Foto: Ingrid Muller
A cidade desperta antes do sol. Às seis da manhã, quando a luz ainda hesita entre o azul e o dourado, Ponta Grossa revela seus contornos silenciosos. As ruas vazias deixam ver aquilo que, na correria do dia, passa despercebido: as camadas de tempo que convivem sobre o mesmo chão. Em meio aos prédios modernos, fachadas comerciais e fluxos apressados, sobrevivem estruturas que lembram que a cidade não nasceu ontem. É nesse intervalo entre o presente e o que insiste em permanecer que a memória se instala, não como nostalgia, mas como testemunho.
A Mansão Vila Hilda é uma dessas presenças que impõem o olhar. Situada no coração da cidade, o casarão ergue-se como se carregasse um segredo. A arquitetura, marcada pelas influências do neoclássico francês e do art-nouveau, faz contraste com o tráfego cotidiano. Quem passa pela calçada talvez veja apenas uma casa antiga, mas ali repousa uma história que começou a ser escrita em 1926, quando Ponta Grossa se transformava sob os trilhos da ferrovia.
Em 1926, a cidade experimentava um tipo de crescimento que misturava ambição e promessa. A ferrovia havia ampliado as conexões comerciais e trazido movimento às ruas, mercadorias aos armazéns, trabalhadores às estações. O progresso, tão celebrado nos discursos da época, se traduzia também nas construções, e a Mansão Vila Hilda nasceu exatamente nesse contexto. Construída por Alberto Thielen, industrial ligado à Companhia Cervejaria Adriática, a residência homenageia sua esposa, Hilda, e seguia um costume elegante da época: batizar mansões com o termo “villa”, residências com jardins, refinamento e modernidade.
Mas não era apenas uma casa. Seus dois pavimentos, os afrescos do alemão Paulo Wagner, os detalhes em madeira e o pé direito monumental revelavam um desejo estético incomum para o interior do Paraná. A mansão projetava, em sua estrutura, a imagem de uma Ponta Grossa que queria parecer grande, conectada ao mundo, parte de um Brasil que ensaiava sua própria modernidade.
Décadas depois, o casarão continuaria a acumular funções e histórias. Já abrigou a biblioteca pública, já foi sede administrativa da Fundação Municipal de Cultura e, desde 1990, é reconhecido como Patrimônio Cultural do Paraná. Hoje integra um complexo dedicado à preservação da história local. Ao lado, funciona a Casa da Memória Paraná, espaço que reúne fotografias, jornais, documentos e arquivos capazes de revelar outros tempos da cidade e que será aprofundado em outras reportagens. Ali, um acervo amplo registra as transformações urbanas, sociais e culturais do século XX, e captura mudanças que o cotidiano não percebe enquanto acontecem.
A casa abriga também a Escolinha do Patrimônio, um projeto que aproxima moradores, especialmente crianças, da história local. Livros, maquetes, objetos antigos e atividades educativas ajudam a explicar, de forma acessível, como Ponta Grossa se formou.. Para o secretário de Cultura, Alberto Portugal, o objetivo é simples, mas profundo. Ele afirma: “Queremos fazer com que a população frequente o espaço e reconheça, nele, parte de sua própria trajetória.”
O Dia de Cultura de Ponta Grossa, realizado pela Secretaria Municipal de Cultura em 4 de março de 2026, promoveu uma imersão nos espaços que hoje preservam parte essencial da memória dos Campos Gerais. A atividade, que apresentou alguns dos principais patrimônios culturais da cidade, inspirou diretamente a produção desta série de reportagens. Ao visitar esses lugares, é possível observar a riqueza da cultura ponta-grossense. Contar a história desses ambientes, é lembrar para nunca esquecer.
Na Mansão Vila Hilda, o responsável por contar a história do casarão foi o roteirista Vinícius Alves, que contextualizou o período em que Ponta Grossa vivenciava transformações profundas em sua organização urbana, social e cultural.
O fantasma da Mansão Vila Hilda

Foto: Arquivo Ponta Grossa Histórica
A Mansão Vila Hilda, em especial, carrega ainda um elemento que ultrapassa os limites da história oficial: o imaginário popular. Em 1999, a então Editel, empresa responsável pelas listas telefônicas da região dos Campos Gerais, solicitou autorização da Prefeitura de Ponta Grossa para fotografar o casarão e utilizá-lo como imagem de capa da edição daquele ano. O registro seria feito à noite e, como não havia expediente no local naquele horário, duas funcionárias acompanharam a equipe, uma delas ao lado do filho. Após a preparação dos equipamentos e da iluminação, a fotografia foi realizada.
Quando a imagem foi revelada, em uma época em que ainda não era possível visualizar o resultado instantaneamente, surgiu um detalhe inesperado: no vidro da porta principal, aparecia um rosto. A figura rapidamente despertou curiosidade e alimentou rumores antigos sobre a presença de um fantasma na mansão. Como milhares de exemplares da lista telefônica circularam pela cidade e região, a história se espalhou com rapidez, transformando o chamado “Fantasma da Villa Hilda” em uma das lendas urbanas mais conhecidas de Ponta Grossa.
Desde então, o casarão passou a atrair curiosos e equipes de investigação paranormal de diferentes partes do país. No sótão da mansão, grupos de “caça-fantasmas” realizaram visitas em busca de confirmar ou desmentir os relatos. Na internet, ainda circulam matérias e depoimentos de pessoas que afirmam ter ouvido passos, vozes, sons de piano e até visto vultos nos corredores.
Moradora de Ponta Grossa há 30 anos, Fernanda Coelli relata ter passado em frente à casa durante a noite e visto um vulto na janela da frente. “Eu e minha amiga estávamos voltando de uma festa. Depois daquele dia, nunca mais passei por aquela rua à noite”.
Alguns dizem ouvir passos, sussurros, até toque de piano. Outros garantem que a figura nada mais era do que o filho de uma zeladora, presente no dia do registro. Mas, como toda boa história, o mistério permanece. E talvez seja justamente entre mito e realidade que a memória encontra terreno fértil.
Afinal, a cidade também se conta por meio das narrativas que inventa, das lendas e das dúvidas que prefere não resolver. A série nasce do impulso de compreender como espaços culturais ajudam a contar a história de Ponta Grossa. Cada um, à sua maneira, guarda fragmentos de um tempo que insiste em sobreviver. Cada um ilumina um trecho da cidade que fomos, da cidade que ainda somos.
“Onde nasce a memória de Ponta Grossa?” é a pergunta que inicia a investigação. Cada parede, cada arquivo e cada fotografia será uma pista. Porque, no fundo, contar a história de espaços históricos é lembrar para nunca esquecer.
Esta reportagem integra uma coletânea de livro-reportagem investigativo. Este capítulo trata da Mansão Vila Hilda. Acompanhe no Periódico as próximas publicações.
Ficha técnica
Produção: Ingrid Muller
Supervisão de produção: Hendryo André
Edição e publicação: Eduarda Leal e Pietra Gasparini
Supervisão de publicação: Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado
