Números e realidade das violências domésticas

 

Brasil registra maior número de feminicídios no ano que a Lei Maria da Penha completa 20 anos

Foto: Karine Santos

 

“É fácil citar 10 mulheres que foram agredidas e nós conhecemos, mas é muito difícil não conhecer ao menos uma que não sofreu alguma violência”. A frase é de uma vítima que passou por um abuso sexual aos 13 anos e hoje, maior de idade, vive com os reflexos da violência que sofreu dentro de casa pelo padrasto. Ela não será identificada com o nome verdadeiro para preservar sua integridade. Aqui, será chamada de Patrícia*

Patrícia hoje é uma mulher adulta, com personalidade forte e característica, vive a vida como qualquer outra mulher, trabalha, estuda, vive relações afetivas e de amizade, sorri, chora. E assim como outras milhões de mulheres vive com um peso invisível nas costas. Por muitos anos ela conviveu com a culpa da violência que sofreu, precisou de anos de terapia e, segundo ela, só assim pôde deixar de pensar que tudo o que aconteceu foi sua responsabilidade.

De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, 634.987 mil mulheres tiveram medidas protetivas concedidas em 2024. Apesar disso, 70 mulheres foram vítimas de feminicídio mesmo com medida protetiva, segundo o Anuário. 

Tais números não refletem a quantidade total de mulheres vítimas das mais diversas violências de gênero. De acordo com a historiadora e pesquisadora de gênero, Cristina Wolff, os números são subnotificados, contudo, recentemente, os casos passaram a ser reportados às autoridades.

“Sempre existiu violência contra as mulheres, há muito tempo, pelo menos na história da humanidade. Porém, mais recentemente, foram criadas leis sobre isso, então por um lado o aumento diz respeito a uma expansão das notificações. Mas, por outro lado, alguns autores têm falado que também existe um crescimento  mesmo, especialmente a partir de 2018”, explica. 

Em 2015, haviam 328.634 mil medidas protetivas, segundo dados divulgados pelo Departamento de Pesquisas Judiciárias do Conselho Nacional de Justiça (DPJ/CNJ). Houve um aumento das medidas e por consequência das violências contra as mulheres em 93,2%, em 10 anos. 

Para Patrícia, o caminho da medida protetiva poderia ter transformado sua vida mais fácil. “Teria sido a melhor opção, pois encontrei o agressor outras vezes de modo surpresa, na escola, por exemplo, e eu congelei. Mas fazer isso sozinha, sem ter apoio, acabei não indo atrás”, destaca.

Segundo o Dossiê do Instituto Patrícia Galvão, em relação aos abusos sofridos por crianças e adolescentes, estima-se que apenas 10% dos crimes sejam reportados às autoridades. Patrícia não entra na estimativa. Aos 13 anos, a vítima foi desacreditada, teve que conviver com seu agressor e nunca obteve justiça e punição para ele. Hoje, com 20 anos de idade, o homem segue como parceiro de sua mãe.

“Mesmo após sair da casa da minha mãe, da casa dele, eu ainda sofria com crise de pânico pensando que ele estava no meu quarto”, relembra. Ainda criança, Patrícia sofreu de insônia, compulsão alimentar, ansiedade e muitos outros reflexos da violação que sofreu.

O mais alto escalão da violência de gênero é a morte da mulher, o que nos últimos 10 anos tem parecido o objetivo principal dos agressores. Segundo o Anuário Brasileirto de Segurança Pública de 2026, 1.571 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2025. E a única motivação para o crime é o gênero. Ao todo, 96,4% dos agressores são homens, que, de acordo com o levantamento, podem ser parentes próximos das vítimas, como pai, padrasto, marido ou companheiro, namorado, tio, cunhado, irmão, filho ou primo.

Os dados existem aos montes para retratar as violências diárias das mulheres, mas as histórias são reais. Nas palavras de Maria da Penha: “A vida começa quando a violência acaba”.

Infográfico: Karine Santos

História que se repete

Patrícia vivia em um ambiente difícil e disfuncional. Seus pais se separaram enquanto ela ainda era criança. Aos 10 anos, em 2016, foi morar com a mãe e com o irmão mais novo. Em abril do mesmo ano, sua mãe conheceu quem viria a ser o seu agressor.

A mãe começou a trabalhar em um mercado e que precisava de alguém que levasse ela e o irmão para a escola. O homem trabalhava com van escolar. Eles se conheceram a partir disso. Em 2017 se viu dentro de uma casa estranha, com um homem que nunca viu antes, e que viveu por cerca de dois anos. Durante esse tempo sentiu aproximações estranhas e falas desconexas, até estar completamente vulnerável dentro da casa dele. “Eu era uma criança, tinha muita dificuldade de aceitar que aquilo tinha acontecido comigo”.

Viver naquele ambiente era muito difícil, ela tinha medo, não se sentia segura. Patrícia relata que teve que aprender a se defender sozinha, a ser mulher sozinha, nunca sentiu que recebeu apoio das pessoas que, supostamente, deveriam protegê-la: sua família. Enquanto vivia o pior momento da vida, ainda lidou com o constrangimento de ser acusada de fingimento. Foi apontada de ser a culpada da própria agressão.

“Por muito tempo eu deixei todos os sentimentos ruins me definirem. O que mais me doía era toque físico e aproximação (por conta da memória do abuso físico). Foi um reflexo de sete anos na minha vida”. 

A vítima realizou anos de terapia para poder lidar com o ocorrido, mas ainda sofre com os reflexos da violação. Patrícia não é a única. Milhares de mulheres brasileiras vivem em constante medo de serem agredidas ou mortas. 

Série de reportagens

Esta é a primeira reportagem da série “Nenhum lugar é seguro: as violências de gênero nos âmbitos digital e presencial”, que ao longo deste ano vai tratar de casos de violência doméstica e ataques às mulheres produzidos pelo discurso redpill e outras manifestações que violentam as mulheres na internet.

Ficha técnica

Produção: Karine Santos

Edição e publicação: Sarah Brasil, Nathália Stüpp e Emanuelle Pasqualotto

Supervisão de produção: Hendryo André

Supervisão de publicação: Aline Rosso e Muriel Emídio Amaral

Skip to content