Crítica de Ponta #161

Crítica de Ponta

Produzido pelo terceiro ano do curso de Jornalismo da UEPG, o Crítica de Ponta traz o melhor da cultura da cidade de Ponta Grossa para você!

“Não nos calaremos” debate abuso sexual na infância e adolescência

Série espanhola alcançou 25 milhões de visualizações no 1º semestre de 2024, aponta relatório da Netflix

A minissérie “Não nos calaremos” (2024) é uma produção espanhola, do gênero de drama, escrita pelo jornalista Miguel Sáez Carral e pela roteirista Isa Sánchez. Apesar de ser fictícia, a obra reflete uma realidade comum no Brasil: a incidência do abuso sexual na infância e adolescência e a falta de acolhimento às vítimas. Indicadores do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, de 2025, revelam que o Paraná ocupa a vice-liderança, entre os 26 estados e o Distrito Federal (DF), em ocorrências de estupro e estupro de vulnerável.

Foto: Divulgação Netflix

Em “Não nos calaremos”, a história desenvolve-se a partir da protagonista Alma (Nicole Wallace), de 17 anos, estendendo uma faixa no portão do Colégio Privado Martin Baussen, onde estudava, com os seguintes dizeres: “Cuidado! Aqui se esconde um estuprador”. No decorrer da trama, o telespectador descobre que Alma protestava em nome de Berta (Teresa de Mera), sua ex-melhor amiga de infância, que foi vítima de abuso sexual por um professor da instituição. 

A jovem Berta sofreu o 1º abuso por volta dos 13 anos e, embora tenha denunciado na época, retirou a ocorrência por medo de ser retaliada. À semelhança da produção audiovisual, crianças e adolescentes são, de modo contínuo, alvos de predadores sexuais. O Paraná, em 2024, foi vice-líder em relação ao aliciamento de crianças, de 10 a 13 anos, com o fim de praticar ato libidinoso. Essas vítimas, assim como Berta, são culpabilizadas, desacreditadas e, muitas vezes, carregam e convivem com o trauma durante toda a vida.

Por Giulia Neves

Serviço: A minissérie, que contém oito episódios, está disponível no catálogo da Netflix. “Não nos calaremos” não é recomendada para menores de 16 anos. Temas sensíveis, como abuso sexual, violência psicológica e suicídio, são abordados pela minissérie. Por isso, atente-se aos gatilhos.

 

 

O protagonismo de Narciso Pires na curadoria da dor

Criada em 2008, a exposição “Ditadura Nunca Mais: a resistência no Paraná”, organiza uma narrativa sobre o período linear da ditadura no Brasil, a partir de 13 banners que combinam textos, imagens e documentos. Criada por Narciso Pires e coordenada pelo Projeto de Extensão Lente Quente, no campus central da UEPG, a mostra apresenta um percurso cronológico que vai do golpe de 1964 até a anistia, inclui a repressão, movimento estudantil e denúncias internacionais. No Paraná, são destacados números como cerca de 4 mil presos e mil torturados, enquanto no cenário nacional, mais de 500 mil pessoas foram perseguidas, 50 mil presas e cerca de 20 mil torturadas, além de 434 assassinadas e milhares de indígenas e camponeses mortos.

Foto: Celyne Stefani

A história é apresentada de forma simplificada, sem aprofundar as complexidades. Além disso, a trajetória do próprio autor ganha destaque, principalmente na atuação no movimento estudantil. Narciso Pires também é responsável pela parte visual e gráfica da exposição, o que concentra a narrativa da visão de Narciso e reduz a diversidade de interpretações.

As imagens funcionam como prova e reforço do discurso, a repetição de fotografias, documentos e retratos intensifica o impacto, mas substitui a análise por efeito visual. A dimensão regional é apresentada como extensão de uma narrativa nacional já consolidada, ainda que a exposição busque afirmar que a ditadura atingiu todo o país, incluindo o Paraná. Essa intenção aparece, mas não se desenvolve em investigação aprofundada sobre especificidades locais. 

A exposição serve como reafirmação de uma memória estabilizada, organiza os acontecimentos em uma única direção interpretativa e restringe o debate público sobre o período. A ideia não é ficar no passado da história, é mostrar que ela resiste no hoje e no amanhã.

Por Celyne Stefani

 

Manchetes suavizam aumento da tarifa no transporte público de PG

A cobertura jornalística sobre o transporte coletivo em Ponta Grossa mostra como a escolha de palavras muda o jeito que a notícia é entendida. Alguns jornais evitam a palavra “aumento” e usam termos como “reajuste”, “correção” ou “mudança”. A escolha deixa a notícia mais leve e diminui a sensação de impacto no bolso. 

Foto: Guilherme Gerlinger

A chamada do portal aRede pública “Prefeitura confirma ampliação do passe livre e corrige tarifa do transporte em PG” e usa “corrige tarifa” a estratégia editorial indica uma diminuição do impacto da medida. A matéria do G1 destaca “Prefeitura sobe preço da passagem de ônibus do transporte público de Ponta Grossa sete meses após último aumento” e deixa claro o aumento da tarifa, sem suavizar o termo. A reportagem da RPC afirma “Passagem aumenta em Ponta Grossa para ampliar passe livre” a matéria associa o aumento ao benefício dos estudantes. A Rede Massa informa que “Passagens passam a custar R$ 6 a partir do dia 13 de abril” e evita qualquer termo que indique aumento, o que esconde a ação principal.

O transporte coletivo da cidade é um monopólio há três décadas. A Viação Campos Gerais opera o sistema sozinha e possui a concessão exclusiva do serviço. A empresa pertence a um grupo familiar, que atua no setor de transporte e está presente em outras cidades. O modelo concentra o controle do sistema em uma única empresa e reduz as alternativas para a população.

A Prefeitura de Ponta Grossa repassa dinheiro público todos os meses para ajudar a manter o transporte funcionando. Segundo o Blog da Marelli Martins, o valor passou de 95 milhões de reais nos últimos três anos. Mesmo assim, a tarifa já registra o segundo aumento em oito meses.

A população depende do transporte para trabalhar, estudar e se deslocar pela cidade. O aumento da tarifa afeta os usuários, mesmo com a existência do repasse milionário de dinheiro público. A forma como a notícia é escrita pode suavizar ou evidenciar esse impacto.

Por Daniel Américo

Obras interditam o Observatório Astronômico da UEPG

Após quinze anos de fundação, o Observatório Astronômico da UEPG, no Campus Uvaranas, recebeu a aprovação para uma reforma do espaço. Desde a aprovação das obras, o prédio está interditado, com materiais de construção soltos ao redor da estrutura, paletes de madeira no lugar de portas removidas e andaimes espalhados dentro do prédio.

Foto: Dimitri de Souza

Sobre a relevância dessa atualização tecnológica e o impacto acadêmico da obra, o coordenador do espaço, professor Marcelo Emílio, destaca a importância do local para a divulgação científica em Ponta Grossa. “Nas atividades de divulgação e nas visitas, buscamos apresentar a astronomia de forma acessível, mas rigorosa. Além disso, nas aulas de graduação, trabalhamos o método científico e a própria história da astronomia.” O coordenador aguarda com expectativa a conclusão das obras.

No dia 19 de fevereiro de 2025, a universidade assinou a ordem de serviço para a reforma do espaço, com um investimento de aproximadamente R$1,2 milhão, valor recebido em parceria com a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. A fiscalização cabe à Prefeitura do Campus (Precam), que monitora a obra. A redação entrou em contato com a Precam, porém não obteve resposta até o fechamento dessa crítica.

Por fim, vale o lembrete geográfico para o público ponta-grossense: o observatório é o de Uvaranas, braço extensionista e de pesquisa da universidade, e não deve ser confundido com o Observatório Astronômico de Ponta Grossa desativado há 20 anos, situado no bairro Boa Vista.

Por Dimitri de Souza

 

A nostalgia de um enrolado chinês

Lanchonete local reforça tradição através de um cardápio de salgados de PG

Você conhece um salgado vomitado? Conhecido por vários nomes, o enrolado chinês é carro chefe da lanchonete Cochicho. A massa à base de trigo e ovos, envolve um recheio de carne moída, tomate, queijo, presunto e condimentos, que é enrolada e assada. Por conta da mistura de ingredientes, os fregueses do lugar costumam chamar o salgado de “vomitado”. O sabor é bem diferente do nome popular e carrega na experiência a sensação de nostalgia, que faz lembrança aos espaços gastronômicos mais populares nos anos 2000. 

Foto: Eduarda Leal

Em tempos onde os “cafés superfaturados” crescem no mercado brasileiro, encontrar uma lanchonete de bairro com salgados “clássicos” pode parecer um tanto raro. Segundo reportagem da Agência Nacional de Notícias, o estado do Paraná aumentou a produção de cafés gourmets em 15% na última década, com foco na qualidade do grão. 

Com 22 anos de história, a lanchonete Cochicho começou como um ‘boteco’ do bairro da Nova Rússia. Após o falecimento do ex-proprietário, o local foi aos poucos transformado em um espaço gastronômico. Em 2023, a lanchonete passou por uma reforma de ampliação do espaço, ainda sem abandonar o clássico cardápio. 

Por Eduarda Leal

Serviço: O famoso enrolado chinês ou, vomitado, custa R$ 8,00. A lanchonete é localizada na Avenida Dom Pedro II, na Nova Rússia, e funciona em horário comercial, das 8:00 às 18:00 da tarde.

Uma rede de ajuda ou armadilha no lifestyle

Enquanto em 2023, apenas 22% da população se exercitava diariamente, em 2025, metade dos brasileiros realizavam atividades físicas regularmente

O estilo fitness, seja fazendo academia, crossfit ou até esportes de rendimento, faz sucesso não apenas na realidade, mas também na mídia. Vídeos curtos em redes sociais como instagram ou tiktok recebem grande engajamento por parte do público que busca uma vida mais saudável. 

Foto: Web

Desde 2010, um estudo realizado pelo Cupom Válido, uma plataforma de cupons de desconto, que utilizou dados da Numbeo, IBGE e Statista sobre o mercado fitness brasileiro, apontou que o Brasil se consolidou como o segundo maior mercado fitness do mundo. Atualmente, o país conta com mais de 57 mil academias espalhadas pelos estados, ficando atrás dos Estados Unidos, e com 21% de brasileiros frequentantes, atrás apenas da Índia. Em Ponta Grossa, como exemplo a rede de academias Ph.D Sport, presente pelo país com uma média de 160 unidades, das 28 instaladas no interior do Paraná, 5 estão na cidade.

 A busca por um corpo esteticamente bonito, tem feito pessoas irem além dos limites físicos. Com a indicação, feita pela Comscore, uma empresa americana que analisa dados mundiais com relação ao uso da internet, de país que mais consome conteúdo nas redes sociais na América Latina, o Brasil têm como principal palco de informações a web. Treinos e dietas de influenciadores são compartilhados na mídia diariamente, os quais, de acordo com Fernanda Moro, técnica em Educação Física pela UEPG, ajudam as pessoas a estarem informadas sobre saúde. No entanto, a apresentação de corpos irreais e hábitos impossíveis na internet geram uma pressão estética inalcançável, o que leva pessoas a passarem dos limites, como exemplo o caso de Luis Pasetti, ocorrido em uma academia em Campo Largo, que em julho de 2025, fraturou as duas pernas, após ter falha muscular carregando 140kg no Smith.

Fernanda afirma que é essencial entender que muitos padrões, vistos online, não são naturais, mas resultado de procedimentos, edição e filtros. Por isso, atualmente, é necessário, acima de tudo, incentivar a transparência dos influenciadores e mudar o foco da estética para a saúde e o bem-estar, mostrando e normalizando corpos reais. 

Por Emanueli Garcia

Serviço: Redes de academia, como BlueFit, SmartFit e Go For It estão entre as mais em conta, com valores por pacote com média de R$99,90 a R$139,90.

 

Ficha técnica

Autores: Giulia Neves, Celyne Stefani, Daniel Américo, Dimitri de Souza, Eduarda Leal e Emanueli Garcia

Supervisão de produção: Sérgio Gadini

Edição e publicação: Sarah Brasil

Supervisão de publicação: Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado

Contato: periodico@uepg.br

 

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