País enfrenta uma redução no hábito da leitura entre crianças e jovens
Imagem: Yasmin Aguilera
O hábito da leitura tem perdido espaço entre os brasileiros nos últimos anos. Com a rotina acelerada, o avanço das redes sociais e a falta de incentivo, a literatura deixa de fazer parte do cotidiano. Em 2024, mais de 6 milhões de pessoas deixaram de ler. Foi a primeira vez desde 2007 que o número de não-leitores ultrapassou a de leitores, de acordo com a 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. Segundo o Instituto Pró Livro, fatores como desigualdade social, baixo investimento em políticas públicas de leitura e a falta de estímulo desde a infância contribuem diretamente para a diminuição de leitores no país.
Além dos dados, especialistas apontam que o problema começa muito antes da vida adulta. Para a professora Juliana Bilek, o desinteresse pela leitura não é natural, ele é construído ao longo da infância. “Uma criança de 0 a 5 anos não lê sozinha. Se não houver um adulto que proporcione esse momento, o contato simplesmente não acontece”, explica.
A leitura e a tecnologia disputam a atenção das crianças, com 78% de 0 a 3 anos expostas diariamente às telas e 94% de 4 a 6 anos, de acordo com o levantamento “Panorama da Primeira Infância: O que o Brasil sabe, vive e pensa sobre os primeiros seis anos de vida”, do Instituto Fundação Maria Cecília Vidigal. Ainda assim, a professora reforça que o problema não está nas telas, mas na forma como são utilizadas. “A criança só tem acesso ao que é oferecido a ela. Se o universo dela for mais voltado para vídeos e celulares, é natural que a leitura perca espaço”, afirma.
Juliana também destaca que a tecnologia pode ser uma aliada no incentivo à leitura, quando bem utilizada. Recursos como audiolivros, vídeos de contação de histórias e plataformas digitais podem aproximar as crianças do universo literário, desde que haja mediação. Outro ponto central é a responsabilidade compartilhada entre família e escola. “Não existe uma quebra repentina no hábito de leitura. O que existe é um afastamento gradual, principalmente quando falta estímulo na infância”, aponta a professora.

Créditos: Yasmin Aguilera
O hábito de ler pode se transformar ao longo do tempo. A estudante Natália Mendes relata que apesar de ser incentivada desde a infância, tem dificuldades em manter frequência de leitura. “O que mais distancia é a rotina, muitas vezes, corrida, principalmente para quem trabalha e estuda”, afirma. Mesmo com as dificuldades, Natália mantém o contato com os livros, ainda que em menor escala. Ela mantém em média sete a oito leituras por ano, conciliadas com as demandas acadêmicas.
Em Ponta Grossa, assim como no restante do país, a taxa de analfabetismo diminuiu nas últimas décadas. No Brasil, o Censo 2022 mostrou que 93% da população com 15 anos ou mais é alfabetizada, enquanto 7% ainda são analfabetos, o equivalente a cerca de 11,4 milhões de pessoas. Isso significa que muitos estudantes aprendem a ler, mas não desenvolvem plenamente a compreensão e o hábito leitor, um dos fatores que ajuda a explicar a queda no número de leitores ao longo dos anos. Apesar desse avanço, a alfabetização não garante, por si só, a formação de leitores frequentes, tornando essencial o incentivo contínuo à leitura.
No estado do Paraná, 57% da população declara ter lido ao menos parte de um livro nos últimos três meses, número acima da média nacional, mas que ainda reflete um cenário de instabilidade no hábito leitor.
Ao mesmo tempo, iniciativas digitais de leitura, como o MEC Livros e a biblioteca digital do Brasil, uma iniciativa do Governo Federal, mostram crescimento. Programas educacionais já registraram mais de 1 milhão de livros lidos por estudantes da rede pública, indicando que o acesso existe, mas depende de mediação e estímulo constantes.
Esta reportagem integra uma coletânea em livro-reportagem. Este capítulo trata sobre a baixa procura por livros, que está cada vez mais crescente e vem perdendo espaço para o consumo de telas.
Ficha técnica
Produção: Yasmin Aguilera
Supervisão de produção: Janaine Kronbauer
Edição e publicação: Amanda Los, Amanda Rafaella e Maria Eduarda Leme
Supervisão de publicação: Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado
