75% das trabalhadoras domésticas não têm carteira assinada
Em 2026, ainda existe a associação dos trabalhos domésticos às mulheres. Cuidar da casa e dos familiares ainda são vistos como atividades inerentes ao gênero feminino. Apesar da luta do movimento feminista, principalmente desde a década de 1970, que visava a exigência de remuneração diante do trabalho doméstico e romper com a imposição às mulheres, movimentos atuais da internet pregam o trabalho de cuidadora familiar de forma romantizada, sem considerar dificuldades e problemas
O movimento das “tradwives” (abreviação de esposas tradicionais, do inglês) ganhou visibilidade nas redes sociais por meio de influenciadoras que romantizam a rotina doméstica e a dedicação exclusiva à família. São quase 230 mil posts somados com a hashtag no Instagram e no Tiktok. Por meio de fotos e vídeos curtos, as influenciadoras romantizam e incentivam mulheres a serem donas de casa e submissas a seus maridos. Os conteúdos são produzidos dentro de grandes casas, com fartura e preocupação estética, o que associa o trabalho de cuidado à riqueza e valores tradicionais.
No entanto, ao observar a classe social das principais influenciadoras do movimento no mundo, percebe-se a posição privilegiada econômica e socialmente. Nara Smith e Hannah Neeleman, grandes nomes do movimento das tradwives, são milionárias. Elas faturam com a própria monetização das redes sociais e possuem redes de apoio (como empregadas e babás) que não aparecem nos vídeos editados. Essa parte oculta da história leva o público a uma outra visãodo trabalho de cuidado, influenciando pessoas de classes mais baixas a almejar a mesma realidade.
No entanto, sem as condições privilegiadas iguais às das influenciadoras, o cuidar torna-se uma tarefa complicada, difícil de romantizar. Nicoly Sedlak (19) e Terezinha Maciel (61) são duas cuidadoras. Além do trabalho árduo e pouco reconhecido, elas não tiveram rede de apoio, diferente do que é mostrado nas redes sociais. Terezinha foi a única responsável por seu pai, Juarez Maciel, durante dois anos. A mesma realidade se aplica a Nicoly que, apesar de estar em uma família grande, é a única responsável por sua bisavó, Anastacia Sutil.
As duas cuidadoras expõem as dificuldades de realizar todas as tarefas diárias sozinhas. “Nenhum dos meus irmãos quis ajudar a cuidar do meu pai, jogaram todo o trabalho em cima de uma pessoa só”, relata Terezinha. Além dos cuidados com o pai, Terezinha era responsável pelas tarefas domésticas de casa. “Tenho uma família grande que poderia se dividir para cuidar, mas cada vez mais as obrigações recaem sobre mim”, lamenta Nicoly. A jovem está no início da fase adulta e tenta equilibrar os cuidados com trabalho e estudos.
O que é visto na internet como “tradição” e “bons valores” é, na realidade, um trabalho exaustivo. Todas as entrevistadas são exemplos de como o senso de obrigação está presente nessa problemática. “Era difícil, mas não havia outra pessoa disponível, tinha que ser eu”, relata Alesandra Machado, outra cuidadora, que era a principal responsável pela saúde de sua sogra, Silvia de Freitas, e pela criação de três filhos. Adriana Lara, que passou a maior parte da vida cuidando de parentes enfermos, relata a mesma experiência. “O senso de responsabilidade nos faz esquecermos de nós mesmas”, afirma.
Todas as cuidadoras foram impactadas de forma negativa pelo trabalho de cuidado, diferente do mostrado nas redes sociais pelo movimento de “esposas tradicionais”. Michele Buss, cuidadora de sua mãe, Zilpha Carvalho, desabafa sobre as dificuldades desse trabalho. “Foi a coisa mais difícil que tive que fazer na vida”. As entrevistadas relatam impactos econômicos, sociais e na saúde, principalmente a mental. “Quando eu tinha que cuidar, eu não pensava nas minhas emoções, senti tudo depois que as minhas responsabilidades acabaram”, diz Adriana.
A romantização do trabalho de cuidado pode ser usada como uma forma de opressão das cuidadoras. O esforço diário contínuo é visto como “amor” e “dever maternal”. Na internet, é associado à estética, com casas e roupas arrumadas. É o caso de Adriana, Alesandra, Terezinha, Michele e Nicoly, todas cuidadoras brasileiras que nunca receberam remuneração pelo trabalho de cuidar e sofrem com os danos causados pelo esforço contínuo.
O discurso a favor da submissão do gênero feminino e que reforça o trabalho de cuidado a elas prejudica todas as mulheres, não apenas as cuidadoras. O trabalho doméstico árduo, visto como obrigação e amor, submete as mulheres à dupla jornada e relações familiares não saudáveis. “É um abuso deixar todas as responsabilidades para uma pessoa só”, desabafa Terezinha. “Além de cuidadoras, temos outras funções e desejos na vida”, afirma Nicoly.
Esta reportagem integra uma coletânea do livro-reportagem. Este capítulo trata da submissão histórica do trabalho de cuidado às mulheres. Leia o capítulo anterior aqui. Acompanhe no Periódico as próximas publicações.
Ficha técnica
Produção: Amanda Los
Supervisão de produção: Hendryo André
Edição e publicação: Celyne Stefani e Mafe Sperafico
Edição e publicação: Luiz Cruz e Matheus de Lara
Supervisão de publicação: Aline Rosso e Muriel Emídio Pessoa do Amaral
