Parauapebas, no Pará, fica a quase três mil quilômetros de Ponta Grossa, Paraná. Entre uma cidade e outra, além da distância e da saudade de casa, há o sonho de um menino que, desde pequeno, sonha em jogar futebol profissionalmente. Mateus Silva da Silva, conhecido como Jacaré, tinha 13 anos quando começou a jogar bola em uma escolinha de futebol localizada na cidade em que cresceu.
Mateus saiu de casa em busca do sonho aos 14 anos, quando mudou-se para Goiás, onde ficou aproximadamente um ano. “Quase desisti três vezes, cheguei a pensar em voltar para casa, com a ideia de que em casa estaria melhor, mas não estava”, admite.
A história de Mateus é uma realidade das categorias de base no Brasil, em que a maioria dos jovens migra diversas vezes de lugar durante toda a sua formação até a profissionalização. Jacaré começou na escolinha local, em Parauapebas, avançou para Goiás, passou por Belo Horizonte, chegou a Brodowski, interior de São Paulo, até avançar ao Paraná, onde chegou a atuar em clubes como Pinhão, Coritiba até, em 2026, chegar para vestir a camisa do Operário Ferroviário, em Ponta Grossa, em que atualmente integra o elenco sub-17, como atacante.

Arquivo pessoal – Mateus Silva
O início do sonho
O deslocamento começou antes mesmo de amanhecer. Horas dentro de um avião e um caminho longo até chegar em Ponta Grossa. Mateus pegou o primeiro voo no Pará às cinco e meia da manhã com destino à primeira conexão, em Brasília, onde chegou por volta de meio-dia e meia. Com escala de uma hora, saiu da capital do Brasil rumo a São Paulo, onde desembarcou no aeroporto de Guarulhos e seguiu viagem até o Paraná. Uma viagem longa e, como ele mesmo define, “atrás de um sonho que estou correndo”.
As adaptações precisaram acontecer em diversos sentidos. O atleta conta que sentiu diferença entre os estados, principalmente na alimentação. “Não me acostumei direito ainda, o tempero e as comidas típicas são muito diferentes, mas as comidas daqui do Paraná são boas”. No clima, o frio do Sul, principalmente da capital paranaense, Curitiba, exigiu uma adaptação rápida de Mateus.
O relato de vida dele é mais um entre milhares de meninos espalhados pelas categorias de base no Brasil. O dado mais recente em relação à migração de atletas é um estudo publicado pela Universidade do Futebol, em 2021. A pesquisa levantou informações de 12 clubes das séries A e B do Campeonato Brasileiro e identificou 1.680 jogadores nas categorias de base. Desses, 718 eram oriundos de estados diferentes dos clubes que atuavam. Ou seja, quase metade já havia saído de casa cedo em busca do sonho.

Crédito: Mafe Sperafico
No Paraná, o Athletico Paranaense está entre os principais clubes na formação de novos talentos, reconhecido por revelar jogadores que recentemente vestiram a camisa da Seleção Brasileira, como o goleiro Bento, o lateral-esquerdo Renan Lodi, o zagueiro Léo Pereira e o atacante Vitor Roque, além de outros nomes que conquistaram espaço no futebol internacional. Em seu levantamento mais recente, o Observatório de Futebol (CIES Football Observatory), instituição suíça de referência em pesquisas sobre o esporte, avaliou o rendimento de atletas formados em clubes de todo o mundo, considerando critérios técnicos e estatísticas, que medem tanto o volume de jogadores revelados, quanto a qualidade das equipes em que atuaram e o tempo que tiveram em campo ao longo da última temporada.
O Furacão conquistou uma vaga entre os 100 melhores clubes formadores do planeta, consolidando o Paraná como figura importante para a formação de jogadores que atuam no futebol mundial. Entre os demais representantes brasileiros na lista estão São Paulo, Corinthians, Flamengo, Palmeiras, Santos, Grêmio, Cruzeiro, Internacional, Fluminense e Atlético Mineiro.
O processo de formação é regulado pela Lei Pelé, de 1998, que estabelece o contrato de formação desportiva para jovens entre 14 e 20 anos. Segundo a lei, deve-se garantir formação técnica, educacional, física e psicológica, com bolsa de aprendizagem, sem gerar vínculo empregatício aos atletas. Em 2025, a Confederação Brasileira de Futebol reduziu a idade mínima para esse tipo de contrato de 14 para 12 anos, ampliando o período em que clubes com Certificado Formador podem firmar vínculos com jovens atletas.
Quando perguntado o que o impediu de desistir, Mateus responde sem hesitação: “minha família, minha mãe e meus irmãos”. Mateus tem cinco irmãos. A mãe, Micheli Silva, segundo ele, nunca deixou de acreditar. “Minha mãe ficou bastante pensativa, mas confiou na minha força mental. Ela acreditou que eu conseguiria viajar cedo e sabia que não estaria sozinho nessa, graças ao apoio que tenho”, relembra.
“Uma segunda família”. É assim que Jacaré define seus colegas de clube. A expressão é recorrente entre os atletas de base. No caminho até a profissionalização, os colegas são a rede de apoio para os momentos em que as famílias de sangue estão a quilômetros de distância. No início de 2026, Jacaré estreou pelo Operário no Campeonato Paranaense Sub-17 e, até o momento, tem sete jogos e seis gols marcados.
Esta reportagem integra uma coletânea de livro-reportagem investigativo. Este capítulo trata da realidade por trás das categorias de base. Acompanhe no Periódico as próximas publicações.
Ficha técnica
Produção: Mafe Sperafico
Edição e publicação: Luiz Cruz e Amanda Los
Supervisão de produção: Hendryo Anderson André
Supervisão de publicação: Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado
