Para além do tratamento do corpo, a atleta que rompe o LCA também deve ter acompanhamento psicológico
O campo de futebol não pode ser compreendido como um espaço de dor e sofrimento. Mesmo com todas as adversidades causadas pelo rompimento do Ligamento Cruzado Anterior (LCA), há meios de prevenir e tratamentos eficazes para enfrentar as lesões, principalmente entre as mulheres, que têm de duas a oito vezes mais chances de sofrer a lesão quando comparadas aos homens. Até abril de 2026, oito jogadoras da Série A do Campeonato Brasileiro sofreram a ruptura do ligamento. Na dupla Gre-Nal, por exemplo, a meio-campista Jordana, a lateral-esquerda Eskerdinha, a zagueira Iza e a atacante Julia Martins ficam comprometidas pela lesão. E engana-se que as lesões atingem apenas mulheres maduras, no capítulo anterior conhecemos a história de Ágatha, jovem de apenas 14 anos, que também foi vítima da lesão.

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Conforme a ortopedista e médica do esporte Ana Pierin, de Curitiba, o rompimento do LCA é multifatorial, não tem um único motivo. Questões anatômicas, hormonais e de preparação física impactam as atletas. Uma dessas condições é o joelho valgo [alinhado para dentro], que pode interferir nas entorses. “Quando há o movimento de salto, de rotação ou até mesmo para desacelerar no futebol, acaba causando um pouco mais de lesões”, explica. Além disso, os hormônios femininos, como estrogênio e relaxina, também são capazes de afetar as taxas de lesões. “A questão da frouxidão ligamentar é mais comum em mulheres e pode alterar a biomecânica do joelho”, detalha a médica.
Segundo o relatório da Federação Internacional de Futebol Associado (FIFA) de 2023, o número de mulheres que praticam futebol de forma organizada aumentou 24% desde 2019. Hoje, ao redor do mundo, são cerca de 16,6 milhões de jogadoras distribuídas pelos seis continentes. Só no Brasil, o fator de crescimento alcançou 5.500%.
Mesmo com a expansão da prática do futebol feminino sendo realidade, as investigações científicas acerca do LCA ainda dão seus primeiros passos. Em 2025, a FIFA financiou um estudo pela Universidade de Kingston cujo objetivo é averiguar possível conexão entre o ciclo menstrual e a incidência dessas lesões. A pesquisa, por ora, deve se estender por um ano. “É interessante a gente avaliar as atletas nesse sentido para poder otimizar o tratamento e a preparação física de acordo com cada fase do ciclo menstrual”, avalia Pierin.
Dependendo do nível da lesão e do progresso do tratamento, a jogadora pode ficar até um ano fora dos gramados. Além da intervenção cirúrgica, o processo de recuperação implica a redução da inflamação do joelho, o ganho progressivo de mobilidade e o fortalecimento muscular. E o fator mental é determinante para um bom retorno. “Precisa ter esse acompanhamento no retorno para não ficar com receio de apoiar no membro, de jogar e machucar de novo, para não mudar biomecanicamente a corrida desse atleta”, detalha a médica.
Do corpo à mente
Ao romper o LCA, reeducar somente o corpo da atleta não basta. Ao falar da prática esportiva, manter o lado emocional em dia é uma saída a ser praticada. A psicóloga do esporte Aline Lima, de Maringá, reforça que para além da otimização do desempenho ou aceleração do processo de recuperação, o atleta precisa se conhecer de forma consciente. “É importante o atleta fazer esse acompanhamento psicológico para cuidar da saúde mental para se conhecer. Não é nem para se tornar mais forte mentalmente, para se curar mais rápido de uma lesão, seria mais até para entender o que essa lesão está dizendo para mim de mais profundo”, defende.
Apesar dos avanços, ainda existem estigmas e mitos que permeiam a procura por assistência psicológica. “Acho que o principal mito é de que fazer acompanhamento psicológico é por fraqueza ou porque você não aguenta, porque você está doente”, diz. Ela salienta que a presença de atletas na mídia reiterando os benefícios da terapia é capaz de fazer a diferença.
Em lesões, de modo particular, as atletas passam por uma mudança drástica de rotina e, assim, o desgaste e o estresse tornam-se problemas constantes. “Imagina um atleta cheio de energia, muito ativo, vive ali, o corpo é o palco de repente, esse corpo se vê tendo que ficar parado, precisando da ajuda de outras pessoas. É desesperador!”, descreve Lima.
Segundo a especialista, cada esportista encontra seu jeito de enfrentar a situação, porém ter paciência com o corpo, mente e com o próprio processo de recuperação é essencial. “Um ponto muito importante é a flexibilidade e a capacidade de adaptação, porque é uma cirurgia, e diante de qualquer lesão, é muito imprevisível. A gente tem alguns parâmetros: você vai se recuperar em tanto tempo, vai precisar ficar tanto tempo parado, mas a realidade é que a gente nunca sabe”, explica.
Ela enfatiza também que o principal erro que a atleta pode cometer é acelerar o processo e não respeitar o tempo do próprio corpo. “A lesão já mostra isso, tem alguma coisa ali que está precisando ser ouvida”, relata. Ela aconselha, a partir da própria experiência com lesões, fazer o caminho inverso da adrenalina para relaxar. Para além do tratamento, o acompanhamento emocional também é uma forma de prevenção. “Se estou lidando com estresse muito grande, seja sobre o esporte ou não, em vez de descontar no treino sobrecarregando meu corpo, lido com isso através das palavras ou da forma como vier ali na terapia, dando um sentido mais direcional ali”, elucida.
De dentro do campo
Esta é a terceira reportagem da série De dentro do campo: As vivências das “Gurias do Sul” no futebol brasileiro, que ao longo deste ano irá retratar a trajetória e as experiências que permeiam a carreira de mulheres que se dedicam ao futebol feminino no Sul do Brasil.
Ficha técnica
Produção: Giulia Neves
Supervisão de produção: Hendryo André
Edição e publicação: Dimitri de Souza, Eduarda Leal e Mafe Sperafico
Supervisão de publicação: Aline Rosso e Muriel Emídio do Amaral
