Crítica de Ponta #180

Crítica de Ponta

Produzido pelo terceiro ano do curso de Jornalismo da UEPG, o Crítica de Ponta traz o melhor da cultura da cidade de Ponta Grossa para você!

Literatura carece de espaço próprio em políticas culturais de PG

O fomento à cultura é fundamental para garantir que diferentes formas de expressões culturais tenham espaço para existir e alcançar o público. Em Ponta Grossa, o levantamento de editais culturais financiados pelo fundo municipal de cultura entre 2020 e 2026 mostra que a literatura está presente nas políticas de incentivo, mas revela também uma diferença em relação a outros segmentos artísticos.

Enquanto áreas como música, teatro e dança contam com grupos, coletivos e iniciativas específicas na cidade, a literatura aparece, em grande parte, inserida em editais mais amplos de projetos culturais, dividindo espaço com outras linguagens. Foram identificados 12 editais que abrangem a literatura, dos quais apenas três foram realizados especificamente para este segmento. Além deles, há editais voltados à Feira do Livro, que, embora tenham a literatura como foco, estão direcionados à exposição e comercialização de livros, e não ao fomento da produção literária.

Crédito: Natalia Almeida

Em 2021, o edital de seleção de obras literárias recebeu 145 inscrições, enquanto, nos anos em que a literatura aparece apenas como um dos segmentos de editais mais abrangentes, a procura é consideravelmente menor. Uma comparação semelhante pode ser observada nas edições do Programa Municipal de Incentivo Fiscal à Cultura (PROMIFIC), embora não faça parte dos editais do Fundo Municipal, o PROMIFIC ajuda a observar como a literatura se comporta quando é contemplada dentro de um programa mais amplo, ao lado de outras linguagens. Nos dados levantados, a participação da literatura também é menor em comparação com outros segmentos.

Os dados sugerem que não se trata exclusivamente da falta de interesse pela literatura, mas da necessidade de compreender as especificidades. Quando existe uma oportunidade diretamente destinada à produção literária, a participação cresce. Isso evidencia a importância de políticas culturais que não apenas incluam a literatura entre os segmentos contemplados, mas que também criem mecanismos capazes de atender às particularidades do setor literário.

Serviço:

Políticas ao setor literário em PG

Editais públicos financiados: (…)

Por Natalia Almeida

Em livro ou filme, transforma a dor em  resistencia 

 

Ainda Estou Aqui, de Marcelo Rubens Paiva, e a adaptação cinematográfica, dirigida por Walter Salles, apresenta uma história marcada pela violência da ditadura militar brasileira. Embora partam da mesma experiência, livro e filme utilizam linguagens diferentes para abordar temas como perda, memória, resistência e os impactos da repressão na vida familiar.

No livro, Marcelo Rubens Paiva parte do desaparecimento do pai, Rubens Paiva, levado por agentes da repressão em 1971. A narrativa ultrapassa o acontecimento político e recupera lembranças da família, da relação com os pais e das mudanças provocadas pela ausência. Assim, a obra mostra que a ditadura não atingiu apenas figuras políticas, mas também destruiu relações, rotinas e projetos de vida.

O filme concentra a narrativa principalmente em Eunice Paiva, interpretada por Fernanda Torres, mostrando uma transformação diante do desaparecimento do marido e a luta para reconstruir a própria vida. Walter Salles evita exageros dramáticos e utiliza silêncios, expressões e situações cotidianas para construir o impacto da história. A ausência de Rubens torna-se, muitas vezes, mais forte do que a presença: a família continua vivendo, mas carrega permanentemente o vazio deixado pelo desaparecimento.

Crédito: Reprodução

Uma diferença importante está na forma de construção da memória. Enquanto o livro apresenta um caráter reflexivo e subjetivo, permitindo ao autor relacionar passado e presente, o filme transforma as lembranças em imagens e momentos cotidianos. Por outro lado, a concentração na trajetória de Eunice faz com que algumas reflexões presentes no livro sobre trauma, identidade e memória tenham menos espaço.

Ainda assim, a adaptação não precisa reproduzir integralmente a obra literária para funcionar. O principal mérito está em transformar uma experiência familiar em uma reflexão sobre a memória coletiva brasileira. A história de Eunice representa também tantas famílias que enfrentaram desaparecimentos e permaneceram sem respostas durante a ditadura.

No fim, Ainda Estou Aqui é uma obra sobre ausência, mas também sobre permanência. O livro transforma a experiência em memória escrita, enquanto o filme a transforma em imagem. Ambos mostram que lembrar pode ser uma forma de resistência e que, enquanto houver memória, aqueles que foram silenciados continuam presentes.

 

Serviço:

Filme: Ainda Estou Aqui

Direção: Walter Salles

Minutagem: 2 h e 15 minutos

Ano: 2024

Por Ticyane Almeida

Entre o palco e a infância

A performance pode complicar o desenvolvimento de jovens artistas?

 

A Night Shadow, banda de Ponta Grossa formada por crianças entre 9 e 13 anos, chama atenção por uma iniciativa que merece ser valorizada ao dar espaço para que jovens desenvolvam talento, disciplina e expressão artística. Mas, quando o palco muda de endereço, surge uma questão que não pode ser ignorada.

A banda também se apresenta, ocasionalmente, em ambientes voltados a um público adulto, cuja entrada é condicionada à apresentação de documento e à maioridade. A música pode ser apropriada para qualquer idade; o mesmo, porém, não necessariamente vale para o ambiente em que é executada.

Não se trata de afirmar que uma apresentação nesses locais, isoladamente, determine algum prejuízo ao desenvolvimento das crianças. A questão é mais ampla, quais são as condições de segurança, acompanhamento e adequação dos espaços para quem ainda está em formação?

Crédito: Reprodução

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece que crianças e adolescentes têm direito à cultura e ao lazer respeitando a condição peculiar de pessoas em desenvolvimento. O ECA também determina que a frequência e a participação em determinados espetáculos e ambientes devem considerar, entre outros fatores, a adequação do local e a natureza do evento.

A discussão, portanto, não é sobre limitar o acesso de crianças à música ou aos palcos, mas como garantir que o acesso aconteça em condições adequadas à idade dos integrantes. Incentivar jovens talentos também significa assegurar que os ambientes em que eles se apresentam sejam seguros, acompanhados e compatíveis com a condição de crianças e adolescentes. 

Procurada para informar a escolha dos locais de apresentação e as medidas adotadas para garantir a proteção dos integrantes, a banda não respondeu até o fechamento da edição. 

 

Serviço:

A Night Shadows é formada por Ber (12) no baixo, Dudu (11) na guitarra, Gabe (9) na bateria e Romeo (13) no vocal

 

Por Nathalia Stupp

Ponta Grossa respira Hip Hop 

 

A exposição Hip-Hop PG, em cartaz no Museu Campos Gerais, mostra que a cultura hip hop tem força e história na região. O acervo reúne discos, fotografias, registros de batalhas de rima e campeonatos, colagens e obras de arte relacionadas ao movimento. 

Com curadoria da Associação Hip Hop PG, a exposição foi feita por quem está dentro do movimento, o que fica claro para quem observa as obras. A montagem conta a história do hip hop através de elementos visuais. Folhetos de competições e batalhas de rima, datadas de 2003 mostram que o movimento ocupa espaço na cidade há décadas.

Crédito: Pietra Gasparini

A mostra divulga nomes da cena local do hip hop, inclusive com mulheres do hip hop paranaense, reconhecendo a atuação feminina, por vezes menos destacada na cena. A iniciativa também  apresenta outras manifestações presentes na cultura hip hop, como break dance, DJs, popping e grafite, mostrando que no hip hop, existem várias formas de fazer e expressar arte. 

Apesar da riqueza de elementos, falta uma explicação escrita mais profunda sobre a história do movimento na cidade: quando começou, quais foram os primeiros grupos e como a cena se desenvolveu ao longo dos anos. São informações de contexto que poderiam valorizar mais o conjunto e ajudar o público a entender a importância do hip hop para Ponta Grossa. 

A exposição reforça a importância do movimento hip hop na cidade, com elementos visuais que cativam e chamam a atenção do público. O conjunto destaca que o hip hop faz parte da história cultural de Ponta Grossa e continua vivo na produção artística local.

 

Serviço: 

Exposição Hip Hop PG – Museu Campos Gerais : Rua Engenheiro Schamber, 686 – Centro 

Horário de funcionamento: Terça-feira a sábado, das 9h às 11h45 e das 13h30 às 17h. 

A exposição permanece aberta para visitação até o final de novembro.

Por Pietra Gasparini

Capas dos jornais ponta-grossenses destacam falta de equilíbrio editorial na cobertura política 

 

Nos dois jornais impressos de Ponta Grossa, a eleição para governador não é notícia de destaque nas capas. O Jornal da Manhã e o Diário dos Campos se consolidam como os únicos impressos da cidade. Em análise realizada entre os dias 08 e 15 de agosto, que marca a semana do primeiro debate para governador do Paraná, constata-se que, no impresso, não há lugar para notícias de forma igualitária sobre os candidatos Adriano Teixeira (PCO), Alexandre Salomão (Mobiliza), Luiz França (Missão), Requião Filho (PDT), Samuel Mattos (PSTU), Sandro Alex (PSD), Sérgio Moro (PL) e Tayná Miessa (UP).

O Jornal da Manhã tem edição diária, e em cinco capas analisadas, o único nome que aparece na capa é do candidato Sandro Alex. Já no Diário dos Campos, que apresentou duas edições impressas na semana, o box chamado ‘Eleições 2026’, presente em uma das edições, pauta os blocos: Brasil, Paraná, mídia e legislação, e não insere nomes de candidatos.

Crédito: Emanuelle Pasqualotto

No site de ambos os veículos, foi realizada a análise do mesmo período de cobertura. No portal ARede, são 15 matérias que envolvem as eleições paranaenses, mas novamente, percebe-se o maior enfoque em um dos candidatos: Sérgio Moro. O DCmais contabilizou 8 matérias, e Sandro Alex como o mais citado. Além de Requião Filho, que está presente em algumas notícias, os demais cinco candidatos não têm os nomes presentes nos títulos em nenhuma das análises.

Um dos principais papéis da mídia é promover a informação de forma democrática. Em períodos eleitorais, torna-se ferramenta essencial para os eleitores terem conhecimento das propostas e feitos de todos os candidatos igualmente. No entanto, o que se destaca é o desequilíbrio editorial entre as candidaturas ao governo entre veículos ponta-grossenses. Enquanto os três candidatos têm os nomes repetidos em diversos títulos, Adriano Teixeira, Alexandre Salomão, Luiz França, Samuel Mattos e Tayná Miessa não têm sequer o nome presente no jornal, seja impresso ou digital.

 

Serviço:

Cobertura Eleitoral 2026

Diário dos Campos e Jornal da Manhã 

Por Emanuelle Pasqualotto

Obras no Terminal Central causam problemas de acessibilidade

Durante o primeiro semestre deste ano, o Terminal Central de Ponta Grossa iniciou obras que causaram transtornos aos usuários. A obra, que começou em 25 de maio, prevê trocar o piso das plataformas, pintar as estruturas, a instalação de um elevador e de piso tátil. O objetivo é garantir acessibilidade aos usuários do sistema de transporte. Com uma verba de R$600 mil liberada pela Prefeitura Municipal, a obra registra atraso, pois a previsão de conclusão e entrega do serviço estimada em 90 dias deveria ser em 25 de agosto.

Para uma obra que deve garantir condições de mobilidade é preciso manter a viabilidade de deslocamento no local, o lado da Praça João Pessoa se encontra com o chão danificado e as escadas interditadas. De acordo com a assessoria da concessionária do transporte, estima-se que cerca de 30 mil pessoas circulam no terminal central diariamente.

Crédito: Lucas Jolondek

Será que todos não precisam de um acesso especial ao transporte público? O atraso na entrega afeta principalmente os cidadãos que possuem baixa visão e usuários de cadeira de rodas que frequentam o terminal. Com o piso abalado, acidentes e possíveis lesões se tornam um risco constante. As obras devem acontecer, pois ajudam a promover um espaço acessível a todas as pessoas, porém o atraso prejudica. Enquanto as obras não garantem acessibilidade, e causam obstáculos ao público alvo, a demora na execução da reforma se torna outro problema aos usuários do transporte coletivo de Ponta Grossa.

Serviço:

Terminal Central de Ponta Grossa.

Obras de reforma em andamento desde 25 de maio de 2026

Objetivo: Acessibilidade

Valor: R$600 mil

Por Lucas Jolondek

Status parcelado de telefonia 

 

Em 2016, o salário mínimo no Brasil era de R$880. No mesmo ano, o iPhone 7, um dos aparelhos mais desejados do mercado, chegou ao país custando cerca de R$3500. Ou seja, para comprar o celular da Apple, um trabalhador que recebia um salário mínimo precisaria comprometer praticamente quatro meses inteiros de toda a renda. Dez anos depois, enquanto o salário mínimo é de R$1621, os modelos mais recentes continuam custando valores que ultrapassam R$4 mil, como o iPhone 16 e o mais recente modelo 17 lançado em setembro de 2025 chegando a custar R$8 mil. 

A diferença entre os números revela que, mesmo sendo um produto inacessível para grande parte da população brasileira, o iPhone continua ocupando um lugar de desejo no imaginário dos consumidores. Mais do que um aparelho utilizado para comunicação, trabalho e acesso à informação, o celular da Apple se consolidou como um símbolo de status. 

Crédito: Natalia Almeida

A mídia e as redes sociais são influenciadoras de moda. Produtores de conteúdo exibem os novos modelos, as câmeras de definição de imagem e recursos, que muitas vezes, não fazem diferença no cotidiano. A repetição informativa ajuda a construir a sensação de que ter um iphone não é apenas uma escolha, mas quase uma necessidade para quem deseja ser  incluído. 

Esse valor simbólico chama atenção quando comparado à presença da Apple no mercado brasileiro. Segundo o relatório do OMdia https://omdia.tech.informa.com/pr/2026/feb/omdia-latin-americas-smartphone-market-hits-record-140point5-million-units-in-2025-up-12percent-in-4q, em 2025, a empresa representou apenas com 7% do mercado de smartphones no país, ficando atrás de fabricantes como Samsung, Motorola e Xiaomi. Ainda assim, poucos aparelhos parecem ocupar tanto espaço nas redes sociais e no imaginário dos consumidores quanto o iPhone. 

Sem condições de adquirir um modelo recente do aparelho, muitos consumidores optam por versões anteriores, priorizando aqueles que ainda recebem atualizações do sistema IOS, como uma forma de comportar o orçamento. 

O problema não está em comprar um iphone. A questão é refletir como um produto que custa mais de dois salários mínimos se torna objeto de consumo, mesmo quando, na prática, um celular mais barato poderia cumprir exatamente a mesma função. 

Por Maria Eduarda Leme

Leque ganha novos usos entre modas e performances

 

O movimento é simples: abrir, fechar e bater o leque. O acessório, usado em diferentes culturas, ganhou destaque na Europa a partir do século 16 , para ajudar a enfrentar o calor, também utilizado para comunicação por meio de gestos. Com o tempo, o leque ganhou espaço em performances drag, festas e na cultura ballroom, ligada à comunidade LGBTQIAPN+, passando a integrar figurinos e movimentos corporais.

Crédito: Marina Ranzani

Um dos momentos recentes de visibilidade aconteceu no show de Lady Gaga, em Copacabana, em 2025. Fãs levaram leques e fizeram a ‘bateção’ durante as músicas. Em Ponta Grossa, o acessório também já aparece nas festas universitárias. Nas lojas do centro da cidade, os modelos variam entre plástico, madeira e tecido, com diferentes tamanhos, cores lisas, estampadas, e coloridas,  penas, com preços entre 5 a 15 reais. 

A volta do leque mostra como uma moda pode reaparecer sem ser reproduzida da mesma maneira. O acessório continua ligado à função original, mas também acompanha novas formas de vestir e participar das festas. Se a ‘bateção’  vai continuar depois que a novidade passar, ainda não dá para saber. Por enquanto, o leque voltou a fazer barulho.

 

Serviço:  

Preço médio dos leques em PG: de 5 a 15 reais

Por Yasmin Salgado

Ficha técnica

Autores: Emanuelle Pasqualotto, Lucas Jolondek, Maria Eduarda Leme, Natalia Almeida, Nathalia Stupp, Pietra Gasparini, Ticyane Almeida e Yasmin Salgado

Supervisão de produção: Sérgio Luiz Gadini

Edição e publicação no Periódico: João Pimentel e Larissa Didres

Supervisão de publicação: Aline Rosso e Muriel Emídio Pessoa do Amaral

Contato: periodico@uepg.br

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