Crítica de Ponta
Produzido pelo terceiro ano do curso de Jornalismo da UEPG, o Crítica de Ponta traz o melhor da cultura da cidade de Ponta Grossa para você!

Entre o espelho e a tela, o peso da estética
Ao retratar a obsessão estética, a série Beleza Fatal provoca ao mesmo tempo em que espelha o universo que denuncia.
Exibida em 2024 em TV aberta, a série brasileira Beleza Fatal, de Raphael Montes, chega em um momento em que a busca pela aparência ideal ultrapassa as telas e influencia comportamentos cotidianos. O uso crescente de medicamentos como Ozempic e Mounjaro para emagrecimento, reforça a ideia de soluções rápidas para ajustar o corpo às expectativas sociais. Na trama, a aparência se torna valor social e moeda simbólica, aproximando ficção e realidade.

Foto: Divulgação/Globo Play
A série acompanha quatro mulheres que lidam com humilhações, comparações e exigências estéticas extremas. Pesquisas apontam que as mulheres são as mais impactadas por padrões irreais e pela cobrança constante por perfeição. A vilã Lola, interpretada por Camila PItanga, chega a afirmar que “na beleza, quem não acompanha o ritmo é deixada para trás”, frase que sintetiza o espírito da obra e traduz a lógica violenta desse mercado. Em paralelo à ficção, cidades como Ponta Grossa também vivenciam a expansão do setor estético, com novas clínicas, procedimentos e promessas de transformação que reforçam esse ideal de aperfeiçoamento contínuo.
Serviços antes restritos a grandes cidades, agora se distribuem por bairros como Centro, Oficinas e Uvaranas, indicando uma demanda crescente por tratamentos corporais, faciais e de emagrecimento. Dados empresariais mostram Ranking realizado pelo ECONODATA aponta um aumento significativo de registros de clínicas e espaços de estética na cidade nos últimos anos.
Se por um lado Beleza Fatal denuncia os abusos e as consequências emocionais da pressão estética, por outro, sua própria estética polida e marcada por corpos magros acaba se aproximando dos mesmos padrões que pretende criticar. Essa tensão conduz o público a uma pergunta inevitável: estamos diante de uma crítica real ou apenas consumindo mais um produto que repete aquilo que tenta questionar?
Por Ingrid Müller
Serviço:Para a prevenção contra o suícidio ligue 188 ou acesse o site CVV – Centro de Valorização da Vida

Há 19 anos contando um bando de histórias
Lucélia Clarindo incentiva a literatura infanto-juvenil há mais de 15 anos com projeto Bando da Leitura
O Bando da Leitura, coordenado pela professora aposentada Lucélia Clarindo, completou 19 anos de existência em março deste ano. A iniciativa sem fins lucrativos, que apresenta a literatura e o ato de ler de forma lúdica, artística e pedagógica, evolui conforme o tempo passa e se adapta à “tiktokização” dos pequenos. Em um mundo completamente digital e repleto de crianças com livre acesso à internet, quais são as estratégias adotadas pelo Bando? Será que o local ainda preserva aquela misticidade que tanto encantava aos menores?

Crédito: João Pimentel
A resposta é sim!. Lucélia e sua equipe lutam firmemente para cultivar algo um tanto quanto raro hoje em dia. A criatividade, o “soltar a imaginação” e as brincadeiras de criança. As memórias de infância são transformadas quase em presenças vivas do lugar. O riso, as correrias e as leituras coletivas permanecem, apesar do digital marcar cada vez mais presença no imaginário infantil.
Graças ao Bando, as únicas telas as quais o público infantil é exposto são as dos quadros e das páginas dos livros. Apesar de ter surgido de repente, decorrente de uma leitura coletiva entre três estudantes na casa de Lucélia, a iniciativa segue em luta pela preservação da saúde mental e democratização da literatura infanto-juvenil. É quase cômico ter que pensar que deve-se lutar pela criatividade e imaginação dos jovens. Porém, , isso se torna cada vez mais real. Nos quartos infantis, dificilmente se vêem brinquedos, bonecas ou jogos de tabuleiro. Todos esses preciosos deleites que permeiam a memória de antigas gerações raramente se fazem presentes nas vidas dos pequenos.
Por João Pimentel
Serviço:No dia 13 de março de 2026, jovens, adultos e idosos comemoraram o aniversário do Bando da Leitura. Desde 2025, o Bando da Leitura é reconhecido como Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura.

Editais públicos privilegiam sertanejo em apresentações musicais
Dos 21 editais publicados pela prefeitura em 2025, apenas quatro tratavam de shows
O sertanejo foi, durante anos, o ritmo musical mais ouvido no país. Gênero cujas letras exaltam o agronegócio, a vida no campo e relacionamentos heteronormativos. O cachê de artistas sertanejos chegam a mais de um milhão de reais, como é o caso do cantor Gusttavo Lima, que realizou um show em Ponta Grossa em 2025.

Crédito: Karine Santos
Já para os que cantam outros ritmos a competição é desleal. Cantores independentes possuem dificuldades para se manter no meio artístico e muitos utilizam recursos públicos através de editais ou captação . Em Ponta Grossa, o número de editais para os músicos se apresentarem publicamente está muito abaixo. Em 2024, de acordo com o site da Cultura, apenas quatro editais públicos foram para artistas musicais, sendo dois direcionados ao sertanejo em específico e um para apresentação de bandas no Conservatório Maestro Paulino.
Além disso, o sertanejo e o gospel – que agora possui um evento exclusivo, o ‘Fé Ponta Grossa’ – são os ritmos mais contemplados com editais de financiamento e apresentação, diferentemente de estilos musicais historicamente marginalizados, como o funk e rap. Para tais artistas, o principal edital público é o Sexta às Seis, projeto de incentivo e promoção cultural-musical gratuito, que disponibiliza uma premiação total de 70 mil reais. De acordo com o último edital, 20 bandas concorrem a um prêmio de apenas R$3.500,00 reais cada. Enquanto o sertanejo e o gospel ganham destaque – e dinheiro – na cidade, artistas de fora do eixo ficam à margem do poder público.
Por Karine Santos

Resistência através da expressão corporal
Grupo Leven de Ponta Grossa reafirma a dança como forma de expressão artística
O grupo independente de dança Leven, criado em 2022 em Ponta Grossa, surge como um exemplo da resistência artística em um cenário cada vez mais consumido pelo consumo rápido. Inicialmente voltado à cultura do k-pop, o grupo parte de referências estéticas caracterizadas pelo pop sul coreano. No entanto, em seu trabalho mais recente, o grupo quebra essa base ao apresentar uma coreografia para a música “Letal”, do cantor Lilo.
Ao apostar em algo mais sensual e envolvente, o grupo demonstra maturidade artística ao traduzir a narrativa proposta pela música. A coreografia, assinada por Kauê Kulka e Manuela Rodrigues, estudantes de Educação Física na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), evidencia um cuidado que vai além da execução técnica.
Esse movimento ganha ainda mais relevância quando inserido no contexto atual da dança, profundamente impactado pelas redes sociais. Por um lado essas plataformas popularizam o acesso e trazem visibilidade a artistas independentes, por outro impõem uma lógica de produção acelerada, na qual coreografias são frequentemente reduzidas a passos repetitivos e sem sentido.
É justamente nesse ponto que o trabalho do grupo Leven se destaca. Ao evitar a superficialidade dos vídeos de tiktok e investir em uma construção de coreografias mais precisa. O grupo reafirma a dança como forma de expressão artística capaz de contar histórias e provocar sentimentos.
Por Larissa Didres

Falta de divulgação impede a visibilidade ao acervo de artes da cidade
Baixa presença nas redes sociais causa desconhecimento do acervo municipal de obras de arte
Fundado em 2023, o acervo municipal de obras de arte de Ponta Grossa carrega uma importante fonte de cultura na cidade. O espaço reúne pinturas, retratos e até maquetes, permitindo ao público apreciar diferentes formas de arte produzidas tanto por artistas locais quanto de fora. Entretanto, apesar de sua relevância cultural, o acervo ainda é pouco lembrado pela população. Uma das principais razões para isso é a falta de comunicação e de divulgação do espaço.

Crédito:Leonardo Alexandre
Localizado na Rua Augusto Ribas, abaixo do antigo Centro de Cultura, hoje chamado Cine PG, o acesso ao acervo muitas vezes é confundido com um estacionamento. Por isso, algumas pessoas acabam indo ao prédio acima para obter informações sobre o lugar. Além disso, a baixa presença nas redes sociais contribui para o desconhecimento do espaço por parte da população e dificulta a divulgação de informações importantes, como eventuais fechamentos.
Segundo funcionários, a arte muitas vezes é ignorada. Há ainda visitantes observam apenas algumas obras, geralmente as que estão no pátio, deixando de explorar a parte interna do acervo. Essa dinâmica desvaloriza tanto o espaço quanto o trabalho dos artistas, que só ganham visibilidade em eventos específicos.
Atualmente, o principal público do acervo são estudantes da UEPG. Ainda assim, há potencial para ampliar esse alcance. Cabe à Prefeitura ou à Secretaria de Cultura destinar maior atenção ao espaço, especialmente na divulgação e sinalização do local. Assim o acervo poderá se tornar mais conhecido e valorizado pela comunidade em geral.
Por Leonardo Alexandre

Entre luzes e lacunas nas manchetes
Capas de jornais impressos revelam repetição institucional e baixa continuidade crítica no noticiário regional
Uma ideia bastante conhecida sobre o jornalismo diz que sua função é publicar aquilo que alguém prefere esconder. Partindo dessa provocação, uma análise mensal das capas do Diário dos Campos e do Jornal da Manhã, deste ano, leva a outra reflexão: mais do que o que aparece, importa observar o que se repete e o que deixa de aparecer. Considerando apenas os títulos de capa, é possível identificar padrões objetivos de seleção e hierarquização que ajudam a construir a agenda pública local.
No Diário dos Campos, as capas quase sempre destacam investimentos, liberação de recursos e obras públicas, com cerca de 70% das manchetes baseadas em declarações oficiais. O Jornal da Manhã é um pouco mais variado, trazendo pautas sociais, esportivas e do cotidiano, mas ainda assim 60% das manchetes seguem vinculadas a agendas institucionais. Ambos são os únicos jornais impressos de Ponta Grossa, o que aumenta a responsabilidade na formação da opinião pública e na fiscalização das ações do poder público. Nos dois portais, percebe-se a forte dependência de fontes institucionais, como prefeituras, governo estadual e lideranças políticas. Isso levanta um questionamento central sobre o papel do jornalismo: refletir a realidade ou apenas reproduzir discursos oficiais? A cobertura de problemas, como falhas em serviços ou infraestrutura, aparece de forma pontual, sem continuidade, o que enfraquece a função fiscalizadora e limita o acompanhamento dos fatos. Fica claro um desequilíbrio: os anúncios se repetem e questões críticas aparecem de forma esporádica. No impresso, a lógica é ainda mais problemática, pois a repetição de determinadas pautas constrói uma percepção da realidade mais estável e homogênea do que ela de fato é. Sem menção, ou retomada, os problemas desaparecem do debate público com a mesma rapidez com que saem da capa.
Por Lorena Santana

Atrasos e falta de transparência e impacto cultural: o cenário do Cine Teatro Ópera
Reformas do Cine Teatro Ópera demoram mais de um ano para serem concluídas
Desde 2025 o Cine Teatro Ópera está passando por melhorias, principalmente na infraestrutura. As reformas são para reforçar o telhado do teatro, garantir maior acessibilidade e proporcionar melhorias técnicas aos palcos. Porém, após quase um ano o palco principal continua indisponível, o que está sendo feito afinal?

Crédito:Lucas Jolondek
As melhorias previstas são necessárias e já deveriam ter sido prioridade há pelo menos 20 anos. Porém, a Prefeitura Municipal de Ponta Grossa, responsável pela licitação (edital nº 043/2025), não tem conseguido demonstrar eficiência do processo, o que compromete um dos principais pontos culturais da cidade.
Se de um lado as obras prometem elevar o nível estrutural do teatro, por outro, elas expõem uma desorganização que prejudica artistas, festivais e o público. Produções que costumam utilizar o grande palco do Ópera se veem obrigadas a buscar locais improvisados. Festivais de grande porte, como o Festival Nacional de Teatro (FENATA) e o Festival Universitário da Canção (FUC), sofreram diretamente com a indisponibilidade do espaço no ano passado. No fim, o Cine Teatro Ópera continua sendo um símbolo cultural de Ponta Grossa, mas está passando por um momento em que sua importância revela sua precariedade. As reformas precisam acontecer, mas a demora prejudica.. A Secretaria de Cultura informa que a previsão é finalizar em 180 dias.
Por Lucas Jolondek

Crítica das condições do RU para dar uma refeição boa aos usuários
Condições do RU UEPG para oferecer uma gastronomia de qualidade a estudantes e funcionários
O RU (Restaurante Universitário) da UEPG oferece refeições de segunda à sexta-feira, com o valor de R$3,80 para os estudantes e R$10,00 para os funcionários públicos. Um preço considerado alto para esses usuários. O cardápio é repetitivo. Geralmente, nas segundas, inclui carne de panela cozida, carne de porco, polenta e salada de repolho. Nas sextas-feiras, oferece macarronese, frango e peixe frito com purê de batata. As sobremesas alternam em frutas e gelatinas.

Crédito:Lucas Barbato
De acordo com estudantes de diferentes cursos da UEPG Central e de Uvaranas, os pratos que mais agradam no cardápio são a lasanha, o strogonoff com batata palha e frango assado. Já os que menos agradam são a linguiça com tutu de feijão e a bisteca assada, que é muito difícil de cortar com o garfo e a faca, devido à sua dureza.
Para os servidores que almoçam no RU, faltam pacotinhos de sal para colocar nas saladas, pois só o molho com vinagrete não é suficiente.
Em março, os Restaurantes Universitários da UEPG (RUs) receberam uma visita técnica da Vigilância Sanitária. Ao longo da visita, os profissionais acompanharam o trabalho realizado pelos servidores no manejo e armazenamento dos alimentos e vistoriaram toda a estrutura física à disposição dos funcionários dos Rus. Nenhuma irregularidade foi verificada durante a visita.
Por Lucas Barbato

O esporte que não custava nada agora tem preço
As inscrições para provas de corrida em Ponta Grossa variam entre 50 a 150 reais
A corrida é um dos esportes mais praticados por ser gratuita. Segundo a Confederação Brasileira de Atletismo, o Brasil tem mais de 14 milhões de corredores amadores. Em Ponta Grossa, locais como o Lago de Olarias, o Parque Ambiental e as ciclovias estão cada vez mais movimentados.

Crédito: Arquivo Pessoal
Quem entra nesse mundo logo descobre que só o tênis não basta. Tênis de treino, tênis de competição, modelos que prometem segundos a menos por quilômetro, os preços vão de R$200 a mais de R$2.500. Ainda tem roupa de compressão, relógio digital e fone sem fio. A indústria vende a ideia de que você pode ser melhor, desde que compre as ferramentas certas.
Para muitos praticantes, a corrida deixou de ser um hábito e passou a ser uma identidade de consumo e as redes sociais aceleram essa lógica. Aplicativos como o Strava, com mais de 135 milhões de usuários, transformam o treino em performance, em busca do menor tempo por quilômetro, a distância, o ranking e ganho de elevação.
Na cidade, a agenda de provas cresce todo ano e as inscrições podem pesar no bolso. Os valores oscilam entre 50 a 150 reais com premiações que, na maioria das vezes, são apenas medalhas ou troféus.
A pressão pela performance também tem um preço físico. Correr mais do que o corpo suporta, sem respeitar o tempo de recuperação, pode resultar em lesões. A corrida simples de rua ainda existe, a questão é resistir à pressão de transformá-la em um produto.
Por Mafe Sperafico

A camisa da Seleção como marcador político em Ponta Grossa
Símbolo nacional passa a expressar posicionamento ideológico e revela disputas de identidade na moda urbana local
Em Ponta Grossa, vestir a camisa da Seleção Brasileira deixou de ser um gesto espontâneo de pertencimento para se tornar uma escolha carregada de significado político. O que antes operava como símbolo nacional difuso hoje funciona, em muitos contextos, como marcador ideológico, um deslocamento que revela como a moda absorve e reproduz tensões sociais.

Crédito:Daniel Américo
A apropriação da camisa verde-amarela por movimentos associados ao bolsonarismo, sobretudo consolidada nas eleições de 2018, alterou sua leitura pública. O uniforme deixou de ser apenas futebol e passou a comunicar posicionamento. Na prática, isso reorganiza o consumo: jovens e públicos progressistas evitam a peça no cotidiano, restringindo seu uso a momentos considerados neutros, como a Copa do Mundo.
Esse afastamento não significa ausência estética, mas reinvenção. Cresce o uso de versões retrô, da camisa azul ou de combinações que diluem o verde e amarelo. Há também ironia e customização como resposta simbólica. A moda urbana local passa a incorporar microgestos de recusa, evidenciando que o corpo vestido é também território político.
No entanto, reduzir o uso da camisa apenas a um alinhamento ideológico pode simplificar um fenômeno mais complexo. Ainda há usos despolitizados, especialmente em contextos esportivos ou populares, o que indica disputas em aberto sobre seu significado.
A politização da camisa expõe, sobretudo, uma crise de pertencimento: quando o símbolo nacional se torna desconfortável, o que está em jogo não é apenas estética, mas identidade coletiva.
Por Maria Gallinea
Ficha técnica
Autores: Ingrid Müller, João Pimentel, Karine Santos, Larissa Didres, Leonardo Alexandre, Lorena Santana, Lucas Jolondek, Lucas Barbato, Mafe Sperafico e Maria Gallinea
Supervisão de produção: Paula Melani Rocha
Edição e publicação: Nathália Stüpp
Supervisão de publicação: Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado
Contato: periodico@uepg.br

