O corpo feminino na performance

Lilly Orchid enfrenta assédio e preconceito nos palcos da cena drag em Ponta Grossa

Foto: João Pimentel

 

Giovana Fonseca, 26 anos, curitibana residente em Ponta Grossa, é quem dá vida a drag Lilly Orchid há mais de quatro anos. Mesmo de subir ao palco, sua existência já provoca questionamentos. Em um mundo onde a maquiagem é imposta como um adereço feminino, a pressão estética persegue mulheres cotidianamente, muitas vezes moldada para agradar o olhar masculino. Ser mulher e fazer drag ainda provoca um certo estranhamento, o que é, por si só, contraditório. Afinal, não é essa mesma feminilidade que é cobrada diariamente? Somos cobradas para performar o feminino, vestir roupas coloridas, mas não tão chamativas, usar vestidos, mas não tão curtos, maquiar-se, mas não a ponto de ultrapassar o limite do “aceitável”. Há sempre uma medida obrigatória para tentar regrar e reprimir mulheres. E a arte drag, por natureza, rompe com esta expectativa

É nesse rompimento que surge o incômodo, como se a arte drag estivesse condicionada a um corpo específico (o masculino), como se houvesse uma regra silenciosa determinando quem pode e quem não pode performar. Para Lilly Orchid, essa tensão não se manifesta apenas simbolicamente, ela atravessa a mente e o corpo. “Como mulher, no geral, você  lida com muitos julgamentos. Se usar uma roupa diferente, alguma coisa fora do esperado, isso já chama atenção. E eu acho que, por estar montada, as pessoas têm a impressão de que você está ali para elas, que você vira um objeto. Como se, por estar toda produzida, passasse a ser só uma personagem”, diz. Lilly também relata quando o assédio deixa de ser mental e se torna físico. “Já aconteceu de pegarem no meu peito em evento e eu ficar extremamente desconfortável e sem saber o que fazer. Forçaram uma proximidade que eu sei que não aconteceria se eu não estivesse montada em drag. É uma situação completamente problemática”, relata Lilly.

O senso comum ainda associa a arte drag a homens LGBTQIAPN+ que performam o feminino numa lógica de inversão de gênero. Mas essa leitura estereotipada é uma linguagem mais complexa que isso. Mulheres, cis e trans, nunca estiveram ausentes dessa história, na verdade, muitas são referência do movimento. Contudo, quando mulheres deixam de ser apenas inspiração e passam a ocupar o palco, encontram resistência e, por vezes, violência. “Às vezes a gente tá andando na rua, em grupo de drags, e as pessoas passam mexendo, falando coisas. É algo que acontece e você tem que aprender a lidar na hora”, comenta Lilly.

Nesse processo, Lilly aprende coisas não por escolha, mas por necessidade e sobrevivência. É a realidade de muitas mulheres:entender como reagir e como se posicionar. A drag conta que ficar em silêncio nunca foi uma opção. “Eu cheguei a falar que não sabia o que fazer e que estava me sentindo desconfortável. Me disseram que eu não deveria aceitar isso calada, que deveria falar com a segurança e identificar quem assedia. Porque nós, como mulher, às vezes é socializada para ficar quieta, para relevar. Não é assim que funciona, cada vez mais eu sinto que tem que pontuar, tem que cortar”, ressalta.

Foto: João Pimentel

Essa vivência revela uma contradição profunda. A arte drag é frequentemente entendida como espaço de liberdade, de experimentação e de potência, o que realmente é, mas essa liberdade não é sem limites. Lilly atua em diferentes áreas, como casas noturnas, peças teatrais, eventos privados e shows de drag queens. Os ambientes deveriam passar segurança, mas nem sempre é isso que acontece. “Você está em um  ambiente em que se sente muito livre, se divertindo, fazendo sua arte. Muitas vezes é um espaço com presença queer, LGBT, que deveria ser seguro. E aí alguém atravessa esse limite. Parece que, quando veem um corpo feminilizado, entendem que não precisa de consentimento”, conta. Ao ocupar esse espaço, Orchid não apenas tenciona normas de gênero, mas expõe como essas normas continuam operando, inclusive dentro de ambientes que se intitulam livres de preconceitos. Isso não evidencia apenas quem e como se faz drag, mas sim como diferentes corpos são lidos e tratados. “É uma coisa que eu já vi acontecer com outras colegas também. É complicado”, diz.

Apesar de experiências ruins vividas com pessoas não necessariamente da comunidade LGBTQIAPN+, Lilly foi muito bem recebida na cena drag da cidade. “Elas sempre foram muito acolhedoras e me incentivaram muito. Mesmo no início, quando eu mesma me perguntava: ‘Ah, será que sou bem-vinda aqui? Como é esse ambiente? Vão me receber bem?’, a resposta era: ‘sim!’”, afirma.

Lilly Orchid, com nome inspirado nas flores e cores que mais gosta (lilás e orquídea), começou sua trajetória em um concurso de drag queens no Janela Bar em 2023. Desde aquele dia, explora sua performance artística, busca novas referências na arte, incentiva outras mulheres a embarcarem na cena drag e a não se manterem caladas quando o limite do seu corpo é ultrapassado.

Ficha técnica

Produção: Marina Ranzani

Supervisão de produção: Hendryo André

Edição e publicação: Emanuelle Pasqualotto, João Pimentel e Larissa Didres

Supervisão de publicação: Aline Rosso e Muriel Emídio Pessoa do Amaral

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