“Mãe! Pai! Eu quero ser jogadora de futebol”

Arquivo Pessoal – Ágatha Guarienti

Em meio à desigualdade na formação de atletas no futebol feminino brasileiro, Ágatha Guarienti enfrenta desafios para perseguir o sonho de se tornar jogadora profissional

Até 2018, o Brasil não possuía competições nacionais de base femininas organizadas pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF). De acordo com o Relatório Nacional do Futebol Feminino, divulgado em 2025 pela CBF, 23 das 27 Unidades Federativas brasileiras desenvolveram alguma competição de base feminina. Todavia, a realização de campeonatos regulares, das categorias sub-15, sub-17 e sub-20, ainda são exceção.

A desigualdade entre a região Sul, sobretudo, desperta atenção. O Rio Grande do Sul, por exemplo, é um dos três estados que mantém competições regulares nas categorias mencionadas. O Paraná, de modo semelhante, organiza campeonatos de forma regular voltados somente ao sub-17 e sub-15. Em Santa Catarina, entretanto, a realização de torneios, para todas essas faixas-etárias, é feita de forma pontual.

A longo prazo, os impactos são perceptíveis: o calendário preenchido, não apenas por competições nacionais, mas também por torneios organizados pelas próprias federações, fomenta a formação de atletas na região, contribuindo para o desenvolvimento técnico e físico exigido no futebol profissional.

O Diagnóstico Futebol Feminino Brasil de 2023, realizado pelo Ministério do Esporte, coleta informações de cerca de 200 atletas de clubes nacionais com vínculo federativo e que disputam competições nacionais de base. A partir da avaliação de jogadoras, alguns dados refletem transformações significativas: mais de 50% das atletas possuíam contrato de formação, cuja função é assegurar a formação técnica, educacional, física e psicológica. A bolsa de aprendizagem, por exemplo, é um dos benefícios garantidos

São milhares de meninas, distribuídas pelos ‘quatro cantos’ do país, que desejam se tornar jogadoras profissionais. Entre essas jovens atletas está Ágatha Guarienti, de 14 anos, que atua pela equipe sub-17 do Criciúma Esporte Clube. 

Gráfico: Giulia Neves

De torcedora à jogadora

Moradora de Torres, município do Rio Grande do Sul com pouco mais de 40 mil habitantes, Ágatha teve seu primeiro contato com o esporte cedo na vida,  ao lado do pai, grande fã da modalidade, ainda na infância. “Eu nasci e ele já me pôs para assistir”, brinca. Aos 10 anos, a paixão pelo futebol foi tão grande que só ser torcedora já não bastava: a menina também queria jogar bola.

Na época, por ser uma cidade pequena, não havia projetos voltados às garotas. Por isso, Ágatha teve que recorrer à única alternativa viável. “Era uma escolinha mista, com os ‘guris’, só que era meio de várzea”, detalha. De forma gradual, ao perceber o desejo de seguir no futebol como profissão, precisou tomar outra decisão. “Comecei a treinar sozinha. Eu sabia que treinando com os garotos eu não iria chegar a lugar algum”, reflete.

O movimento decisivo, de acordo com Ágatha, foi no momento em que revelou aos pais o interesse por seguir carreira no esporte. “Eu tinha vergonha de falar que queria ser jogadora profissional de futebol”, confessa. E apesar do receio da família, pela rotina como atleta não ser fácil, seus pais logo se prontificaram a levá-la em peneiras e avaliações pela região.

Em busca do “sim”

Sua primeira peneira foi na Escola de Futebol do Juventude, onde Ágatha foi aceita. Em virtude das enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul, em 2024, a jovem se viu diante de um novo problema: os projetos do clube foram interrompidos. “Eu achava que ia me profissionalizar no Juventude. Já esperava que o Ensino Médio ia fazer em Caxias, ou, pelo menos, a faculdade”, lamenta. 

Ágatha faz parte, inclusive, do índice de 85% de jovens atletas que têm como objetivo fazer uma graduação, segundo o Diagnóstico Futebol Feminino Brasil. Ela relata que Fisioterapia e Nutrição estão entre suas principais opções. “Acredito que mesmo com todos os avanços no futebol feminino, só com ele não dá para se sustentar”, explica.

No Criciúma, a aprovação demorou a chegar. Ela participou de duas peneiras e não foi aprovada. A família resolveu, então, levá-la à escolinha do time catarinense. Lá, não demorou para que a jogadora se destacasse. Segundo a atleta, a própria treinadora do sub-14 do Criciúma, Renata Machado, declarou: “Pode chamar ‘essa aí’ que ela vai treinar com a gente”.

Ainda em 2025, período em que já atuava pela equipe de futsal do Tigre, Ágatha pôde jogar pelo Fusão Esportiva do Vale do Taquari (Fevat). Entre o início de agosto e o fim de setembro, a jogadora disputou o Gauchão Feminino sub-15. Para ela, a conquista do terceiro lugar da competição e o título de “Campeãs do Interior”, ao derrotar o Juventude, trazem boas lembranças. “Na final, conseguimos jogar na nossa casa. Quase todo mundo da cidade foi. Depois que a gente ganhou os moradores até entraram no campo”.

Dia a dia no ‘Tigre’

Ao almejar a profissionalização, alguns sacrifícios precisam ser feitos. Nas categorias de base, para além do talento, a determinação e a disciplina são essenciais para encarar a agenda. A rotina de Ágatha começa cedo. Todos os dias, ela se desloca de Torres (SC) até Sombrio (SC) para estudar. Na cidade catarinense, viaja de ônibus para Criciúma, em trajeto que dura cerca de uma hora. Lá, utiliza o transporte público para ir até o treino e, por fim, passa seis horas no Centro de Treinamento (CT). “Às seis da tarde eu pego o ônibus de novo e chego em casa às oito da noite”, relata.

Em meio à intensa rotina, o início de 2026 reservou fortes emoções. Em fevereiro, ela foi informada que iria jogar pela equipe sub-17 do Criciúma. Imediatamente, a jogadora reconheceu algumas diferenças. “Elas têm mais corpo do que eu, então, uso outros recursos para conseguir me destacar nos treinos”, explica. Ágatha deparou-se, também, com um obstáculo para jogar  no campo: os treinamentos acontecem pela manhã, horário em que ela está na escola. Assim, sua preparação acontece, majoritariamente, na quadra. Como alternativa, divide sua rotina entre o futsal e o futebol.

No Criciúma, as Meninas Carvoeiras, de acordo com Ágatha, dispõem de boa estrutura. “No alojamento são vários quartos, cada quarto tem seu próprio banheiro, o refeitório é muito bom também, lá tem sala de massagem. Tem tudo, é bem completo”, conta. 

Somando-se ao início movimentado da temporada, Ágatha jogou, pela primeira vez, a Liga de Desenvolvimento sub-16, organizada pela CBF. “É excepcional o trabalho deles, os hotéis que ficamos são muito bons, a transmissão é pelo próprio canal da CBF”, detalha.

Na competição, a meio-campista pôde duelar contra times tradicionais do futebol brasileiro, como Corinthians e São Paulo. E, segundo ela, a disparidade entre as equipes é perceptível. “Elas já têm um calendário  formado. A estrutura e o dinheiro que elas têm é muito maior. Então dá muita diferença no corpo, físico, tudo”.

 

Arquivo Pessoal – Ágatha Guarienti

Da alegria às lágrimas

Para a jovem jogadora, a Liga de Desenvolvimento de 2026 não ficaria marcada pelas experiências e aprendizados, mas sim, por uma grave lesão: o rompimento do Ligamento Cruzado Anterior (LCA) no último dia de competição. “Quando falaram que foi LCA eu pensei em desistir, porque um ano para voltar é muita coisa”, recorda. Aos 14 anos, a intervenção cirúrgica para reconstruir o LCA pode gerar danos permanentes. “Eu não posso fazer cirurgia, porque se pegar a placa de crescimento, vou ficar com uma perna maior que a outra”, esclarece.

Após avaliação do Departamento Médico, Ágatha irá, por ora, realizar somente acompanhamento fisioterápico. Quando completar 15 anos, no mês de novembro, a expectativa é de já realizar a operação. A depender da progressão e dos resultados do tratamento, o retorno aos gramados pode demorar de seis meses a um ano.

Ao explorar seus maiores sonhos na profissão, Ágatha frisou o impacto da lesão no desejo de ser convocada para a seleção de base. “Eu estava tentando ir esse ano ou ano que vem, só que com essa lesão não sei o que vai acontecer”, reflete. Apesar do crítico cenário, a confiança dela se mantém inabalável. Conforme suas palavras, a vontade de desistir “durou pouco, uns 30 minutos e já quis voltar mais forte”. 

Esta reportagem integra uma coletânea de livro-reportagem investigativo. Este capítulo trata da história de uma jovem que enfrenta desafios para perseguir o sonho de se tornar jogadora profissional. Leia o capítulo anterior aqui. Acompanhe no Periódico as próximas publicações.

Ficha técnica

Produção: Giulia Neves

Supervisão de produção: Hendryo André

Edição e publicação: Natalia Almeida, Pietra Gasparini e Mafe Sperafico

Supervisão de publicação: Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado

Skip to content