Além das quatro linhas

Além do domínio com a bola, os atletas de futebol também devem dominar os estudos

Fonte: autora do texto

O primeiro levantamento denominado “O Futebol Masculino Brasileiro e a Escolarização no Processo de Formação De Jogadores”, da Universidade do Futebol, estimou que o Brasil tinha, em 2019, 40.320 jogadores de futebol de base espalhados por 448 clubes filiados à Confederação Brasileira de Futebol e 406 dos 448 clubes analisados não possuíam o Certificado de Clube Formador, documento previsto pela Lei Pelé que exige os direitos de atletas em formação.

A existência desse certificado é resultado de um problema anterior. A Lei Pelé, 9615/1998, já previa a obrigação do acompanhamento educacional aos jovens atletas, mas não possuía mecanismos de verificação ao cumprimento. Em 2012, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) regulamentou o Certificado de Clube Formador (CCF) como forma de garantir as qualidades técnicas e esportivas das práticas na formação de atletas, preenchendo os requisitos previstos na legislação. No Paraná, oito clubes têm o Certificado de Formação atualmente,: Azuriz, Athletico Paranaense, Coritiba, Laranja Mecânica, Cascavel, Londrina, Operário Ferroviário e Paraná Soccer Technical Center (PSTC).

Entre os requisitos exigidos para a obtenção do CCF é oferecer assistência educacional aos atletas que permita que eles também frequentem escolas com bom aproveitamento. É dentro desse contexto que a coordenadora pedagógica Adriane Presaniuk  começou a trabalhar no Operário Ferroviário Esporte Clube (OFEC) ainda em 2019, quando o projeto entrou em vigor. Hoje ela conta com mais uma profissional para realizar os acompanhamentos dos atletas do sub-15, sub-17 e sub-20. 

De acordo com a Universidade do Futebol, um a cada quatro jogadores de base vivem em alojamentos; são em média 10 mil jovens no país que saem de casa com pouca idade e, quando chegam a um clube de futebol, precisam continuar a vida escolar. Dentro desse cenário que entram em cena a atuação de profissionais de pedagogia.

Nem todo mundo passa 

Para explicar por que esse trabalho importa, a pedagoga explica de forma simples:  “É como se fosse um funil, todo mundo está entrando, só que chega uma hora que fica estreito, nem todo mundo vai passar”. O Brasil sustenta hoje cerca de 40 mil atletas nas categorias de base dos clubes, mas menos de 3% desses jogadores, de acordo com a CBF, viram atletas profissionais.

A educação garante aos jogadores uma base sólida para a vida dentro e fora do gramado e os atletas que continuam os estudos, têm mais chances de estabilidade depois da carreira esportiva. Para Adriane, essa é uma das qualidades do clube formador. “Nós temos a obrigação, o dever, de formar esses atletas para a vida, formar cidadãos. Porque caso não alcancem o objetivo da carreira profissional, pelo menos o tempo que passaram pelo clube tiveram acesso à educação”, afirma. E quem perder qualquer atividade escolar por conta das competições, o setor pedagógico do clube emite parecer para que o atleta possa fazê-la em outra oportunidade, sem prejudicar o desempenho escolar. 

Em seu artigo Futebol de base: sentido, educação e transformação social, o advogado Caio Rizek argumenta que “o futebol tem um poder raro: alcança as crianças pelo lúdico, pois acessa experiências emocionais, cognitivas e sociais profundas, despertando interesse, paixão e dedicação. Utilizado com intencionalidade pedagógica, o futebol pode ser uma ferramenta poderosa de transformação social”.

Segundo a pedagoga, uma das maiores dificuldades vem da falta de conscientização das famílias. “Muitas vezes os pais projetam a carreira de jogador na vida do atleta, veem no futebol uma via de ascensão profissional capaz de melhorar a qualidade de vida de todos em casa e isso acaba levando a deixar os estudos em segundo plano”.

Por trás da rotina

No e-book “Vivências do futebol de base dos clubes brasileiros” a pedagoga Adriane e coordenador do Instituto Mundo Melhor, Orion Barbosa, detalham o projeto Indicadores de Desenvolvimento Humano (IDH), uma parceria entre o Operário e o instituto que aplicou questionários socioeconômicos a atletas e famílias para mapear condições de educação, saúde e renda antes de desenhar qualquer intervenção. Os números levantados em 2022 desenham um perfil socioeconômico específico das famílias atendidas pelo projeto.

Indicador

Resultados

Alfabetização 100%
Escolaridade Pais – Ensino Fundamental 45%
Escolaridade Pais – Ensino Médio 33%
Escolaridade Pais – Ensino Superior 22%
Escolaridade Mães – Ensino Fundamental 8%
Escolaridade Mães- Ensino Médio 50%
Escolaridade Mães – Ensino Superior 42%
Casa Própria 76%
Plano de Saúde 37%
Empregados 100%
Acesso a Internet 100%

Fonte: Indicadores de Desenvolvimento Humano (IDH) – Projeto Social nas Categorias de Base do Operário Ferroviário Esporte Clube. In: Fórum Internacional de Desenvolvimento Humano no Futebol, Unoesc, 2022

Enquanto 45% dos pais pararam no Ensino Fundamental, 42% das mães chegaram ao Ensino Superior, quase o dobro do índice dos pais. Em segundo, o baixo acesso a plano de saúde (37%), mesmo com a maioria das famílias em situação de emprego estável e moradia própria. Foi com base nesses dados que o clube desenhou suas ações para lidar com os atletas em relação à defasagem educacional, questões de saúde e orçamento.

As atividades de formação vão além da sala de aula, o clube mantém parcerias com instituições como a própria UEPG, que já realizou ações com o curso de Nutrição sobre alimentação adequada dentro e fora do clube. O curso de Jornalismo, por sua vez, promoveu uma experiência de Media Training (treinamento de fontes para lidar com a imprensa), voltada ao desenvolvimento de fala e postura em entrevistas para os atletas. Há ainda parceria com o curso de Odontologia para atendimentos gratuitos aos atletas. Estudante de Nutrição, Larissa Rocha, apontou a participação dos atletas na atividade como receptivos e participativos. Segundo Larissa, a educação nutricional em um clube de futebol é essencial para promover a autonomia nas escolhas referentes à alimentação e à responsabilidade nas preparações. “O reconhecimento de hábitos que em um primeiro momento parecem tênues demais para impactar a saúde, entretanto impactam, especialmente ao se considerar o esforço que os atletas fazem durante um grande período”, explica.

A acadêmica de Jornalismo, Giulia Neves, participou do Media Training em setembro de 2025. “Foi uma oportunidade para eles se prepararem para o contato com a imprensa, algo comum na rotina do jogador e também para mim, como estudante de jornalismo, já que quem quer atuar no futebol vai entrevistar jogadores, técnicos e todos os envolvidos nesse meio.”, lembra. Além disso, a atividade abriu portas profissionais dentro do clube para a acadêmica, que trabalhou por oito meses na Rádio OFEC.

Ficha técnica

Produção: Mafe Sperafico

Supervisão de produção: Hendryo André 

Edição e publicação: Amanda Rafaella, Eduarda Leal, Giulia Neves e Sarah Brasil 

Supervisão de publicação: Aline Rosso e Muriel Emídio Pessoa do Amaral

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