poplavicz, iniciou sua experiência na música em 2019. Ele começou a estudar trompete na Banda Marcial Marista Pio 

XII e por conta da pandemia de COVID-19, as atividades foram encerradas, somente em 2021 pode participar de uma apresentação, um concerto em comemoração aos 40 anos da banda. “Conheci a banda por meio de um amigo que me relatou o quanto ela era relevante para ele. Eu e meu irmão fizemos uma visita e logo no primeiro dia tivemos contato com os instrumentos”, fala Gabriel. 

Para Poplavicz a participação em uma banda marcial possibilitou que realizasse novas amizades e que viajasse para diferentes cidades do país, “minha primeira viagem com a banda foi para Campos do Jordão, é uma das minhas melhores lembranças, tenho certeza de que será cada vez melhor”, expõe. Ele comenta que ao integrar uma banda marcial ou uma fanfarra é preciso assumir compromissos e se dedicar aos ensaios. 

Ensaio de metais na Banda Marcial Marista. Foto: Wesley Machado.

O maestro Carlos Taques também aponta que para aprender música é preciso se dedicar e estudar, “aqui temos que nos soltar, conhecer e estudar, ler partitura e aprender a diferenciar as notas, mas acho que devemos incentivar eles e mostrar que aprender música é um ensinamento levado para vida inteira”. Carlos conta que aqueles que aprendem a tocar um instrumento manterão a paixão por anos, e não esquecem os ensinamentos adquiridos. O maestro explica que o interesse e admiração pelo mundo da música é passado de geração em geração dentro das famílias. 

Para o maestro e professor de licenciatura em música, Rafael Rauski, a música na sociedade é vista como algo que precisa ser justificável, “muitos fazem o questionamento do por que investir em música, por não ser uma necessidade básica como saúde e educação”. Segundo Rauski, os profissionais do meio da educação musical percebem a necessidade da música para o desenvolvimento cognitivo, humano e social.

Reportagem e Fotos: Rafaela Koloda e Wesley Machado

Edição e publicação:  Kailani Czornei e Juliana Lacerda

Supervisão de produção: Ivan Bomfim e Gabriela Almeida


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