Entre 2023 e o final de 2025, cerca de 704 mil novos casos de câncer foram diagnosticados por ano no país, segundo estudos do Instituto Nacional de Câncer (INCA), sendo 70% deles nas regiões sul e sudeste. A neoplasia maligna cutânea, mais conhecida como câncer de pele, representa 30% de todos os tumores malignos registrados no país, segundo a revista SciELO Brasil. Considerado um dos tipos mais comuns e com a maior taxa de cura, a doença atinge em grande parte pessoas com mais de 60 anos, e trata-se do crescimento descontrolado das células da pele, em sua maioria, quando expostas excessivamente ao sol, e esse foi o caso de Ozeni de Oliveira, 61 anos.
Ozeni, que atualmente é aposentada e dona de casa, relata sua jornada vivendo com a doença que tratou durante um ano. Os sintomas começaram a aparecer há cinco anos, mas eram apenas manchas. Ao longo de sua vida, os tratamentos de cuidado com a pele foram limitados, muitas vezes por falta de acesso e informações sobre sua importância – o que é comum entre pessoas da terceira idade. Foi no início de 2024 que os sintomas mais fortes apareceram. Ela conta que surgiram pequenos nódulos em seu rosto, três no total. Assim, foi instruída pela família a ir em um médico. Em pouco tempo ela se dirigiu à Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima de sua casa, em Castro (PR).

Arte: Amanda Los
Entre 2022 até o final de 2025 houve um aumento de quase 55 mil casos de câncer no Brasil.
Já na primeira consulta, os nódulos foram retirados e enviados para biópsia, com um temido resultado positivo para câncer de pele sendo confirmado. A dor e o medo foram grandes, há mais de dez anos Ozeni havia perdido a filha mais velha para outro tipo de câncer, a leucemia – parecia que a doença havia voltado a assombrar a família. Conforme a Lei 12.732/2012, o Sistema Único de Saúde (SUS) é obrigado a iniciar o tratamento em até 60 dias após o diagnóstico. Ozeni o recebeu em menos de duas semanas. “Eu esperava que o tratamento demoraria até uns três meses, mas foi muito rápido”.
Com o tratamento em curso, um obstáculo foi encontrado: alguns medicamentos tinham como função passar o câncer que estava na segunda camada de pele para a parte superficial do rosto, permitindo assim um tratamento mais intensivo. Josemara de Almeida, filha de Ozeni, se prontificou a fazer os cuidados diários, mas a dor em ver sua mãe sofrendo foi intensa. “É difícil ver a sua mãe ali com o rosto todo inchado e cheio de feridas. O máximo que você podia fazer era limpar as feridas, fazer os curativos e falar algumas palavras de força para ela”. Foi um período difícil para ambas, e para a família, eles pouco viam o rosto de Ozeni, que se recusava a sair de casa. O emocional de Josemara também foi diretamente afetado. “Eu vinha para a casa e chorava, não chorava na frente dela. Chorava em ver a situação que ela estava”.
Ozeni é uma mulher muito religiosa e ex-missionária. Com sua autoestima abalada, deixou de ir aos cultos semanais que frequentava rigorosamente. Sua filha conta que no ápice do tratamento, Ozeni não conseguia olhar seu rosto no espelho. Em certo momento, ela até mesmo pediu para Josemara cobrir os espelhos de casa. Além da autoestima extremamente fragilizada, como parte do processo de cura, ocorreu o aumento de feridas no rosto. “Fiquei 70 dias sem dormir, sem comer, porque fechou o olho e o nariz por conta de feridas que saíam, e na boca ficou só um cantinho“.
Durante o tratamento, foram receitados alguns medicamentos que o SUS não conseguia cobrir e que não cabiam em seu orçamento. Ozeni, sem muitas perspectivas, descobriu a existência da Rede Feminina na Luta Contra o Câncer, do município, uma instituição destinada a auxiliar mulheres que não têm condições de arcar com o tratamento.
Para Ozeni isso pode ser chamado de milagre. A instituição tem como uma de suas ações a busca e compra de remédios para mulheres de classe média e baixa, além de lhes oferecer apoio, fazendo visitas às residências e ligações. “Lá eu sou muito bem assistida”. A entidade disponibiliza cestas básicas e caixas de leite integral e também conta com um bazar para o público externo – revertendo a venda para para pacientes em vulnerabilidade social.
Em seu caso, uma das profissionais responsáveis por Ozeni foi a dermatologista Sarah Gomes. Em sua carreira, atendendo uma vez por semana pelo SUS e em sua própria clínica, ela destaca que existe um abismo entre as classes que ela atende.“Os pacientes com maior nível socioeconômico muitas vezes chegam no período inicial da tumoração da pele, já os pacientes com menor poder socioeconômico, muitas vezes negligenciados, ou por falta de informação, chegam em estado avançado da doença, com a tumoração maior ou ulcerada”.
Hoje em dia, já curada, Ozeni mantém os cuidados da pele em dia. Agora, com todo o seu aprendizado e bagagem emocional, o caso serve de exemplo para toda a sua família, ressaltando a importância de um diagnóstico precoce e tratamentos intensivos com a pele.
Ficha técnica
Produção: Sarah Brasil
Edição e publicação: Leonardo Alexandre
Supervisão de produção: Janaine Kronbauer
Supervisão de publicação: Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado
