76,3% dos cuidadores brasileiros apresentam sintomas de sobrecarga
Imagem: Amanda Los
Se o trabalho de cuidado fosse remunerado, acrescentaria 8,6% ao Produto Interno Bruto (PIB) e movimentaria R$ 905 bilhões por ano, segundo dados do Instituto Locomotiva. O valor foi calculado com base no tempo médio que mulheres brasileiras com 14 anos ou mais dedicam à atividades domésticas, segundo estatísticas de gênero do Instituto Brasileiro de Geografia e Estastística de 2024. De acordo com o instituto, elas passam, em média, 21,3 horas por semana em afazeres domésticos, o dobro do tempo dedicado pelos homens. O cálculo tomou como referência o valor médio pago por hora ao trabalho doméstico remunerado no Brasil. Apesar do impacto econômico expressivo, a atividade segue, em grande parte, invisível. No Brasil, cerca de 6,4 milhões de pessoas exercem funções de cuidado, 93,5% mulheres, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua) de 2023. Por trás dos números, histórias como a de Adriana Lara (54) ajudam a dimensionar o peso dessa realidade.
Cuidadora não remunerada desde a infância, Adriana teve poucas oportunidades no mercado de trabalho. Sem formação profissional, encontrou ainda mais barreiras ao tentar se inserir em empregos formais. Com o nascimento do segundo filho, Alex Francisco, que desenvolveu paralisia cerebral após complicações no parto, o cuidado deixou de ser uma condição e passou a ser uma dedicação integral.
Durante anos, a rotina foi marcada por hospitalizações e esforço físico contínuo. “Carregar meu filho e ficar em pé ao lado da cama do hospital por horas resultou em uma lesão no meu tendão de aquiles”, conta. Informações do Portal Drauzio Varella indicam que lesões no tendão estão frequentemente associadas a esforços repetitivos e prolongados, realidade comum entre cuidadores.
O impacto não se limita ao corpo. Um estudo de 2023 do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que o trabalho de cuidado não remunerado gera o chamado “custo de oportunidade”, conceito que diz respeito ao que se deixa de ganhar ao optar ou ser levado a exercer determinada atividade. No caso das mulheres entre 25 e 59 anos, a perda média chega a cerca de R$ 1,7 mil mensais.
Além da falta de compensação financeira, o desgaste físico e mental se acumula. Uma pesquisa realizada no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, em 2022, mostra que 76,3% apresentaram sintomas de sobrecarga, 49,5% de ansiedade, outros 45,5% sintomas de depressão e 23,8% avaliaram suas famílias como disfuncionais.. A ausência de reconhecimento e de redes de apoio contribui para o esgotamento emocional e dificulta o cuidado com a própria saúde mental.
Para a psicóloga Marina de Oliveira, o trabalho de cuidado é exigente e cobra um preço alto, muitas vezes invisível até para quem o vive. “O cuidador perde a sua qualidade de vida para dar ao outro”, afirma. No consultório, ela observa um padrão repetitivo de pacientes exaustos, com sintomas de estresse, depressão e ansiedade acumulados ao longo de uma rotina silenciosa mas desgastante. Além do esforço físico, existe o fator cultural que sustenta essa realidade. “A sociedade espera que, principalmente mães e filhos, exerçam a função de cuidador quando algum parente precisa sem questionar. A pressão é ainda maior nas mulheres”.
Adriana reconhece esse efeito na própria história. “Na época, eu tinha tanto empenho em cuidar do meu filho que não tinha tempo para lidar com as minhas emoções. Tudo veio depois”, relata ao lembrar do período após a morte de Alex, em 2017. Hoje, ela faz uso de medicações para lidar com o transtorno depressivo e de bipolaridade.
A rotina de cuidado também afeta a vida social dos cuidadores. No caso de Adriana, grande parte das amizades surgiu dentro dessa realidade. “A maioria das minhas amizades se estabeleceu com pessoas que conheci na trajetória do Francisco, como pais e mães de crianças PCDs e funcionários dos hospitais”. Ela destaca a experiência na Casa de Apoio São Lucas, em Brasília, onde as famílias se apoiavam nas dificuldades. Dentro da própria família, a dinâmica também era adaptada. Quando possível, Adriana e o marido, Adenilson Lara, se revezavam para cuidar do filho em eventos familiares.
Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2018, apenas 17,6% dos domicílios brasileiros tinham condições de contratar trabalhadores domésticos. Em contrapartida, a Associação Brasileira de Gerontologia estima que cerca de 70% dos idosos no país necessitam de algum tipo de cuidado especial. Entre a demanda crescente e a falta de recursos para terceirizar o trabalho, o cuidado não remunerado se mantém como base silenciosa da vida social e econômica. Invisível, mas indispensável no cotidiano, sustentado na maior parte por mulheres como Adriana.
Esta reportagem integra uma coletânea do livro-reportagem. Este capítulo trata dos principais impactos do trabalho de cuidado não remunerado nos cuidadores familiares, desde a saúde e o financeiro até a vida social. Leia o capítulo anterior aqui. Acompanhe no Periódico as próximas publicações.
Ficha técnica
Produção: Amanda Los
Supervisão de produção: Hendryo André
Edição e publicação: Emanueli Garcia e Matheus Leônidas
Supervisão de publicação: Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado
