“Eu vivo um luto sem corpo”

Ivanise busca Fabiana há 30 anos e já ajudou a encontrar 6 mil outros desaparecidos

“Vai pra casa, mãezinha, se até amanhã ela não aparecer, aí a senhora volta aqui”, foi o que Ivanise ouviu do delegado às três horas da manhã do dia 24 de dezembro de 1995. “A sua filha deve estar por aí com algum namoradinho, até o dia amanhecer ela já volta para casa”, reafirmou o agente.  

“Doutor, uma mãe que dá liberdade pra uma adolescente de 13 anos ficar na rua até essa hora da madrugada não vem na sua delegacia pedir ajuda”, respondeu Ivanise. “E quem disse que mãe conhece o filho? Quando os pais viram as costas, o comportamento deles é totalmente diferente”, rebateu o delegado. Palavras faladas para uma mãe quando a filha estava desaparecida há sete horas.

A negligência encontrada nos detalhes dessa história colide com a dificuldade de Ivanise Esperidião de ter quaisquer pistas sobre o paradeiro de Fabiana Esperidião da Silva. Em meio a estatísticas e buscas incessantes, uma mãe convive há 30 anos com a perda, que pode não ser visível, mas é sentida na alma todos os dias, há quase 11 mil dias. “O delegado falou que não ia perder tempo, porque já estava acostumado com essas ocorrências e que eu precisava esperar as 24 horas”, conta.

Esperar um dia inteiro para, no fim, na noite daquela véspera de Natal, a única diferença para a manhã é que agora Ivanise tinha em mãos um papel que falava que Fabiana estava desaparecida e que descrevia a forma como ela sumiu. “Um balde de água fria”, relembra, em 2026, o descaso enfrentado na época.

Destino com espinhos

Normalmente, quando se perde uma pessoa, a última memória que se tem de alguém é dentro de um caixão em um velório. O corpo humano e suas milhões de sinapses têm diversas reações para a dor física, mas e para a dor psicológica, mais especificamente, a dor da perda, como se manifesta essa reação?

O luto já passou pela vida de Ivanise de diversas maneiras. Ela vem de uma família composta por dez irmãos, originária de São Luís do Quitunde, cidade localizada na região norte de Alagoas, a 57 quilômetros de Maceió. No município com cerca de 30 mil habitantes moravam os irmãos e os pais de Ivanise. 

A mãe de Fabiana mudou-se para São Paulo aos 18 anos. Ela se casou em 1980 – é divorciada desde pouco tempo após o desaparecimento da filha – e, logo que chegou ao novo estado, quis ser mãe. As filhas têm apenas 11 meses de diferença. “Minha primeira gestação era de gêmeos. Eu perdi, tive um aborto espontâneo. Depois engravidei da Fabiana e, logo após, da Fagna”, retrata.

Os irmãos dela permaneceram morando em Alagoas, ao lado dos pais. Antes do desaparecimento, ela já fazia tratamento para depressão. Ivanise era a filha mais velha por parte de pai e, quando ele faleceu, foi a única que não pôde se despedir. “Tínhamos uma relação muito grande, minha mãe disse que ele morreu pedindo para me ver”.

Foi a época na qual ela apresentou início de depressão. A descoberta foi em uma consulta no reumatologista. Ao observá-la com olhos vermelhos, o médico perguntou se ela havia dormido à noite: “Doutor, eu não durmo há dias, não tenho vontade nem de tomar banho ”. Foi assim que Ivanise recebeu encaminhamento para um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) e iniciou o tratamento. A única pessoa que podia ajudá-la naquela ocasião era ela mesma.

Dois anos depois, quando Fabiana desapareceu, o quadro se agravou. Um dia, durante as buscas, Ivanise foi ao Instituto Médico Legal (IML) e viu cinco corpos, cinco meninas que foram assassinadas das formas mais brutais possíveis. “Por que Deus estava me usando? Por que estava me castigando usando a minha filha? Eu falei: ‘Senhor, eu já vivi o bastante’”. 

Após a perda dos gêmeos, do pai e o desaparecimento da filha, uma vida que já tinha um destino guiado pelas dores da incerteza, teve mais uma provação. “O médico chamou a mim e a minha irmã e disse que minha mãe não iria durar mais do que 20 dias, porque ela estava tendo falência múltipla dos órgãos”. Há 12 anos, Ivanise desembarcou em Alagoas no dia 17 de agosto e no dia 6 de setembro, a mãe dela morreu. Ela acompanhou a última parte dos três meses de luta contra uma doença que fez a mãe dela perder todos os movimentos do corpo e, nos últimos dias, ficar totalmente dependente de outras pessoas. 

“Aquilo para mim foi um choque, uma realidade muito triste, porque estava acostumada a chegar lá e ver minha mãe uma mulher sempre disposta”, relembra. Naquele momento Ivanise vivia uma dualidade do luto. Com ou sem corpo, a dor que fica é uma ferida que nunca vai se fechar.

Luto inacabado

“A dor do luto da morte é diferente da dor da incerteza”, explica Ivanise, que tem experiência nas duas faces. “Quando você tem o protocolo para fazer a despedida daquele corpo, vela, com família e amigos, você enterra e sabe que a pessoa não vai mais voltar”. Alguém que perdeu o pai e a mãe e, ao mesmo tempo, tem uma filha desaparecida, faz uma reflexão sobre como é viver um luto ambíguo, no qual não existe concretude do acontecimento. 

A psicóloga Aline Ingrid Zanoni, especializada em perdas e luto, fundamenta o conceito de perda ambígua. “É um conceito desenvolvido na década de 1970 pela psicóloga Pauline Boss para descrever perdas sem uma confirmação clara, como no caso de pessoas desaparecidas, onde há a ausência do corpo e uma forte presença psicológica daquela pessoa que está desaparecida”. Este fenômeno dificulta questões como o fechamento emocional, sofrimento prolongado, além de dificultar o início do processamento  da perda. 

Ao longo do tempo podem surgir ansiedade crônica, culpa persistente, sensação de estagnação, sintomas de estresse pós-traumático e dificuldade de reorganizar a vida. “Também há maior risco de depressão e isolamento”, segundo  a psicóloga.

A profissional explica que quando não existe a confirmação efetiva da perda, esse processo pode ficar “congelado”, gerando grande sofrimento aos entes que ficaram, diferente do concreto, quando a pessoa pode reconstruir um significado para aquela perda e é capaz de se direcionar para a reorganização da vida, construir novos vínculos, retomar tarefas, entre outras etapas. 

“A psicoterapia do luto é um suporte importante no caso do luto ambíguo, com foco em aumentar a tolerância à incerteza, validar a experiência, favorecer a construção de rituais simbólicos de despedida e fortalecer a rede de apoio”, explica Zanoni sobre o acompanhamento psicológico mais adequado.

Ivanise Esperidião conviveu com a dor de todas as formas e particularidades. Para permanecer lutando diariamente, ela precisou se reinventar. “Tínhamos vários planos e projetos para as nossas vidas, tudo aquilo foi por água abaixo. Mas eu tive que aprender a conviver com essa dor, ou eu aprendia ou eu morria”. Atualmente, Ivanise transforma a dor em causa e luta até os dias de hoje. Os desaparecidos encontrados pela organização Mães da Sé, fundada por ela como forma de tornar-se ativista da causa, já somam mais de 6 mil pessoas. 

Esta reportagem integra uma coletânea de livro-reportagem investigativo. Este capítulo trata da história de Ivanise que enfrenta a dor do desaparecimento de sua filha desde 1995. Leia o capítulo anterior aqui. Acompanhe no Periódico as próximas publicações.

 

Ficha técnica

Produção: Emanuelle Pasqualotto

Supervisão de produção: Hendryo André

Edição e publicação: Mafe Sperafico, Maria Tlumaski e Eduarda Leal

Supervisão de publicação: Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado

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