Campeão pela última vez

Arquivo pessoal – Cadu Silva

Garoto tinha futuro promissor, mas decidiu mudar de carreira 

Na tarde de domingo, 25 de agosto de 2024, no Estádio Durival Britto e Silva, a Vila Capanema, o Operário conquistava pela primeira vez o título de Campeão Paranaense sub-20, diante do rival Coritiba.  Carlos Eduardo de Oliveira Silva vestia a camisa 10 e participou diretamente daquele triunfo. O que ele não sabia é que aquele também seria seu último jogo em um clube de futebol.

Mesmo com o encerramento precoce da carreira, Cadu tem boas recordações, especialmente quando lembra com muito carinho a presença da família em sua trajetória. “Meu avô me levava para os treinos mesmo usando cadeira de rodas. Ele sempre fez esse sacrifício por mim. Até pegamos Covid juntos e ficamos internados”. No dia da conquista do estadual, a presença da família tornou o momento ainda mais especial para ele.

Arquivo pessoal – Cadu Silva

Nascido em 18 de novembro de 2005, em São José dos Pinhais, Cadu cresceu cercado pelo futebol. Antes mesmo de dar os primeiros passos, já acompanhava o pai, Vanderlei Silva, que jogava futebol de várzea. Aos cinco anos, incentivado pela mãe, Flávia Cristina de Oliveira Silva, começou a treinar em um projeto social da cidade. 

Foi o professor da escolinha que plantou a semente no coração do pai. “Ele começou a enxergar que o Cadu era diferente dos outros meninos”, lembra Vanderlei. “Comecei a perceber, também, sempre incentivando ele a buscar mais, a treinar mais. Às vezes, com um tom um pouco mais fora da curva, mas é por paixão, porque o pai quer ver o filho se tornar aquilo que ele está sonhando”.

Aos 10, foi para uma escolinha do Coritiba, conciliando com a base do São José Futsal sub-11 durante a noite, clube em que desenvolveu o lado competitivo. Ficou na escolinha até os 13 anos, jogando em um time B, uma seleção formada por atletas destaques de todas as escolas de futebol do clube. No sub-14, chegou ao Paraná Clube, em que permaneceu cerca de oito meses, mas não conseguiu se destacar e acabou dispensado. 

Em seguida, foi para o São Joseense. Fez parte das categorias sub-15, 17 e 20, e competiu pela primeira vez no Campeonato Paranaense. Em 2023, seu melhor ano até então, chegou a treinar com os profissionais. Foi em um dia em que a equipe profissional do Operário precisou treinar no estádio do São Joseense que o técnico Rafael Guanaes, que atuava no clube na época, se interessou pelo futebol do garoto.

No final de 2023, Cadu chegou às categorias de base do Operário, mas com pouca minutagem, foi para a lista de dispensa. O técnico Jorge Ferreira, ao assumir o comando do elenco sub-20, pediu para que ele ficasse, pois via no garoto algo diferente. “Cadu sempre foi muito inteligente dentro e fora do campo, tinha uma boa leitura tática e sempre demonstrou facilidade em fazer a leitura do jogo. Dava para ver que ele estava ali de corpo e alma todos os dias”, relembra o treinador. 

O auge veio em 2024. Mesmo convivendo com dores no tornozelo, Cadu assumiu a titularidade no sub-20 do Operário em meio a uma sequência de lesões no elenco. Chegou a jogar sob efeito de injeções para suportar a dor. Terminou a temporada como campeão estadual, vestindo a camisa 10. 

Mas nem o título veio acompanhado de uma rede de apoio. “Em nenhum momento da carreira, alguém se interessou em ajudá-lo financeiramente. Ele chegou ao sub-20, foi campeão paranaense, por méritos dele, mas não teve nenhum empresário”, lamenta o pai. 

Após serem campeões, a equipe ganhou uma semana de férias, retornaram com uma semana de treino e um amistoso para voltar ao ritmo. “Tinham chegado muitos meninos novos, fui pego de surpresa, entre aspas, porque no momento em que eu não achei que seria dispensado, eu fui dispensado” expõe.

Naquele momento, o jogador não sabia se ser profissional era o que queria. Ele preferiu tirar um tempo para pensar e voltou a Curitiba.. Foi nesse momento que tudo na vida de Cadu mudou. “Eu falava para o meu pai que eu não queria ser profissional se fosse para sofrer. Porque o profissional sofre muito no sentido de má condição”, relata. Por ter o sonho de casar e ter uma família, Cadu tinha convicção de que em determinadas condições não conseguiria dar uma vida estável para esposa e filhos. A família tentou convencê-lo a continuar. “Acreditávamos que ele deveria continuar, que agora já estava perto, que faltava pouco. Mas foi uma decisão dele e a gente respeitou, com um aperto no coração”. A decisão, contudo, foi definitiva.

Para o pai de Cadu foi muito difícil aceitar o fim da carreira do filho no futebol. Segundo o pai, Cadu tinha talento para jogar futebol. Ele afirma ter se frustrado com a decisão do filho de desistir. “Até hoje eu sinto falta da proximidade que o futebol gerava. Mas também vejo que muitas vezes a gente fica pensando em ter um vínculo mais com o futebol do que com o filho”, revela o pai do jogador.

Cadu, por sua vez, não vive com arrependimento, mas carrega saudade. “Eu sou cercado só de memórias boas”, destaca. Sente falta do dia a dia, dos companheiros, da competição e pensa em visitar Ponta Grossa para reencontrá-los. Hoje em dia, é empresário e mora sozinho. 

Arquivo pessoal – Cadu Silva

Realidade em números

O Brasil possui mais de 14 milhões de meninos entre 10 e 19 anos, segundo o censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.  Nessa faixa etária, milhares deles têm o primeiro contato com a bola, seja nas aulas de Educação Física, na várzea com os amigos, em escolinhas de bairro ou nas categorias de base de clubes profissionais. Assim, nasce também o desejo de seguir a carreira com um profissional de futebol.

Um sonho alimentado, em grande parte, pela vitrine que o futebol de alto nível oferece. Nomes como Neymar, Vinicius Junior, Endrick e Estevão proporcionam uma ideia de fama e riqueza que, vista de fora, parece ao alcance de qualquer garoto talentoso com uma bola nos pés. Mas entre o sonho e a realidade profissional, há um caminho muito mais complexo e menos glamouroso do que se imagina.

A realidade, no entanto, é bem diferente do sonho. A história de Cadu é um reflexo do que a Revista Esquinas, da Faculdade Cásper Líbero, revelou em reportagem: entre os sete mil jogadores que passam pelas categorias de base, somente um vira profissional. 

“A dispensa do Cadu foi uma das que mais doeu. A gente se sente responsável e tem dificuldade de liberar. Mas é importante para o aprendizado do atleta. Ver ele sem continuidade gera um sentimento de frustração”, revela Ferreira. 

Cadu chegou a receber propostas de clubes do Paraná, Santa Catarina e São Paulo para jogar a série D do Campeonato Brasileiro. “Apesar de amar de todo coração e sentir muita falta, o meu sonho de viver uma vida com a igreja é maior do que de ser jogador de futebol”.

Gráfico – Mafe Sperafico

Esta reportagem integra uma coletânea de livro-reportagem investigativo. Este capítulo trata da história, desafios e sonhos de um garoto que passou pela formação na categoria sub-20 do Operário Ferroviário. Leia o capítulo anterior aqui. Acompanhe no Periódico as próximas publicações. 

Ficha técnica

Produção: Mafe Sperafico

Supervisão de produção: Hendryo André

Edição e publicação: Ticyane Almeida, Yasmin Salgado, Amanda Rafaella e Marina Ranzani

Supervisão de publicação: Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado

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