Um recorte da história de Mille, que hoje está em liberdade provisória e pretende recomeçar
Foto: Pietra Gasparini / Ilustração: Giulia Gasparini
Mireille Letícia Ishimaru, ou Mille, 32 anos, nascida em Imbaú, no interior do Paraná, começa sua história com o encarceramento, assim como muitas mulheres, em um relacionamento abusivo. Sua primeira privação de liberdade foi o cárcere privado, em que foi mantida por seu marido.
Mille tinha 21 anos quando se casou. Trabalhava com panificação e já era mãe de um filho de outro relacionamento. Dois anos depois, teve uma filha. O casamento nunca foi fácil, mas ela tinha medo de não conseguir sustentar os filhos sozinha e, por isso, foi “perdoando algumas atitudes”.
A rotina nessa época era exaustiva. Saía de casa às 6h30 da manhã e voltava às 20h30. Com o trabalho, casa e filhos, não tinha tempo para refletir sobre o comportamento do ex- marido. Ele era ciumento, mas ela não entendia a dimensão disso. Ele tinha problemas com álcool e começou a usar drogas. Foi quando ela tentou terminar pela primeira vez e foi agredida psicológica e fisicamente.
“Quando eu descobri que ele estava traficando, decidi que nunca mais ficaria com ele. Ele não aceitou. Queria me matar, tentou deformar meu rosto, mordeu minhas bochechas, minha boca, meu nariz. Tentou me estrangular, repetidas vezes tentou me matar”.
A violência aumentou a ponto de Mille ser mantida em cárcere privado para não fugir da casa. Ficou três dias presa. “Ele me trancava no quarto, deixava o rádio explodindo. E eu, fraca de tanto brigar para tentar fugir. A obsessão dele era: ‘eu te solto, mas você tem que me perdoar e prometer que vai voltar’”.
A polícia foi até sua casa por conta de uma bicicleta roubada, que havia sido entregue ao marido para quitar dívidas com drogas. “A polícia invadiu minha casa, viu o meu estado, toda machucada, toda roxa, com marcas no corpo inteiro, e me levou presa por ser mulher dele”. Seu marido fugiu pela janela e deixou as drogas. Mille afirma que o depoimento do homem que roubou a bicicleta deixou claro que não havia qualquer relação com ela, que nunca a tinha visto, mas, ainda assim, ela foi presa.
O cárcere
A primeira detenção aconteceu em Tibagi, em uma cela com apenas duas mulheres, sob custódia de policiais homens. Um mês depois, foi transferida para Jaguariaíva, onde ficava em uma ala feminina atendida por policiais mulheres. Foi nesse período que começou a observar o sistema por dentro. “Nem todo mundo que está preso é culpado, como nem todo culpado está preso”.
Ela percebeu, também, o abandono. Segundo Mille, dentro da cadeia, quem recebe visitas, comida ou apoio da família ocupa um lugar privilegiado. “Isso é riqueza lá dentro.” E ela tinha esse privilégio.
Mille tinha muita raiva e revolta. “Meu coração só desejava vingança do meu ex-marido. Minha filha ficou com gaguez do choque emocional. Meu filho gritava pra minha mãe: ‘vó, vão matar minha mãe, vão matar ela’. E doía tanto no meu coração, porque os filhos de uma mãe são uma arma que pode ferir mais do que qualquer coisa”. Ao mesmo tempo, ela se culpava e pensava que havia escolhido estar ao lado dele.
Em 2020, após cinco meses presa, foi solta por excesso de prazo da audiência. Retomou a vida, se mudou para Palmeira, começou a trabalhar em uma churrascaria e tinha um acordo com uma agência para trabalhar no Japão, onde tem familiares. A ideia era guardar dinheiro, ajudar a família e voltar ao Brasil. Porém, ao dar entrada no visto, descobriu que havia um mandado de prisão em seu nome. Seu ex-marido havia recorrido da sentença contra ele. Por ela estar ligada ao mesmo caso, o seu processo também foi reaberto e subiu para segunda instância. No dia 4 de outubro de 2022, foi presa novamente.
Dessa vez, passou por Telêmaco Borba e depois foi transferida para a Cadeia Pública de Sengés (CPSENG). Lá havia sete celas femininas, duas de triagem e cinco de convívio. A triagem, nos primeiros 30 dias, foi tranquila. Depois, foi transferida para uma cela de convívio, onde estavam 16 presas, e a realidade mudou. “Quando eu entrei lá dentro, conheci o inferno. O inferno em todos os caracteres, tanto dos presos quanto dos policiais e da opressão do sistema. Ali eu passei os piores meses da minha vida”.
Ela descreve um ambiente de tensão constante entre as presas e opressão institucional. Havia hierarquias entre as presas, organizadas por figuras conhecidas como “jet”, responsáveis pela ordem dentro de cada cela. “Você não podia dormir tranquilo. Estava dormindo com o teu inimigo”. Ainda assim, Mille insistia no diálogo para tentar resolver os conflitos. “Não dá para ter medo, senão eles se aproveitam de você. Se a pessoa for fraca, sofre mais ainda”.
Toda semana, o Setor de Operações Especiais, responsável pelas revistas nas cadeias, entrava e as violentava, jogando spray de pimenta, bombas e expondo as detentas nuas no pátio. Mille relata que foi agredida por um policial, que a levou escondida para fora da cela e a espancou com uma arma.
Ela conta que lutava contra o sistema sozinha. Quando estava machucada, pediu uma videoconferência com a advogada. Mostrou os ferimentos e pediu que ela tirasse print de cada um. Solicitou denúncia por violação de direitos humanos. “Eu me sentia tratada pior do que um animal”. Depois disso, afirma que sua situação piorou. “A polícia fez muitas detentas ficarem contra mim”.
Também relata ter sido dopada com medicamentos psicotrópicos. “Eu cheguei a tomar tanto remédio que hoje eu não vivo sem. Se eu fico sem, tenho tremedeira, como uma pessoa dependente de álcool. Eu me tornei dependente”.
As condições estruturais da unidade agravaram seus problemas respiratórios. A cadeia era subterrânea, com mofo e umidade. Ela não podia recusar o atendimento médico, pois não podia ficar sem os medicamentos, embora a prescrição fosse em excesso.
Quando reclamou à advogada, reduziram a medicação não só dela, mas de todas as detentas, inclusive de quem realmente precisava. Isso gerou revolta. “Eles usavam os próprios presos para punir uns aos outros”.
A consulta médica acontecia apenas uma vez por mês. Fora da data, não importa o que acontecesse, não havia assistência. Ela conta que uma vez uma menina foi picada por uma aranha e quase perdeu o braço por necrose. “Pedimos e avisamos sobre o estado dela, mas ninguém a levava ao médico. Precisamos fazer uma rebelião. Quando eles nos soltaram no pátio para tomar sol, nos negamos a entrar até que a levassem para o hospital”. A estratégia funcionou. A detenta foi levada ao hospital e o médico que a atendeu confirmou que, por pouco, a paciente não teve o braço amputado.
A virada de chave
A experiência muda ao chegar ao Centro de Reintegração Social de Piraquara (CIS), no regime semiaberto. “Lá a gente era tratado como ser humano”. Ela conta que para ir para o CIS passou por assistente social, defensoria pública e pedagogia. A rotina lá era diferente. Mille saía cedo pra trabalhar, trabalhava até meio-dia, ia para o curso e depois voltava para o alojamento, tomava banho e ia para a escola.
Mille ficou três meses no CIS e conseguiu reduzir a sua pena para três meses com o trabalho, a realização do curso e a frequência às aulas.Com a aplicação da chamada “lei das mãezinhas”, foi liberada. No total, Mille ficou um ano e cinco meses presa, e usou tornozeleira eletrônica por oito meses
O apoio da família foi decisivo. “Lá dentro, ter família é como ser milionário.” Recebia cartas, alimentos e apoio, embora as visitas fossem difíceis. “Mais de seis meses e minha mãe não conseguiu entrar”. Via os filhos por videoconferência, uma vez por mês, durante meia hora.
Na única visita presencial que teve dos filhos, conta como foi difícil vê-los passarem por aquilo. “Minha filha, na hora de ir embora, falou: ‘eu vou pedir pra eles, mãe, para levar você para casa’” . Crianças passavam por revista íntima, pela falta de scanners corporais. Isso a fazia evitar visitas presenciais, para poupá-los.
Nesse contexto, Mille refletiu sobre o encarceramento feminino. “A maioria das mulheres entra nessa por causa de homem. Assumem o B.O. de homem e ele abandona. Você vai numa cadeia feminina e pode contar nos dedos quantas visitas de homens têm. Numa masculina, vê quantas mulheres estão na fila?”. Ela explica que a diferença no acesso à ressocialização é muito diferente para homens e para mulheres. “Por que o homem tem um direito tão alto de ressocialização e a mulher que põe o homem no mundo não tem?”
A vontade de recomeçar
Mille trabalha desde os nove anos. Começou sendo babá na cidade em que morava. “Deixavam uma criança cuidando da outra”, relembra. Aos 12, trabalhava como boiafria. Eu era uma criança, levantava cedo para fazer marmita, subir na carroceria de um caminhão, ir trabalhar e chegar de tarde”. Perdeu o pai aos cinco anos, o que marcou profundamente sua vida. Mais tarde, enfrentou depressão e tentativas de suicídio. Também perdeu um marido e um filho.
Desde 2024, Mille vive em liberdade provisória, mas ainda sob restrições legais. Precisa comparecer periodicamente ao fórum e não pode se ausentar da cidade por mais de 15 dias sem autorização judicial.
Hoje, enfrenta outro luto, o do irmão, falecido recentemente. Ela trabalhava e morava junto com ele. Eram parceiros na vida. Ele era presidente de uma cooperativa onde Mille atuava como secretária administrativa e foi um dos grandes apoios enquanto ela estava na prisão.
Agora, tenta recomeçar. Pretende cursar Administração e seguir com o trabalho junto à agricultura familiar. E pretende um dia poder seguir o sonho interrompido de ir morar no Japão. Também mantém atuação política, com histórico ligado a movimentos sociais, principalmente ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e ao Partido dos Trabalhadores, além de lutar pelos direitos das mulheres em cárcere.
A história de Mille não começa nem termina na prisão.
Esta reportagem integra uma coletânea de livro-reportagem. Este capítulo trata da história de Mireille Leticia Ishimaru, que atualmente responde em liberdade provisória. Acompanhe no Periódico as próximas publicações.
Ficha técnica
Produção: Pietra Gasparini
Supervisão de produção: Janaíne Kronbauer
Edição e publicação: Emanueli Garcia, Giulia Neves, Ticyane Almeida e Lorena Santana
Supervisão de publicação: Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado
