Crítica de Ponta
Produzido pelo terceiro ano do curso de Jornalismo da UEPG, o Crítica de Ponta traz o melhor da cultura da cidade de Ponta Grossa para você!

A pena que continua
Adaptação de Colleen Hoover romantiza um processo que, em Ponta Grossa, ainda enfrenta dificuldades
“Uma Segunda Chance”, adaptação do best-seller da escritora norte-americana, Colleen Hoover, acompanha Kenna, uma jovem que, ao sair da prisão após cinco anos, tenta reconstruir os laços com a filha criada pelos pais do ex-namorado falecido.
O processo de ressocialização de Kenna é tratado com leveza, a protagonista sai do cárcere e com poucos obstáculos tenta retomar sua vida como se a sociedade esperasse por ela de braços abertos.

Crédito: Mafe Sperafico
Mas a realidade não é bem assim, os números mostram que em Ponta Grossa o índice das mulheres representam apenas 5% da população carcerária, uma minoria que historicamente recebe menos atenção e estrutura. Somente em 2025 foi lançado o projeto “Mulheres de Aço”, primeira iniciativa da cidade voltada à reintegração feminina na sociedade por meio de emprego, mostrando o quanto esse caminho ainda é recente e difícil para ex-detentas.
O projeto “Mulheres, o cárcere e a saudade”, desenvolvido na Cadeia Pública de Ponta Grossa, pelo Departamento de Polícia Penal do Paraná, nasceu justamente para resgatar os laços afetivos e familiares fragilizados pelo encarceramento feminino, exatamente o drama central do filme, que a narrativa resolve com facilidade.
Serviço: O filme segue em cartaz no Cine Araújo Multiplex Palladium, localizado na Rua Ermelindo de Leão, 703.
Por Mafe Sperafico
Gravadas nas rochas e nas memórias
Ao transformar a paisagem de Tibagi em espaço de memória e resistência, o livro “Entre Rochas e Memória” utiliza a arqueologia para discutir preservação cultural de povos originários
“Entre Rochas e Memória: Paisagem e Arte Rupestre de Tibagi” transforma a cena dos Campos Gerais em narrativa. Mais do que apresentar dados arqueológicos sobre a Escarpa Devoniana e o Cânion do Guartelá, o livro utiliza imagens, registros científicos e descrições com tom mais sensível, para discutir memória e preservação. Ao revelar pinturas rupestres quase apagadas pelo tempo, a obra mostra como a tecnologia pode atuar no resgate de histórias que permaneceram invisibilizadas durante séculos.
Produzido pelo Grupo Universitário de Pesquisas Espeleológicas (GUPE), o livro aproxima ciência e comunicação ao tornar acessível um patrimônio pouco conhecido fora do meio acadêmico. A linguagem não se limita à uma descrição técnica dos sítios arqueológicos, ela propõe um olhar humanizado sobre os indígenas que habitaram Tibagi muito antes da colonização.

Crédito: Marina Ranzani
Publicado em abril de 2026, pela produtora ABC projetos culturais, o livro expõe um contexto de ameaças constantes ao patrimônio ambiental e cultural. Enquanto áreas naturais sofrem com exploração econômica e descaso político, a leitura mostra a necessidade de preservar não apenas a natureza, mas os vestígios humanos presentes nela. Os grafismos rupestres deixam de ser apenas marcas em rochas e passam a representar diferentes formas de existência.
Ao unir arqueologia, educação patrimonial e divulgação científica, “Entre Rochas e Memória: Paisagem e Arte Rupestre de Tibagi” convida o leitor a enxergar a cidade para além do turismo comum, valorizando as pinturas rupestres como um espaço onde memória, natureza e identidade permanecem conectadas.
Por Marina Ranzani
Musical Wicked leva o preconceito da ficção para a realidade
Peça inspirada no universo de O mágico de Oz discute bullying nos palcos
O musical Wicked vai muito além de uma história sobre bruxas. Ele fala sobre preconceito de um jeito simples e direto. Elphaba é rejeitada por ser de uma “cor diferente” enquanto Glinda representa o padrão aceito. A história mostra que quem foge do normal muitas vezes é visto como vilão.
Isso não fica só no palco. No Paraná, segundo o Sindicato de professores e professoras (APP), 47% das escolas já registraram casos de bullying. O estado também liderou os casos de cyberbullying no Brasil em 2024. Ou seja, a exclusão que vemos em Wicked acontece todos os dias.

Crédito: Reprodução Wicked Brasil
Em Ponta Grossa, espaços como o Teatro Ópera existem e quase não recebem musicais grandes como esse, nem mesmo em eventos importantes como o Fenata. Isso limita o acesso do público a obras que vão além do entretenimento e ajudam a pensar a realidade.
Wicked nos deixa uma pergunta: se Elphaba fosse uma estudante hoje, ela seria acolhida ou isolada? A resposta talvez explique por que histórias como essa ainda são tão necessárias. Porque vilões nem sempre nascem, às vezes, são criados. E fora dos palcos, isso continua acontecendo todos os dias.
Por Ingrid Muller
Qual o limite da informação?
Blogs de Ponta Grossa sensacionalizam conteúdos jornalísticos e são impulsionadas por redes sociais
O que é um bom jornalismo? Para pesquisadores e pesquisadoras da área é se expressar com clareza, ouvir todos os lados, traduzir informações, ser credível, acessível e combativo. São muitas características que podem ser atribuídas. O jornalismo da cidade traz muita opinião, apelo e pouca informação clara e consistente. Em blogs de Ponta Grossa, auto intitulados jornalísticos, seguem o mesmo caminho.
Títulos adjetivados, colunas para vereadores, apelo visual e textual para chamar a atenção. Essas e outras diversas ações são encontradas no Portal Mareli Martins e no Blog do Johnny. Além de possuírem sites dedicados à publicação de notícias, ambos exibem o trabalho nas redes sociais, outro aspecto preocupante.

Crédito: Karine Santos
A internet impulsiona conteúdos desinformativos e apelativos em uma lógica de mercado. O jornalismo tem responsabilidade com a opinião pública e é preciso pensar a partir dessa visão na hora de divulgar materiais. Esses blogs entendem essa responsabilidade, porém focam na visibilidade e não no combate de estereótipos ou perpetuação de estigmas. O que sobra desses portais é a difusão e a polarização política. Os exemplos são as matérias intituladas “Extrema esquerda do PSOL lança chapa de oposição à reitoria da UEPG”, produzida e divulgada pelo blog do Johnny, e “Ratinho Júnior está perdido ou já entregou de bandeja o governo para Sérgio Moro”, do Portal Mareli Martins.
Será que a população da cidade está sendo informada de forma qualificada ou está apenas consumindo conteúdos que engajam determinados setores políticos ou atingem interesses pessoais?
Por Karine Santos
A importância da educação patrimonial para preservação da cantaria
Projeto Caminho da Cantaria percorreu três cidades dos Campos Gerais e trouxe a importância da preservação patrimonial e a educação sobre a técnica de cantaria
A técnica da cantaria é uma técnica de escultura em pedras rochosas como mármore e granito e representa um importante patrimônio histórico e cultural brasileiro, presente em igrejas, monumentos e construções antigas. Além do valor arquitetônico, ela preserva conhecimentos artesanais transmitidos entre gerações. Porém, a falta de educação patrimonial faz com que muitas pessoas não reconheçam a importância da técnica, contribuindo para o abandono e a depravação de patrimônios históricos.

Crédito: Larissa Didres
Nesse contexto, a oficina do Projeto Caminho da Cantaria nos Campos Gerais, ministrada pela especialista em escultura Adriane Muller, mostra como essas iniciativas podem ajudar na valorização cultural. Ao trazer histórias e informações sobre a cantaria, o projeto aproxima o público de um tema pouco debatido na sociedade. A linguagem acessível da oficina contribui para o interesse e a conscientização sobre preservação patrimonial.

Crédito: Larissa Didres
A preservação da cantaria depende não apenas de iniciativas culturais, mas também de investimento em educação. Escolas, universidades e órgãos públicos deveriam ser fundamentais na valorização do patrimônio histórico. Preservar a cantaria significa manter viva a memória cultural e histórica.
Por Larissa Didres
O que a comida culinária árabe têm a oferecer?
A valorização da comida do oriente médio pode abrir espaço para uma culinária rica e saborosa
Fundada em 2023, a Nagham Comida Árabe é um restaurante especializado em pratos típicos da culinária do Oriente Médio. O estabelecimento valoriza as tradições na gastronomia e também na ambientação: com músicas e elementos que remetem à região.
Além de se tornar uma referência em Ponta Grossa, o restaurante recebe visitantes de outros países, que encontram um ambiente acolhedor e familiar, além da facilidade de comunicação com funcionários que falam árabe. Entre os pratos mais procurados está o shawarma, elogiado nas redes sociais e por clientes que experimentam a comida pela primeira vez.

Crédito: Leonardo Alexandre
Infelizmente, ainda existe xenofobia dos pontagrossense contra os costumes e tradições de outros povos, especialmente do Oriente Médio. Isso é perceptível em casos de intolerância religiosa e preconceito cultural, como foi o caso de em 2021 acontecer tanto pichação na Mesquita e queima do Alcorão.
Essa visão impede novas experiências. Porém, ao se abrir para outras culturas, descobre-se uma culinária rica, saborosa e que merece reconhecimento e valorização.
Serviço: O restaurante Nagham está localizado na Rua Santos Dumont, 155 – Centro, Ponta Grossa, perto da Catedral Sant’Ana abrindo de segunda a quarta das 18:00 até as 22:00 e de quinta a sábado das 11:30 até 22:00
Por Leonardo Alexandre
A invasão das bets: Você torce pelo seu time ou pela sua aposta?
As casas de apostas dominam o futebol brasileiro atual, desde o nome do campeonato até a camisa dos jogadores. Qual é o preço disso para a cultura do esporte?
A ‘betização’ do futebol brasileiro não é apenas um fenômeno econômico, é algo que se tornou cultural. O processo começou em 2018, com o governo Temer, e explodiu em 2019, quando os clubes utilizaram camisas para propagar casas de apostas. Em 2023, a regulamentação no governo Lula buscou tributar e fiscalizar. Hoje, as bets patrocinam clubes e dão nome às competições. Dois exemplos são os dois maiores campeonatos nacionais “Brasileirão Betano” e “Copa do Brasil Betano”, que levam no nome a casa de aposta.
Nas séries A e B, cerca de 95% dos clubes são patrocinados por bets. O problema é que essa onipresença altera a psicologia de quem assiste. O futebol, que antes era o espaço do lúdico e do pertencimento, tornou-se uma plataforma de investimentos.

Crédito: Editoria de Arte/O Globo
A essência do esporte está sendo perdida. O grito de gol foi substituído pelo cálculo do green. Em casos extremos, a lógica financeira corrompe a paixão, tem quem torça contra o próprio time ou deseje um cartão amarelo específico apenas para fechar uma combinação. Quando o lucro vale mais que a vitória, o futebol morre um pouco. O esporte deixa de ser um lazer de celebração para se tornar um cassino individual e solitário de 90 minutos.
Por Pedro Moro
Ficha técnica
Autores: Ingrid Muller, Larissa Didres, Leonardo Alexandre,Karine Santos, Maria Fernanda Sperafico, Marina Ranzani e Pedro Moro
Supervisão de produção: Paula Melani Rocha
Edição e publicação: João Pimentel e Lucas Barbato
Supervisão de publicação: Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado
Contato: periodico@uepg.br
