“Não tenho rede sobre mim para proteger da queda”: solidão e saúde mental no cárcere feminino

Arte: David Hart

O abandono familiar e a ausência de cuidado psicológico aprofundam o sofrimento mental de mulheres privadas de liberdade.

Um levantamento feito pelo G1, a partir de dados do painel da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen) sobre o sistema penitenciário brasileiro, mostra que 26,8% das mulheres presas no Brasil não têm visitantes cadastrados, ou seja, não recebem nenhuma visita. O dado reflete a solidão enfrentada pelas mulheres no cárcere.

A psicóloga Glaucia Orth, coordenadora de um projeto voltado à saúde mental de mulheres privadas de liberdade no Paraná, explica que o abandono e a solidão no cárcere aprofundam vulnerabilidades já existentes. Para ela, os dados oficiais ainda não conseguem dimensionar a realidade vivida dentro das unidades femininas. Ela afirma que 26% ainda é um número baixo.

Ao realizar o projeto, Glaucia e sua equipe perguntaram em que dia as mulheres poderiam participar, já que, durante a semana, todas trabalhavam. Ela pensou que sábado não seria possível por ser dia de visita, mas a resposta das mulheres evidencia o abandono: “quase nenhuma delas tem visita”.

Em 2020, durante a pandemia, foram instituídas as chamadas de vídeo nos presídios. Para ter direito a este recurso o familiar deve possuir a carteira de visitante e realizar cadastro prévio na unidade. As ligações são monitoradas, têm tempo restrito e acontecem em dias e horários agendados. Segundo Glaucia, as chamadas de vídeo com as famílias amenizam o isolamento, mas ainda estão longe de suprir a ausência de contato familiar. “Você não ter visita é mais um fator para o adoecimento. A família é nossa proteção informal. Se acontece alguma coisa, é para ela que recorremos. Não ter visita representa uma vulnerabilidade ainda maior, é pensar: ‘eu não tenho com quem contar’ ”.

Mireille Letícia Ishimaru passou um ano e cinco meses presa. Ao falar sobre o abandono feminino dentro do cárcere, descreve uma diferença que se evidencia nos dias de visita. “Se você vai em uma cadeia feminina, pode contar no dedo quantas visitas vão ter para as mulheres. Agora, se você vai em uma masculina, veja a quantidade de mulheres que estão na fila para visitar os homens. Não tem nem comparação”.

Ela também relata como a saúde mental era tratada no presídio. Havia apenas uma consulta por mês com um médico generalista, que receitava todos os medicamentos. Mireille tinha sérios problemas respiratórios, agravados pelas condições físicas da cadeia. Por isso, não podia recusar o atendimento médico, contudo era, também, o momento em que lhe prescreviam medicação psicotrópica em excesso. Ela, e as outras mulheres privadas de liberdade eram dopadas com uma quantidade excessiva de remédios. “Eu cheguei a tomar tanto remédio que hoje eu não vivo sem. Quando fico sem, tenho tremedeira. Eu me tornei dependente”. 

Glaucia afirma que esse uso indiscriminado de medicamentos acontece em todas as unidades prisionais.“É assustador perceber que quase 100% delas tomam medicação pesada e em excesso. Você não tem um cuidado de saúde mental”. 

A psicóloga e pesquisadora da Fiocruz, participou do Inquérito Nacional de Saúde no Sistema Prisional. No Paraná, foram avaliadas 44 unidades prisionais. Segundo ela, apenas uma funciona da maneira conforme a  lei, que articula os serviços de saúde do SUS.  Na maioria dos lugares, o acesso à saúde dessa população é negligenciado. “É uma série de problemas, mas também é uma série de intencionalidades de manter as coisas como elas são”. 

Glaucia explica que as pessoas privadas de liberdade já chegam ao sistema prisional com problemas anteriores de saúde mental. “É uma população exposta a muita violência desde o início da vida. E sofrer violência ou ser exposto à violência diariamente traz um adoecimento mental ”. 

Ela também participou, como pesquisadora da Fiocruz, de um estudo realizado na Penitenciária Estadual de Ponta Grossa (PEPG) e na Unidade de Progressão de Ponta Grossa (UPPG). Os dados coletados revelam que 75% dos apenados foram expostos a seis ou mais eventos traumáticos ao longo da vida, enquanto mais de 58% apresentaram sintomas compatíveis com o diagnóstico provável de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).

Foi nesse contexto que surgiu o projeto Narrando Nossas Histórias, iniciativa voltada ao cuidado em saúde mental de mulheres privadas de liberdade no sistema penitenciário do Paraná. O projeto utilizou a Terapia de Exposição Narrativa (NET) para o tratamento de estresse pós-traumático e foi realizado durante seis meses no Centro de Integração Social (CIS) de Piraquara, uma unidade feminina.

Cinquenta mulheres participaram de atendimentos terapêuticos individuais e círculos de construção de paz, espaços seguros baseados na justiça restaurativa, para que as participantes expressem seus sentimentos. A experiência também deu origem a ao documentário “Até Virar Jardim”, produzido a partir das narrativas das mulheres. Para construir confiança com as participantes, o primeiro passo foi instruir as detentas para que elas pudessem atuar como agentes multiplicadores na metodologia da justiça restaurativa. Glaucia compartilha a fala de uma das mulheres atendidas: “Me faz muito bem ver que quem está à frente disso é uma mulher que veste laranja e branco, igual eu. Eu nunca achei que teríamos  a capacidade de fazer alguma coisa nesse nível de protagonismo”. 

A partir das experiências e relatos delas, foi construída uma música com a letra que dá título a esta reportagem: “Corro de perigo, mudo meu destino, salto sobre o abismo. Não tenho rede sobre mim para proteger da queda.” A letra de Alícia Gomes exemplifica a ausência de rede de proteção para mulheres privadas de liberdade.

Os relatos escutados durante o projeto em Piraquara revelaram um histórico recorrente de violência sexual e doméstica entre as participantes. “É assustador ver como a violência sexual aparece já na infância, muitas vezes sem qualquer proteção. Na adolescência, começam as violências nos relacionamentos íntimos e seguem no casamento. São violências crônicas, que acontecem diariamente”. Para Glaucia, o impacto dessas experiências nos primeiros anos de vida compromete a construção da identidade. Entre os efeitos mais frequentes, ela aponta desregulação emocional, depressão, agressividade e tentativas de suicídio.

O medo da liberdade também aparece como uma consequência do encarceramento. Glaucia observa que, embora todas desejem sair da prisão, a proximidade da liberdade costuma provocar desespero. “Elas perguntam: ‘Para onde eu vou? Onde eu vou morar? O que eu vou fazer?’”. De acordo com ela, a prisão retira das pessoas a possibilidade de escolha cotidiana, você não escolhe o que veste, onde dorme, o que come. “A prisão não prepara você para a vida, que é feita de escolhas”. 

Em alguns casos, mulheres que saíram do regime fechado cometem novos crimes poucas horas depois de deixar a unidade prisional, “A transição também precisa ser cuidada. O sistema falha ao reinserir essas mulheres na sociedade”. 

Esse medo também foi relatado por Mireille. Apesar de desejar muito sair da prisão, no início ela pedia para não ser colocada em prisão domiciliar, porque tinha medo de não conseguir permanecer em casa e acabar retornando ao cárcere, algo que via acontecer com frequência entre outras mulheres libertadas.

De acordo com Glaucia, o primeiro ano após a saída da prisão concentra os maiores índices de reincidência, especialmente no primeiro mês. Para ela, isso revela a ausência de redes de proteção e suporte social fora do cárcere.

Entre os fatores que mais contribuem para o adoecimento mental no cárcere, Glaucia cita a saudade dos filhos e a insegurança sobre o bem-estar deles. Outros motivos são a falta de ar livre, visto que em algumas prisões há apenas duas horas de sol por semana, a ausência de atividades e lazer e a falta de perspectiva sobre o futuro.

Mireille também relata a dificuldade de precisar demonstrar força o tempo inteiro dentro da prisão, sem poder ser ela mesma. Glaucia destaca como essa questão é central no processo terapêutico e na construção de confiança, ter alguém com quem seja possível falar, demonstrar vulnerabilidade e expressar sentimentos sem medo de represálias.

A psicóloga afirma que os resultados do projeto com terapia psicossocial mostraram redução significativa dos sintomas psíquicos, mesmo em uma intervenção breve, pensada para funcionar dentro das limitações do sistema prisional. Para ela, isso demonstra a importância de cuidar da saúde mental das pessoas detentas. “Se a gente não cuidar da saúde mental das pessoas privadas de liberdade, também não cuidamos da segurança pública”.

A legislação brasileira, por meio da Lei de Execução Penal (LEP — Lei nº 7.210/1984), estabelece a assistência psicológica como um direito fundamental da pessoa presa e como parte da equipe técnica necessária para o funcionamento das unidades prisionais. No entanto, a legislação nem sempre é aplicada na prática.

Segundo a base de dados do Sistema Nacional de Políticas Penais referente ao segundo semestre de 2025, a Cadeia Pública Hildebrando de Souza, em Ponta Grossa, não possui psicólogos, apesar de contar com sala para atendimentos multiprofissionais, que incluem a psicologia. Já a Penitenciária Estadual de Ponta Grossa possui um profissional de psicologia, assim como a Unidade de Progressão PEPG-UP.

Esta reportagem integra uma coletânea de livro-reportagem. Este capítulo trata sobre como o cárcere afeta a saúde mental das detentas. Leia o capítulo anterior aqui. Acompanhe no Periódico as próximas publicações.

 

Ficha técnica

Produção: Pietra Gasparini

Supervisão de produção: Janaíne Kronbauer

Edição e publicação: Luiz Cruz, Natalia Almeida e Roberto Indzejczak

Supervisão de publicação: Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado

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