Produzido pelo terceiro ano do curso de Jornalismo da UEPG, o Crítica de Ponta traz o melhor da cultura da cidade de Ponta Grossa para você!
Entre a distopia e a realidade
A república de Gilead mostrada pela série “O Conto da Aia” mostra a vida almejada por homens do movimento Red Pill
Já imaginou acordar em um mundo onde as mulheres não podem trabalhar, ler, ter dinheiro e existirem apenas para servir os homens? Essa é a realidade da série americana “O Conto da Aia”. A produção mostra os Estados Unidos que, do dia para a noite, sofreu um golpe de estado por uma facção religiosa extremista. Baseada no livro de Margaret Atwood, publicado em 1985, a série se tornou uma das produções mais importantes da televisão contemporânea. Mas o que começa como ficção, pode vir a ser um espelho incômodo da realidade. A produção criada por Bruce Miller completou um ano de encerramento, com seis temporadas, acumulando 15 prêmios Emmy ao longo de sua trajetória.

A história se passa após um golpe onde o país começa a se chamar República de Gilead, uma ditadura teocrática. Na realidade da obra, acompanhamos June Osborne, interpretada por Elisabeth Moss, lá mulheres férteis chamadas “aias”, são escravizadas, com o único objetivo de gerar filhos aos líderes do governo e esposas. As “aias” perdem todos os direitos humanos. Durante a trama a protagonista tenta sobreviver e resistir enquanto busca a filha roubada. Margaret Atwood disse que não inventou nada e que tudo já aconteceu em algum lugar do mundo real. E ela tinha razão, basta abrir as redes sociais para encontrar o que Gilead prega, não como ditadura, mas como conteúdo recomendado pelo algoritmo. É o movimento Red Pill, uma subcultura online composta principalmente por homens que defendem mulheres sem poder. A idéia surgiu como conteúdo de autoajuda nas redes sociais, e foi se tornando cada vez mais misógino, alimentado pelos algoritmos do TikTok e Instagram. Um dos precursores do movimento foi o “Calvo do Campari”, preso em 2025 por agredir a namorada. Em todo o país, o conteúdo tem se espalhado de forma rápida com as redes sociais, podcasts e venda de cursos online.

Foto: Divulgação Netflix
O movimento se encontra em alta principalmente entre o público mais jovem que vive uma onda conservadora. Em Ponta Grossa, os números se tornaram preocupantes, pois 290 casos de violência contra a mulher foram contabilizados só no primeiro semestre de 2025, e a cidade ocupa o 3º lugar no Paraná em violações registradas em 2026. A ligação entre a obra cinematográfica e o movimento Red Pill é direta, pois ambos pregam a autonomia feminina como uma ameaça constante. A diferença entre eles é o método: a série usa o governo, e o movimento Red Pill usa a internet. Nos dois casos a misoginia está presente.
Por Sarah Brasil
Serviço: A série pode ser assistida em streamings como Netflix, Amazon Prime, Disney Plus e Paramount Plus.

Quando vencer vira pressão
Em Deep End, da escritora Ali Hazelwood, o esporte não aparece apenas como competição ou conquista. O livro mostra o lado mais pesado da alta performance: a pressão constante, a autocobrança extrema e o medo de falhar. Os personagens vivem tentando ser perfeitos o tempo todo, treinando até o limite físico e emocional, como se descansar fosse sinônimo de fracasso.
A história acaba se aproximando muito da realidade de atletas brasileiros, inclusive no Paraná. Uma pesquisa feita com mais de 1.200 atletas paranaenses mostrou que 27% já apresentavam sinais de exaustão emocional relacionados ao esporte. (folhadelondrina.com.br) O estudo também identificou casos de burnout esportivo, causado pela rotina intensa de treinos, pela pressão por resultados e pela necessidade constante de manter um alto desempenho.
No livro, Ali Hazelwood mostra como muitos atletas passam a associar seu próprio valor apenas às vitórias. O erro deixa de ser parte do aprendizado e vira motivo de culpa. Essa lógica também aparece na vida real, principalmente entre jovens atletas que precisam lidar ao mesmo tempo com estudos, competições, expectativas familiares e pressão psicológica. Além disso, a obra critica uma cultura muito presente no esporte, a ideia de que sofrimento é prova de dedicação. Quanto mais cansado o atleta está, mais ele parece ser valorizado. Com isso, saúde mental e descanso acabam ficando em segundo plano.
Mais do que um romance esportivo, Deep End faz uma reflexão sobre até onde vale ultrapassar os próprios limites para corresponder às expectativas dos outros, e às próprias cobranças.
Por Yasmin Aguilera

“Felídia”: um álbum entre o desejo de amar e ser livre
Somente em 2025, Giana Althaus obteve 9,6 milhões de streams no Spotify
Inspirado na estética dos anos 2000 e com nome nada convencional, “Felídia” é o álbum de estreia da cantora paranaense Giana Althaus. Lançado em novembro de 2025, o título do disco “simboliza força, independência e sensualidade” feminina. Ao todo, são 12 faixas inéditas que se conectam, sobretudo, com o público jovem. Temas como paixão, autoconfiança, desejo e desilusões amorosas, que são universais, não ficam de fora. A coletânea conta, também, com as colaborações de Gustavo Mioto e L7NNON.
Por ser um álbum pop, as músicas são fáceis de memorizar, com refrões repetitivos e batidas enérgicas. Entretanto, o disco não se mantém só nos clássicos ritmos animados do gênero. Faixas como “Ex Sozinha” e “Não Compensou Eu Te Amar” possuem melodias mais melancólicas e letras emocionais.

Crédito: Divulgação Giana Althaus
A ambiguidade também faz parte da estratégia criativa da artista. Em “Medo De Nada”, faixa que aborda o receio de se aprofundar em relacionamentos, Giana brinca com a palavra “nada”. A frase “Quando a gente se quer, não tem medo de nada, só nada, só nada, nada contra a maré” atesta o uso do recurso.
Por outro lado, “Felídia”, “Tiro Teu Ar” e “Gata Anos 2000” reafirmam a essência do álbum. Com ritmos dançantes, Giana canta sobre magnetismo, sedução, autoestima e liberdade. A faixa “Gata Anos 2000”, inclusive, é um dos pontos altos da coletânea. Fruto da parceria com o rapper L7NNON, o contraste entre os estilos e as vozes despertam interesse e cativam o ouvinte. Após cinco anos do primeiro single, “Stuck Into This”, Giana se fortalece na indústria da música com autenticidade e forte presença criativa.
Por Giulia Neves
Serviço: Escute “Felídia” (2025) no Spotify.

Heranças em exposição artística em PG
Memórias familiares transformadas em arte, exposição apresenta histórias de mulheres que atravessam gerações por meio de desenhos, gravuras e textos
“Vou falar sobre elas” chega à cidade de Ponta Grossa e transforma lembranças familiares em linguagem artística. Proposta iniciada em 2020 com o isolamento social na pandemia do Coronavírus, pela artista Michelle Fiorucci, a exposição revela histórias que ultrapassam gerações. A artista encontrou na arte um caminho para revisitar memórias, fortalecer vínculos afetivos e ressignificar experiências familiares, criando uma narrativa visual que aproxima o público de histórias particulares, mas também universais. A amostra integra o calendário de exposições de 2026 da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Com uma profundidade no trabalho, algumas das peças retratam memórias do próprio Bairro de Oficinas onde está localizada a exposição. O território também se torna parte da narrativa artística, relacionando espaço, pertencimento e identidade. A exposição não apenas apresenta lembranças individuais, mas dialoga com a memória coletiva da comunidade e com marcas culturais do Bairro de Oficinas.
A exposição reúne 14 obras que são textos curtos, desenhos e gravuras que revisitam histórias íntimas e afetivas da artista. Elas contam trajetórias de seis mulheres: Adele, Elzira, Eulália, Nelly, Wilma e Abiriah, cujas vivências são reinterpretadas por meio de uma abordagem poética. O trabalho leva ao público uma valorização das histórias femininas frequentemente invisibilizadas, construindo uma memória que vai além da experiência individual. A exposição também convida à reflexão sobre o papel das mulheres na construção das histórias familiares e sociais, destacando afetos, silêncios, desafios e legados que atravessam o tempo. A mostra está na Galeria de Arte UEPG, no Espaço Expositivo Edifício Fausi Azis Chagury, anexo ao Cine Teatro Pax e a entrada é gratuita.
Por Amanda Rafaella
Serviço: A exposição se chama “Vou falar sobre Elas” da artista Michelle Fiorucci. Estava localizado na Galeria de Arte UEPG, no Espaço Expositivo Edifício Fausi Azis Chagury, anexo ao Cine Teatro Pax, bairro de oficinas. Ficou em exposição de 05/05 até 01/06.

A movimentação noturna na Praça da Catedral
A Praça Marechal Floriano Peixoto, conhecida como Praça da Catedral, é um dos lugares mais conhecidos de Ponta Grossa. O espaço abriga a histórica Catedral Sant’Ana e, desde 2023, passou a ter uma movimentação noturna por causa dos bares e parklets ao redor da praça. Entre sexta-feira e domingo, muitos jovens se encontram no local para conversar, beber e ouvir música. A movimentação começa por volta das 19h e segue até a madrugada. Algumas pessoas levam cadeiras para ficar na praça, enquanto outras chegam em carros com som alto, transformando o espaço em um ponto de encontro.
Porém, o local também recebe críticas dos moradores da região. As principais reclamações são o excesso de barulho, sujeira, garrafas quebradas e pessoas urinando em público. Os questionamentos destacam a falta fiscalização pela prefeitura. A praça deixou de ser apenas um cartão-postal da cidade e se tornou também um espaço de conflitos entre lazer e tranquilidade. Entre as normas vigentes está a Lei Municipal nº 14.523/2022, que prevê à preservação da qualidade de vida e do sossego público, a legislação proíbe sons em volume excessivo em zonas residenciais e comerciais da cidade.
Por Celyne Stefani

O que a fila do restaurante popular diz sobre a cidade?
Em Ponta Grossa, o Restaurante Popular serve milhares de refeições todos os meses por apenas R$ 5. Em 2025, o espaço ultrapassou a marca de 140 mil refeições servidas. Em datas especiais, o cardápio recebe pratos mais elaborados e sobremesa. O restaurante demonstra cuidado com a alimentação e oferece refeições variadas por um preço acessível.
A procura pelo serviço também revela um problema social. Muitas pessoas dependem da refeição subsidiada para conseguir almoçar diariamente. Essa realidade mostra os impactos do alto custo de vida e das desigualdades na cidade.
A gastronomia costuma ser associada ao luxo e ao consumo. No Restaurante Popular, ela assume outro papel. O espaço trata a alimentação como um direito básico. Mesmo com o preço baixo, as refeições são acompanhadas por nutricionistas. O restaurante quebra a ideia de que comida barata precisa ter baixa qualidade.
Ponta Grossa possui apenas uma unidade do Restaurante Popular. Isso dificulta o acesso para moradores de regiões mais afastadas. A futura unidade prevista para Uvaranas representa uma promessa de ampliação do serviço, mas evidencia a demora do poder público em expandir esse tipo de atendimento.
Os eventos especiais e os almoços temáticos costumam receber destaque e divulgação. Em contrapartida, os debates sobre fome e acesso permanente à alimentação aparecem com menos frequência. Essa diferença mostra uma contradição importante.
No fim, o Restaurante Popular reflete a realidade da cidade. O espaço demonstra um esforço público para garantir alimentação acessível. Ao mesmo tempo, ele expõe a quantidade de pessoas que ainda dependem desse tipo de política para conseguir comer bem.
Por Daniel Américo

Existe uma queda na procura por ensino superior público no Paraná?
De 2016 a 2025, o volume de inscrições para o vestibular das principais universidades estaduais do Paraná revela um recuo. O fenômeno atinge a UEPG, a UEL e a UEM. Tais locais somam números bem abaixo dos índices em comparação a década passada. Em contrapartida, a Unioeste exibe um perfil contínuo e resiste à baixa, mantendo uma média de 10 mil a 11 mil inscritos por concurso. Já a UEPG viu um total de candidatos encolher: de mais de 12,6 mil inscritos em 2016, cai para cerca de 9 mil em 2025. A UEL segue um rumo similar e viu a lista cair quase pela metade no mesmo período, com uma máxima em 2020, 26 mil vestibulandos, para 15 mil em 2025. Ainda que a universidade londrinense seja a instituição com o maior número de inscritos entre as estaduais paranaenses analisadas, essa queda acentuada não pode ser ignorada.
A proporção entre vagas e candidatos é outra estimativa que se modifica bastante a cada ano, vale o exemplo da UEPG. No vestibular realizado no ano passado pela universidade, eram um total de 1,2 mil vagas disponíveis entre os cursos, enquanto em 2016, eram 738. Na prática, menos vagas para um número maior de candidatos, com a proporção de 7.416 e 17.111, respectivamente.
A estrutura dos testes também variou. A UEM é a única que mantém a rotina de duas provas por ano: inverno e verão. As demais realizam apenas um vestibular ao ano. A UEPG, que antes da pandemia da covid-19 fazia duas seleções anuais, agora faz só uma. O vestibular é uma prova aplicada entre os meses de outubro e novembro pelas universidades estaduais no Paraná. Na maioria dos casos constata-se uma queda na procura dos jovens pelo ensino público superior no Paraná.
Por Dimitri de Souza

Tendência de óculos incentiva venda ilegal de produtos
Óculos falsificados são encontrados na internet a partir de 30 reais
A partir meados de 2025, as ‘influencers digitais’ começaram uma nova tendência. Os óculos da Miu Miu, marca criada pela dona da Prada, produz peças com um design que mistura o retrô com o contemporâneo. O modelo popular é o MU 04Z, que se destaca pelo formato oval e retangular alongado, com hastes finas e o logotipo vertical da marca. O óculos se torna popular em redes sociais, por ser usado por celebridades e influenciadoras, e o preço de uma unidade original pode custar de 2.000 a 3.000 reais.
Para quem não tem acesso ao original, diversas ofertas do mesmo produto em versões não originais, são encontradas na internet e em lojas populares ou mesmo com ambulantes. A comercialização de óculos com grau e de proteção solar por revendedores que não sejam devidamente credenciados, é proíbida por Lei.
Na região sul do país, a polícia realiza operações frequentes para apreender produtos ilegais. No Rio Grande do Sul, foram apreendidos em 2023, óculos falsificados avaliados em 17 mil reais. No Paraná, a polícia opera buscas á óticas que aplicam golpes em consumidores para uso de dados e falsificação de lentes. A quem tem interesse em adquirir algum produto, deve se atentar à procedência do local de venda, para não cometer ação criminosa.
Por Eduarda Leal
Serviço: Informe-se ao comprar um óculos. Se desconfiar de prática ilegal, informe os serviços de segurança.
Ficha técnica
Autores: Amanda Rafaella, Celyne Stefani, Daniel Américo, Dimitri de Souza, Eduarda Leal, Giulia Neves, Sarah Brasil e Yasmin Aguilera
Supervisão de produção: Sérgio Luiz Gadini
Edição e publicação: Amanda Rafaella
Supervisão de publicação: Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado
Contato: periodico@uepg.br
