Redes sociais e epidemia “de Covid-19” mudaram o comportamento público do leitor
Foto: Emilly Paitch
Nos últimos anos, o mercado editorial brasileiro viveu uma montanha-russa de comportamentos. Por um lado o país enfrenta desafios históricos com a queda no número de leitores desde 2008, por outro, o período de isolamento social trouxe a redescoberta do livro como refúgio e passatempo. Segundo dados da Câmara Brasileira do Livro (CBL), o setor de “Obras Gerais” (ficção e não-ficção) registrou um crescimento de 30% em volume de livros vendidos em 2021, o que consolida uma mudança nos hábitos de consumo que continua até hoje.
Esse crescimento foi impulsionado, também, por novas formas digitais de acesso à leitura. De acordo com o estudo “Influência do BookTok no comportamento do consumidor”, de Anne Vitória Gomes e Alan César Belo Angeluci, da Universidade de São Paulo (USP), o TikTok consolidou-se como uma das principais plataformas de descoberta, recomendação e divulgação de livros. A hashtag #BookTok acumula bilhões de visualizações e tem transformado a forma como os jovens escolhem suas leituras, por meio de resenhas curtas, indicações e da chamada “fofoca literária” que impulsiona obras, inclusive, lançadas há anos.
Além das redes sociais, os clubes de assinatura tornaram-se pilares de sustentação para leitores assíduos. A TAG Livros viu sua comunidade se fortalecer ao disponibilizar uma experiência de curadoria exclusiva. Para a assinante Érica Dias, o que começou em 2017 como curiosidade tornou-se um hábito indispensável: “A proposta era uma comunidade exclusiva, onde você recebia um livro surpresa. A maior parte deles eu não teria escolhido numa prateleira, e muitos me surpreenderam positivamente”, conta.
Érica destaca que, embora o fator financeiro seja um desafio, levando leitores a escolherem entre modalidades como “Curadoria” ou “Inéditos” por questões de espaço e orçamento, a proposta do clube é um forte convite ao retorno ao hábito literário.
Outra iniciativa que reforça a democratização do acesso à leitura é a plataforma do Ministério da Educação, que lançou a biblioteca digital “MEC Livros”. O serviço disponibiliza gratuitamente cerca de 7 mil títulos em formato digital, ampliando o acesso para leitores em todo o país, especialmente aqueles que enfrentam limitações financeiras ou geográficas.
O movimento de aproximação com os livros também pode ser observado em iniciativas comunitárias. No projeto Bando da Leitura, coordenado pela pedagoga Lucélia de Cássia Clarindo, o empenho pela leitura se manteve no período pós-pandemia, especialmente entre o público infantil. “O interesse continuou principalmente porque o público é formado mais por crianças, mas também houve aumento na procura por empréstimos pelos idosos”, relata.
O projeto atua na formação de leitores por meio de encontros semanais com crianças e atividades mensais voltadas para mulheres e idosos. Entre as ações desenvolvidas estão rodas de leitura, contação de histórias, mediação literária, encontros intergeracionais e lançamentos de livros. “Toda sexta-feira promovemos tardes de contação de histórias e mediação de leitura, além dos encontros mensais do Bando Mulheres e Bando Saudade”, explica a coordenadora.
Para Lucélia, espaços comunitários como esse são fundamentais para democratizar o acesso à cultura. “Eles são muito necessários. Como ficam nos bairros, facilitam a frequência e fortalecem o movimento cultural local”, afirma. Apesar disso, o projeto enfrenta desafios estruturais, como a manutenção do espaço, custos com organização e logística, além do transporte para levar participantes de outras instituições. Ainda assim, a pedagoga destaca o interesse do público: “estamos sempre com o quintal repleto de leitores e pessoas ávidas em participar de atividades artísticas e literárias”.
Apesar do otimismo com o aumento das vendas e do engajamento digital, especialistas acendem um alerta sobre a qualidade da leitura. A psicóloga Ana Cristina Defino explica que a leitura pode atuar como uma aliada importante da saúde mental. “A leitura vai agir como uma proteção da nossa saúde mental. Além de desenvolver inteligência emocional para lidar com as dificuldades do dia a dia, ela também reduz o estresse e melhora nossas funções executivas “, ressalta. Segundo a especialista, as funções ligadas ao córtex pré-frontal envolvem habilidades como planejamento, memória, controle inibitório e flexibilidade cognitiva. “A leitura ajuda em tudo isso, contribuindo para a nossa adaptação em diferentes situações e comportamentos”, destaca.
A psicóloga também aponta que o hábito de ler funciona como uma pausa necessária diante da sobrecarga mental. “Nós dizemos que a leitura traz uma fuga saudável da realidade. Quando estamos estressados, buscamos coisas que nos tirem daquele momento, e a leitura é uma delas. Ela acalma, faz o cérebro parar, pensar e respirar, dando tempo para tomar decisões”, afirma. Para Defino, o desafio atual é equilibrar o uso da tecnologia: “Cuidar para que o tempo ocioso não seja só de tela é um trabalho dos adultos. Memória, atenção e raciocínio lógico dependem desse equilíbrio”.
O Brasil lida com dados de perda de leitores em massa em 2024 (conforme a 6ª edição do Retratos de Leitura), nichos impulsionados pelo digital mostram que o interesse pela literatura está em transformação. O aumento da leitura na pandemia, citado pelo portal Arte no Sul, demonstra que o livro ainda é uma ferramenta essencial de compreensão do mundo. O desafio agora, é transformar o “hype” passageiro das redes sociais em um hábito sólido que sobreviva à aceleração digital e às barreiras da desigualdade de acesso.
Esta reportagem integra uma coletânea de livro-reportagem. Este capítulo trata sobre o aumento de leituras em Booktook na pandemia e o crescimento nas redes sociais. Leia o capítulo anterior aqui. Acompanhe no Periódico as próximas publicações.
Ficha técnica
Produção: Yasmin Aguilera
Supervisão de produção: Janaine Kronbauer
Edição e publicação: Celyne Stefani e Emilly Paitch
Supervisão de publicação: Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado
