“Participar da economia solidária é uma transformação social do indivíduo”, afirma professor Luiz Fernando Lara atuante na IESol
Por Lucas Barbato
Na última quinta-feira, dia 3 de setembro, à tarde, foi celebrado o aniversário de 21 anos da Incubadora de Empreendimentos Solidários (IESOL), Programa de Extensão da Universidade Estadual de Ponta Grossa. O evento ocorreu no grande auditório do campus central e foi promovido em parceria com o Programa de Formação do Estudante Empreendedor, o (PFEE). o. A mesa-redonda debateu o tema “Construindo alternativas para um desenvolvimento mais sustentável e inclusivo”, com discussões sobre economia social, economia solidária, empreendedorismo, sustentabilidade e inclusão.
Participaram da mesa de abertura a coordenadora da IESol , professora Reidy Moreira de Moura, a coordenadora do Programa de Formação do Estudante Empreendedor (PFEE), professora Silmara Carneiro Silva, a diretora de Ações Afirmativas e Diversidade, Iomara Favoreto, representando a Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE), a diretora do Setor de Ciências Sociais Aplicadas, Sandra Maria Scheffer, da vice-reitora da UEPG, Adriana de Fátima Pilatti Ferreira Campagnoli e o integrante dos grupos incubados pela IESol, Ricardo Botelho Luz.
Cada participante trouxe sua percepção sobre empreendedorismo, empreendimentos solidários e economia solidária, além de destacar os 21 anos de atuação da IESol com uma atuação fundamental para o desenvolvimento regional. A coordenadora da IESol, Reidy Moreira de Moura, destacou que a união entre os empreendimentos solidários e o Programa de Formação do Estudante Empreendedor oportuniza o fortalecimento mútuo, além de contribuir para a reflexão crítica na formação dos alunos, tendo como base os princípios da economia solidária.
Segundo a coordenadora, a IESol foi criada na UEPG em 2005, por meio da Resolução nº 7.105, de 27 de setembro. “Foi uma luta árdua de pessoas que acreditaram na proposta da economia solidária, como vinha acontecendo no país como um todo. Desde então, a IESol vem se firmando como um espaço fundamental de diálogo e de construção coletiva entre universidade e sociedade”, afirmou.
Ela completou ainda que a incubadora tem sido um importante espaço de fomento à permanência estudantil. “Na medida em que temos várias bolsas de extensão e de pesquisa vinculadas ao nosso programa, garantimos que o aluno permaneça na universidade”, concluiu.
Para a coordenadora do Programa de Formação do Estudante Empreendedor, professora Silmara Carneiro Silva, a bolsa empreendedora é a maior bolsa de permanência estudantil da UEPG. “Ela representa, sim, esse apoio financeiro para que possamos participar ativamente da universidade, mas, mais do que isso, representa possibilidades de novas oportunidades e de reorganização dentro do espaço acadêmico”, destacou.
Segundo ela, o encontro presencial garante um momento de troca e de partilha de saberes. “Quando pensamos no empreendedorismo que está dentro do nosso programa, a primeira coisa que refletimos é: em que perspectiva queremos empreender? No nosso entendimento, não há como pensar em empreender sem pensar de maneira inclusiva, solidária e sustentável”, afirmou.
Silmara ressaltou ainda que essa é a essência do evento e a missão da universidade pública. “Isso que está colocado aqui é o coração do trabalho desenvolvido pela IESol e também é a missão de uma universidade pública: pensar a inclusão social, a sustentabilidade e a possibilidade de uma ação coletiva. Que possamos empreender muito, mas empreender de forma coletiva e colaborativa”, finalizou.
A diretora de Ações Afirmativas e Diversidade, Iomara Favoreto, informou que foram ofertadas 268 bolsas de permanência para o Programa de Formação do Estudante Empreendedor e a trajetória da IESOL reforça a dimensão alcançada pelo programa. “A IESol, nesses 21 anos abraçou a comunidade. Nasceu simples e hoje abraça quantos acadêmicos, quantas comunidades, quantas associações. Isso faz toda a diferença em uma universidade pública, que ultrapassa os muros da universidade”, afirmou.
A fala da diretora do Setor de Ciências Sociais Aplicadas, Sandra Maria Scheffer, destacou que a IESol é pautada em valores. “O tempo todo é como se a equipe da IESol se avaliasse para conduzir o trabalho dentro desses valores”, destacou. Segundo ela, a coletividade é a base de tudo. “Tudo é discutido em conjunto, tudo é planejado, realizado, pensado e executado dentro de um coletivo. E, dentro do planejamento, sempre é levantado o aspecto do desenvolvimento sustentável, da inclusividade, sempre pensando na participação coletiva e na solidariedade”, completou.
Segundo a vice-reitora, Adriana de Fátima Pilatti Ferreira Campagnol, a IESol é um dos maiores programas extensionistas da UEPG. “Parabéns à IESol por incubar, por fomentar, por organizar empreendimentos de economia solidária em Ponta Grossa e região, por meio da formação contínua e da própria experiência com grupos de trabalhadores de diversas áreas, como reciclagem, artesanato e agricultura”, destacou. Ela parabenizou ainda os empreendedores incubados.
Representando os grupos incubados, Ricardo Botelho Luz afirmou ser uma satisfação estar no evento. “Quero agradecer à IESol por proporcionar formação aos integrantes e também aos estagiários, que estão sempre acompanhando todo o processo. Essa sensação de pertencimento ao grupo acontece de forma coletiva. Os valores da economia solidária são muito valiosos para a sociedade”, disse.
ABERTURA DO SEGUNDO BLOCO – MESA-REDONDA:
Na sequência, o evento seguiu com a mesa-redonda “Construindo alternativas para um desenvolvimento mais sustentável e inclusivo: práticas e reflexões nos 21 anos de atuação da IESol”. Com os convidados, professor e doutor Luiz Fernando Lara, o mestre em Psicologia Luis Felipe Ferro e o psicólogo e doutorando em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Diego de Castro.
O professor Luiz Fernando Lara, atuante na IESol, iniciou sua apresentação provocando uma reflexão sobre a relação entre empreendedorismo e economia solidária. “Precisamos refletir que sociedade estamos construindo nas nossas formas de produzir, de consumir, de trabalhar, de descartar e de conviver”, afirmou.
Segundo ele, a lógica capitalista se baseia na destruição. “Se formos ver dentro da perspectiva capitalista, há um aspecto de destruir os recursos naturais, de se apropriar desses recursos para transformá-los em produtos para o mercado. É preciso pensar como a economia vai organizar as relações sociais e como a organização econômica precisa responder a isso”. Lara explicou ainda a diferença entre trabalho na economia solidária e o emprego formal. “Quando a gente fala em economia solidária, a gente fala em trabalho e renda, porque emprego pressupõe que você não é dono. Na economia solidária, não temos essa função”, destacou.
Ao diferenciar os conceitos, ele completou: “Desenvolvimento sustentável é diferente de sustentabilidade. Desenvolvimento sustentável procura conciliar desenvolvimento econômico, justiça social e preservação ambiental. Pressupõe atender às necessidades atuais sem comprometer as necessidades futuras. Já a sustentabilidade é mais ampla, porque envolve a capacidade de manter relações sociais, econômicas e ambientais a longo prazo”.
Para o psicólogo Diego de Castro, a economia solidária surge como uma alternativa. “Conheci a economia solidária há bastante tempo, em Curitiba, quando ainda morava em uma região de ocupação. Eu participava do movimento de luta por moradia desde criança e lá eles me ensinaram muito sobre comunhão, sobre a importância de entendermos quem nós somos e por que estamos aqui”, relembrou.
De escola pública à universidade, o contato com o tema se aprofundou na extensão. “Sempre estudei em escola pública, entrei na universidade e tive a oportunidade de conhecer a Incubadora de Economia Solidária da PUC Paraná. Ali, fui extensionista e, nesse processo, fui entender mais sobre gestão e autonomia. Depois, fiz o mestrado para estudar a psicologia social e a economia solidária”, contou. A experiência resultou em um projeto próprio. “Desse movimento de estudos, indo e voltando, surgiu a ideia de criar um espaço que democratize o acesso ao cuidado, que é tão importante para prestar serviços à comunidade”, finalizou.
Para o psicólogo Luis Felipe Ferro, a relação entre os dois campos é direta. “Eu trabalho com a saúde mental desde sempre, esse é meu primeiro campo de atuação, e a economia solidária é um braço de inclusão social pelo trabalho no campo da saúde mental”, explicou. Ele relembrou o início da articulação da rede. “Em 2016, congregamos várias agências de saúde mental como estratégia para fazer um curso sobre o tema e várias pessoas se sensibilizaram. A partir disso, articulamos essa rede e começaram a surgir vários CAPS na economia solidária na região de Curitiba e Região Metropolitana”, disse.
Segundo Luís Felipe , o trabalho é essencialmente coletivo. “O que a gente faz é coletivamente, não tem uma instituição que consegue abraçar tudo . Temos várias parcerias, vários CAPS, Centros POPs que estão envolvidos e trabalham juntos com a população em situação de rua, desde acolhimentos. Os CRAS de vários municípios estão todos juntos, com empreendimentos solidários, instituições e universidades parceiras que constroem essas ações. Tudo é fruto de um trabalho coletivo”, finalizou.
A estagiária da IESol Juliana Krol, disse que conduzir a cerimônia de 21 anos foi uma experiência marcante. “Foi muito legal. Quando a gente olha que está tendo um evento aqui no Grande Auditório, não percebe que tem uma construção enorme por trás disso”.
O evento em comemoração aos 21 anos da Incubadora de Empreendimentos Solidários (IESol) reuniu empreendedores, professores, estudantes, estagiários e convidados.
