Tudo quanto pedirdes em meu nome

Mesmo depois de várias adversidades, testemunha aponta como lidou com luto e depressão após aborto expontâneo

Imagem: Desing Canva

 

E tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei. João 14:13-14

 

Para quem não tem familiaridade com o título, ele se refere a um versículo bíblico que versa sobre as vontades pessoais. E foi seguindo esses dizeres que Angie Steiner teve amparo em momentos difíceis da vida. Atualmente, ela tem 43 anos, é adventista e passou por um aborto espontâneo aos 32 anos de idade, em 2015. Na época, ela não participava com frequência da igreja, apesar de partilhar do pensamento cristão adventista. Ela conta que a perda gestacional foi um processo marcante  para retornar a participar efetivamente da igreja e se reconectar com a fé. 

“Nessa época, até quando descobri que eu estava grávida, a primeira coisa que eu pensei foi, ‘eu vou abortar’. Achei que estava de poucas semanas, mas quando descobri que eram oito [semanas], pensei, não dá. Pedi desculpas para Deus, porque eu pensei em fazer um mal.” Angie lembra que até procurou uma amiga que havia tomado pílulas para abortar, mas como sempre teve o sonho de ser mãe e construir uma família, desistiu da ideia.

Confusa e perdida, ela contou ao namorado, de quem recebeu apoio, e marcou o exame pré-natal. Conforme o tempo passou, os sentimentos pesados se transformaram em expectativa, e o bebê representava a esperança de realizar um sonho que parecia esquecido. A sogra fez sapatinhos e roupas de crochê, a mãe comemorou pela filha e, por um mês, Angie acreditou que seria mãe.

Quando ela, o namorado e a sogra chegaram ao hospital para o exame morfológico, a surpresa: não era possível ouvir o coração. O médico encaminhou Angie para um exame transvaginal (exame de imagem que avalia detalhadamente o canal vaginal, colo do útero, útero, trompas e ovários), para garantir o resultado. Após o processo, a perda gestacional foi confirmada e ela foi encaminhada a Curitiba para realizar o processo de curetagem, a retirada de possíveis vestígios embrionários.

Após voltar a Ponta Grossa, ela passou a noite na casa do namorado, mas alguns meses depois, o relacionamento acabou. O processo de luto para Angie resultou em uso abusivo de álcool e drogas, além do diagnóstico de depressão. No meio dessa turbulência, ela percebeu que seria uma oportunidade de retornar à igreja.

“Eu vi aquilo como um sinal de que eu não estava fazendo as coisas certas. Eu comecei a buscar o que eu podia fazer para melhorar. Fui me aquietando mais, fui fazendo mais orações, comecei a chegar mais perto de Deus”, afirma. 

Ela explica que expressar e praticar a fé foi essencial para o processo de cura. Após um ano na igreja, ela  se batizou. O aborto espontâneo não era algo abordado de forma recorrente, apenas compartilhado com pessoas mais próximas. Quando realizou sermões na igreja e contou sua história de vida, não detalhou o ocorrido, apenas comentou sobre uma perda. 

Aos 36 anos de idade, Angie manifestou mais um desejo em oração: que tivesse um filho em até dois anos. Em maio de 2019, ela conheceu o atual marido, e em cinco meses se casaram. Em novembro daquele ano, mais um balde de água fria nos seus planos de ser mãe, ela descobriu miomas no útero. 

Miomas uterinos são tumores musculares benignos que afetam o útero, comuns na idade reprodutiva. Não são cancerígenos, alguns são assintomáticos, mas outros causam sangramento, cólicas, aumento abdominal e infertilidade. O tratamento engloba desde acompanhamento médico até uso de hormônios e cirurgias.

O estudo realizado em 2011 pela Human Reproduction da Universidade de Oxford estima que prevalência de miomas em mulheres com abortos recorrentes chega a 8,2%. Segundo a pesquisa, foi a primeira vez que se encontrou evidências de que esse tipo de mioma está entre as causas de abortos habituais. 

O tratamento de Angie durou até 30 março de 2020, com uso de medicamentos. Em junho, uma boa-nova: o casal descobriu a gravidez. “Quando foi para fazer o exame das 12 semanas, eu fui pedindo muito para Deus: ‘Senhor, que não se repita o que aconteceu na vez passada’. E eu vi o coração dela batendo, foi um alívio tão grande. 

O posicionamento de fé

A igreja Adventista do Sétimo Dia é uma instituição religiosa reconhecida por se alinhar às posturas conservadoras. A igreja baseia a teologia na bíblia sagrada, e adota a crença criacionista. Sobre o aborto, a igreja declara que a procriação é um dom de Deus, e que a gestação deve ser uma expressão de amor entre um homem e uma mulher casados, e tudo o que foge desta realidade é uma deturpação causada das leis de Deus. No documento oficial, a igreja afirma que a declaração não serve para abortos espontâneos, porém é possível observar o comportamento da instituição em relação aos casos. 

Kevin Kossar Furtado é doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), e tem seus estudos voltados para a teologia adventista. Kevin explica que a crença e o discurso adventista são usados pelos membros para justificar e dar sentido a situações traumáticas e dramáticas. “A teologia adventista, que se desdobra na vida cotidiana, nos cultos e nos membros, chancela a percepção de que as coisas acontecem porque Deus permite”. Ele afirma que o aborto não é tema discutido na igreja e que mulheres que perdem gestações, em sua maioria, dificilmente se manifestam.“Casos em que a mulher passa pela situação de aborto, tanto provocados como espontâneos, elas são retristas a trazer à tona. Existe esse estigma e temor de que se está cometendo um pecado” , explica Kossar.

Em casos que precisam de algum acompanhamento médico ou psicológico, a igreja adventista aconselha a procurar profissionais que façam parte da instituição, e que possam atrelar o tratamento (como a medicina, por exemplo) a cosmovisão bíblica.

É possível perceber que, apesar de não estar de forma ativa na igreja, Angie Steiner viveu e agiu conforme a teologia adventista, visando o plano divino como soberano à vida humana. Exatamente uma semana antes de Angie completar 38 anos de idade, em 11 de fevereiro, sua filha nasceu, em 4 de fevereiro de 2021. Atualmente, a criança tem 5 anos e a família frequenta a igreja adventista. Angie ainda finaliza: “A bíblia diz que podemos pedir a Deus, que ele nos ouve.”

Série de reportagem

Este texto faz parte do livro-reportagem “Do luto à festa”, série de reportagem que aborda abortos espontâneos e seus desdobramentos dentro de comunidades evangélicas. 

 

Ficha técnica

Produção: Eduarda Leal

Supervisão de produção: Hendryo André

Edição e publicação: Amanda Rafaella, Mafe Sperafico e Nathália Stüpp

Supervisão de publicação: Aline Rosso e Muriel Emídio Pessoa do Amaral

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