Não há nada mais a se esperar

Abortos espontâneos em mulheres de 20 a 29 anos totalizaram 211.168 casos de 2018 a 2023.

Arquivo pessoal: Gabriel Estevão

É possível três anos acabarem em três dias? Como um laço de quatro meses acaba em questão de segundos? O quarto decorado com cores claras e animaizinhos desenhados agora é coberto por luto e memórias, que sequer aconteceram. 

Michelle Mari Rodrigues Ribeiro tem 27 anos, e atualmente estuda Psicologia em uma universidade particular, em Curitiba. Ela e o marido passaram três anos até conseguir engravidar e, após quatro meses de gestação, Michelle teve um aborto espontâneo em novembro de 2025 e, depois de dois dias de internação, se despediu de Serena. Desde o primeiro exame morfológico, já estavam com um diagnóstico de má formação com a Translucência Nucal (TN) alterada, quando a medida do acúmulo de líquido na nuca do feto é igual ou superior a 2,5 mm. Isso indica um sinal de alerta para maior risco de síndromes genéticas (como a Down) ou problemas cardíacos.

“Em uma consulta de rotina nós  não conseguimos ouvir o coração dela, por isso fomos direto para o pronto atendimento, onde fizeram uma ecografia e viram que o coração já não estava mais batendo”, diz Michele. O sinal de má formação no começo da gestação evoluiu e o quadro tornou o bebê incompatível à vida. Ela explica que passou pela curetagem, processo de raspagem para retirar tecidos do útero e, em seguida, por um parto induzido. 

Quatro meses de planejamento, quarto arrumado, fraldas compradas, e não apenas uma família, mas uma comunidade inteira pronta para a chegada de um ser. Não era apenas um feto. Era um bebê com um futuro já esperado.

Gabriel Estevão, casado há cinco anos com Michelle, é designer e pastor.  Após o momento do parto, Estevão estendeu as mãos e tomou o bebê, que não chorava. Com o sangue nas mãos, ele correu para o corredor e chamou os médicos. Ele descreve que a dor era nova em todos os sentidos, e que tentava se manter emocionalmente forte. “Terça-feira, durante a madrugada, enquanto minha esposa chorava de dores e contrações, durante um tipo de parto que nós não esperávamos, eu estava ali, tentando fazer o meu melhor. Enquanto ela chorava de dor e lamentava a notícia, eu só pensava em ser forte e seguro.”

O casal relata que perder a bebê foi um processo doloroso e difícil e, após a saída do hospital e recuperação física, eles optaram em passar alguns dias sozinhos na praia. O tempo de isolamento serviu para reconexão pessoal dentro do relacionamento, reflexão sobre o acontecimento e decidir os próximos passos. Afinal engravidar sempre foi um sonho, e mesmo depois de tudo eles decidiram continuar tentando. 

O processo do luto na perda gestacional 

A psicóloga Bruna Catapan explica os processos mentais por trás do luto. A abordagem comportamental e contextual é colocada pela especialista como prática comum para ajudar casais que passam por processos de perda. Ela entende o contexto pessoal de cada indivíduo e como o casal pode passar pela perda gestacional. “Em casos onde realmente afeta, pode gerar pensamentos automáticos e crenças associadas à perda, como: culpa, incapacidade, crença de que não vai conseguir engravidar de novo, medo de sempre acontecer. Então, isso esses pensamentos podem surgir  incontrolavelmente e a pessoa não ter a habilidade de enfrentá-los”. 

A profissional reforça que o sofrimento é inerente à vida humana, e que enfrentar o luto não é eliminar a dor, mas sim aceitar as situações e a realidade, com flexibilidade emocional e psicológica. “Com o passar dos anos o aborto e o luto se tornaram temas mais comuns, algum tempo atrás, a falta de informação, cultura e, principalmente, a religião eram fatores que não permitiam casais a passar de forma leve pelo processo”, diz. 

Arte: Karine Santos e Marina Ranzani

A resposta da comunidade

O aborto é um tema sensível e sempre discutivo de forma negativa em comunidades cristãs. Em fevereiro deste ano, durante uma audiência no Vaticano, o Papa Leão XIV retomou uma frase atribuída a Madre Teresa de Calcutá: “o maior destruidor da paz é o aborto”. Na igreja evangélica também é partilhado o mesmo pensamento. Como pastores, Gabriel e Michele compartilharam o processo com a comunidade. Bilhetes, flores e visitas não faltaram nos primeiros dias após a perda, e segundo Michelle, eles receberam muito apoio e acolhimento de todos os lados. “Eu sinto que, no todo, a igreja ajudou. Eu acho que o fundamental foi a união e a sensibilidade do casal. Nesse momento, é preciso entender que você está passando por uma fase difícil que precisa de atenção.”

Segundo o Artigo Abortos espontâneos no Brasil: um estudo de incidência no período de 2018 a 2023, foram notificados 482.380 casos de aborto espontâneo no país. Destes, 67.701 aconteceram em 2023. Quase metade dos casos são complicações que exigem a internação da mulher em hospitais ou prontos-socorros para concluir o procedimento. Segundo o Código Penal e a ADPF 54, o aborto é permitido em: gravidez decorrente de estupro e estupro de vulnerável (menores de 14 anos); presença de risco de vida para a mulher e em caso de anencefalia fetal. 

Esta reportagem integra uma coletânea do livro-reportagem investigativo “Do luto à festa”, este capítulo trata de um caso de aborto espontâneo e seus desdobramentos dentro das comunidades evangélicas. Acompanhe no Periódico as próximas publicações.

 

Ficha técnica

Produção: Eduarda Leal

Supervisão de produção: Hendryo André

Edição e publicação: Amanda Rafaella, Emanuelle Pasqualotto e Roberto Indzejczak

Supervisão de publicação: Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado

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