Diferentes fases da vida em conflito

Conheça a rotina de uma jovem adulta que tenta equilibrar estudos, trabalho e o cuidado familiar

O trabalho de cuidado dificilmente é uma escolha. Em sua maioria, a responsabilidade de cuidar chega de repente e com muitas exigências. Há nove meses, essa é a realidade de Nicoly Sedlak (19), principal responsável pelos cuidados de sua bisavó, Anastacia Sutil (82). Por conta da idade e alguns problemas de saúde, Anastacia necessita de cuidados diários, que recaem totalmente sob sua bisneta. A cuidadora familiar não recebe nada pelo esforço contínuo e sofre com a falta de reconhecimento do trabalho.

Nicoly é uma jovem estudante que está em busca de construir seu futuro. Ela cursa Jornalismo, de forma remota, em uma universidade particular de Ponta Grossa e trabalha como vendedora em um shopping da cidade. Além de suas obrigações do início da vida adulta, desde dezembro de 2025, a bisneta passou a morar com a bisavó e dedicou todo seu tempo livre a ela. 

Anastacia começou a apresentar sinais de perda de memória na metade do ano e, no começo de 2026, teve um acidente vascular cerebral (AVC), o que debilitou sua força e movimentos. Ela possui dificuldade em realizar tarefas do dia a dia, como tomar os medicamentos de forma correta e realizar os afazeres domésticos. Na época, Nicoly se ofereceu para cuidar da bisavó até que a família encontrasse uma cuidadora profissional, o que não aconteceu até o momento da entrevista, quase oito meses depois.

“Depois que a nossa família viu que eu dava conta, eu me tornei cuidadora permanente e as responsabilidades aumentaram”, relata. Segundo a bisneta, o combinado inicial com o restante da família era que ela apenas tomaria conta da ministração dos remédios de Anastacia, para que ela não esquecesse de tomar ou tomasse além do recomendado. Após alguns meses, a jovem cuidadora se mudou para a casa da bisavó e as tarefas aumentaram, incluindo o acompanhamento nas consultas médicas e os afazeres domésticos. Além da bisneta, o neto de Anastacia, tio de Nicoly, também mora com a avó, ele é professor e doutorando. Na rotina de amparo, Nicoly precisa ministrar mais de 10 remédios diariamente para a bisavó, organizar a casa, a rotina e escrever relatórios para avaliação médica. Todas essas atividades precisam ser equilibradas com a vida pessoal da jovem, que precisa fazer muitos sacrifícios para cumprir com o dever imposto. “O problema é toda a responsabilidade ter caído sobre mim, é como se eu não tivesse direito de viver além do cuidado”. A jovem afirma sentir falta de sua própria casa e de passar tempo com os amigos e outros membros da família. “O cuidado constante que eu preciso fazer sozinha limita o tempo de quaisquer outros afazeres”. Nicoly expõe que a principal dificuldade é a falta de apoio do restante da família. “Eu gostaria de dividir essa responsabilidade com outros familiares”. De acordo com ela, a maior parte da família enxerga seu trabalho como obrigação, o que desvaloriza o tempo gasto nessa rotina. Ela afirma que essa forma de pensar também afeta sua vida. “Eu me ofereci para cuidar da minha bisavó por afeição a ela, mas boa parte do que me mantém nesse trabalho é o senso de obrigação perante ela e meus familiares”. Segundo a jovem, ela seria mal vista se desistisse do cuidado por cansaço ou pela vontade de dedicar-se a outras áreas  de sua vida.

A estudante, agora também cuidadora familiar, reconhece que sua história não é um caso isolado, mas sim a herança de uma sociedade regida pelo patriarcado e pela falta de reconhecimento do trabalho doméstico, principalmente realizado por mulheres. Mesmo que a bisavó more também com seu neto, o cuidado é responsabilidade apenas de uma das mulheres da família. Ela conta que a outra opção era que Anastacia fosse morar com a filha, mas ela é responsável pelos cuidados com a prima de Nicoly. A mãe da jovem cuidadora também já foi e é responsável por diferentes cuidados com os familiares. “É um papel hereditário, tratado como inerente às mulheres da minha família”. 

Na visão da jovem, existem algumas alternativas de cuidados com a bisavó que deveriam ser consideradas pela família. A principal seria a contratação de uma cuidadora profissional, que possui formação na área, experiência profissional e seria remunerada pelo trabalho. “Meu trabalho começou provisoriamente e agora sou cobrada todos os dias e tenho cada vez mais responsabilidades”.

 O que era para ser uma ajuda temporária, tornou-se obrigação. De acordo com a entrevistada, não foi por falta de recursos financeiros que a família não contratou uma cuidadora, mas sim porque se acostumaram a atribuir o cuidado à bisneta, mesmo que isso signifique mudar toda a sua rotina. “Sinto que a minha vida fora do cuidado é desconsiderada”.

 

Ficha técnica

 

Produção: Amanda Los

Edição e publicação: Lucas Barbato, Maria Eduarda Leme, Natália Almeida, Roberto Indzejczak, e Yasmin Aguilera

Supervisão de produção: Hendryo André

Supervisão de publicação: Aline Rosso e Muriel Emídio Amaral

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