Há cinco anos, Dandara Castro transforma sua trajetória como drag queen preta e mulher trans em uma forma de ocupar espaços
Qual é o preço de se tornar uma referência? Muitos se perguntam e imaginam a dificuldade de se encontrar nesse papel. Dandara Castro dá vida à Dandara Raven Bondage Mugler, com quem compartilha, além do nome, o peso de ser a única drag queen preta de Ponta Grossa. “O cenário daqui da cidade até hoje é muito escasso de drags pretas. Foi o que me motivou a continuar na cena. Nós só vemos as referências para fora, então eu resolvi ser uma referência”, afirma. Mas isso não é sinônimo direto de força ou status. Para ela, o impacto é mais complexo: “O lugar de preta única não é tão bom quanto parece. Se as pessoas vão buscar referência em você, as pessoas vão cobrar. Se eu fosse só preta já ia pesar, entende?”. Dandara busca usar suas performances para além da beleza e carisma. Ela busca conscientizar o público sobre o lugar que cada um tem na sociedade. “Ao mesmo tempo que é inspirador, é assustador também, sabe? Em todas as minhas performances, quando tenho a oportunidade de conversar com o público, eu falo justamente sobre isso, para fazer os outros pensarem e saírem da caixinha”.
O nome “Dandara” surgiu na vida de Dandara Castro muito antes de qualquer contato com programas sobre Drag queens ou com o universo drag. Ela sempre teve uma grande admiração por Dandara dos Palmares, guerreira do Quilombo dos Palmares no século XVII, uma figura histórica ainda pouco celebrada se comparada ao marido, Zumbi dos Palmares. A escolha se consolidou também pela memória de Dandara dos Santos, travesti vítima de LGBTcídio em fevereiro de 2017, em Fortaleza, Ceará. Onde foi espancada e torturada brutalmente por cinco homens. O crime impulsionou a Lei 7292/2017, com seu nome, que classifica o LGBTcídio como crime hediondo. Para ela, essas referências foram suficientes para a escolha da personagem e da própria vida: “Eu nunca cogitei outro nome, nunca procurei outro nome. Esse foi o nome certo”.
A sua primeira vez caracterizada de drag não serviu apenas como entretenimento mas como um processo de autoaceitação. “Eu me olhei no espelho e, para mim, como uma mulher trans, isso tem um peso diferente. Eu me vi como nunca tinha me visto na vida. Veio uma necessidade de mostrar isso para as pessoas, de dizer que essa pessoa realmente sou eu”. A estreia aconteceu no antigo bar Las Fridas. Dandara lembra que se achava feia na época, mas que estava confiante. Aquele momento mudou a sua trajetória. “Lembro de sair e ver as pessoas me olhando. É exatamente o que eu gosto na arte drag, a estranheza que causa, mas, ao mesmo tempo, a beleza que ela carrega”, conta.
“Ninguém faz drag por dinheiro, faz por amor!”
O fato da arte drag queen consistir em maquiar-se e performar papéis femininos não significa que seja voltada exclusivamente ao público LGBTQIAPN+. Reescrever texto em azul Em cinco anos de carreira, Dandara atuou, e ainda atua, como hostess (explicar expressão), recepcionando eventos, animando a pista e servindo shots. “Durante três anos da minha vida, eu não era contratada para estar em locais LGBT’s. Por mais que existissem pessoas LGBT’s nesses lugares, o público era majoritariamente hétero”, relata. Isso exigia outro tipo de esforço, como buscar mais referências para agradar a uma plateia diferente. “Essa performance é um pouco mais difícil, justamente porque esse público é crítico e difícil de agradar, ainda mais sendo de uma das letras da sigla (T) que mais é atacada.”
O desafio mais recorrente que enfrenta na cidade, é a falta de remuneração adequada e a não contratação de drags em casas noturnas: “antes de eu saber me impor e colocar o meu preço e o meu valor, já tiveram muitas vezes em que me pagaram R$70 para ficar cinco, seis horas em cima de um salto, sendo simpática e bonita”. Para ela, essa é uma das maiores desmotivações, agravada pelo uso do conceito de “Pink Money”, o poder de compra da população LGBT: “em alguns eventos de que participei, vi que as pessoas não estavam fazendo pela arte drag, faziam porque queriam público e precisavam de dinheiro. Então não pagavam bem as drags. As drags traziam o público, o público pagava, mas e as drags? Ficavam como?”, relata.
A herança da passarela
Desde cedo, Dandara esteve próxima das passarelas e competições em Ponta Grossa, influenciada por sua mãe, que foi rainha do carnaval da cidade por cerca de uma década. Em 2026, ela conseguiu unir o legado da mãe ao seu próprio trabalho. A convite de Léo Pasetti, desfilou como drag na Avenida Visconde de Mauá. “Foi fantástico e incrível ver a receptividade das pessoas em uma cidade que ainda é muito conservadora, mas ver essa recepção na rua foi demais.” Após o desfile, Dandara foi convidada a participar do concurso Rainha Trans de Ponta Grossa, no qual conquistou o 3º lugar. Ela demonstra alegria em ocupar espaços além das casas de shows tradicionais: “Quem pensaria que uma drag queen estaria desfilando no carnaval, sambando?”. Para montar a apresentação do concurso, Dandara buscou o apoio direto da mãe, que atuou por muitos anos como professora de samba, ela se tornou a maior apoiadora e crítica durante o processo, o que aproximou muito as duas. “Ela me fazia treinar todos os dias, e isso foi muito gostoso porque nos aproximou bastante. Ela me apresentou ao universo dela, não só o universo do samba, mas o universo de uma rainha”.
O sonho
Quando perguntada sobre o futuro, Dandara não hesita em definir o seu maior desejo. Trabalhar com a arte drag é o centro dos seus planos, ainda que venha acompanhado por limitações locais. “É isso que eu quero fazer da minha vida. É o trabalho que eu quero ter. É o meu sonho a longo prazo”, conta. Ela reconhece a importância do apoio que recebe, mas precisa manter os pés no chão. “Ao mesmo tempo sei que, infelizmente, talvez isso nunca aconteça aqui em Ponta Grossa, de trabalhar só com a arte drag. Mas eu nunca digo nunca”. A busca pela mudança de ares também vem da necessidade de encontrar pares e vivenciar referências de perto. Por muito tempo, a única drag preta com quem teve um contato mais próximo foi a curitibana Yasmin Carraro. Ir para centros maiores e vivenciar outras manifestações artísticas, como a cultura “Ballroom”, é uma de suas metas. “Tenho o sonho de conhecer essa cultura de perto, estar nesses lugares para pegar referência e trazer para cá também.”. O desejo de ocupar esses espaços não significa abandonar Ponta Grossa, mas sim vencer o vazio de ser uma das poucas figuras pretas no palco da cidade. “Queria ver outras pessoas pretas comigo, para fazermos números juntos. Já performei músicas da Beyoncé, por exemplo, mas não tenho com quem compartilhar essa cultura aqui em Ponta Grossa. Ela não existe na cidade, existe em Curitiba. Eu sigo várias de lá, mas o meu sonho é estar nesses lugares”. Quando Dandara começou a inserir temáticas de religiões de matriz africana e de combate ao racismo em suas apresentações, o receio do preconceito ainda era um obstáculo. Com o tempo e com a experiência no teatro, a arte tornou-se seu principal pilar. Com o espetáculo intitulado “As Três Dandaras”, ela trouxe para o palco as histórias de Dandara dos Palmares, da travesti Dandara dos Santos e da sua própria trajetória como drag e mulher trans. Logo em seguida, desenvolveu a performance “A Revolta de Dandara”, com a música Gasolina, de teor antirracista. “Na época, eu tinha muito medo de falar sobre isso com a minha drag, mas decidi fazer. Na performance, trouxe uma personificação de Dandara dos Palmares fugindo dos feitores, até que se cansa daquilo e resolve se reerguer. É sobre cansar de ficar no lugar de vítima. Óbvio que é importante entender toda a trajetória, mas a ideia era passar a mensagem de ‘cansei de apanhar’”, explica. Isso foi um divisor de águas na vida de Dandara, antes, onde existia cautela para apresentar o que gostava, hoje não se vê mais nesse lugar. “Depois que eu vivi esse momento, criei essa performance e fiz tudo isso, não tenho mais medo de nada. Não tenho mais medo de apresentar o que eu acredito”.
Ficha técnica
Produção: Marina Ranzani
Supervisão de produção: Hendryo André
Edição e publicação: Celyne Stefani, Emilly Paitch e Maria Eduarda Leme
Supervisão de publicação: Aline Rosso e Muriel Emídio Pessoa do Amaral
