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Entre o silêncio do luto e a dor do desacolhimento: a jornada de mulheres que enfrentaram a perda gestacional diante de traumas médicos
Escrever sobre luto nunca foi uma tarefa fácil. Antes de iniciar, deixo a reflexão sobre a dor e tristeza, que apesar de passageiras, se tornaram para esta autora figuras íntimas. Deixei de ver a tristeza como algo puramente negativo, e aprendi com as mulheres que entrevistei que, mesmo diante da morte, foram fiéis até o fim, não apenas a Deus, mas a si mesmas. Espero que ao escrever este e os próximos capítulos deste livro, eu possa acessar a cura do tal ‘luto’ e continuar fiel a quem fui e sempre serei.
Patrícia dos Santos Dobkowski Mainarte teve sua perda gestacional em março de 2014, aos 38 anos. A costureira autônoma relata que gravidez havia sido planejada por ela e pelo marido. “Ficamos extremamente felizes, pois aconteceu do mesmo jeito que tinha sido com a primeira gestação. Tudo dentro dos nossos planos, e também pensamos que estivesse nos planos de Deus também”.
Ao descobrir a gravidez, Patrícia e Lucas, não exitaram em compartilhar a notícia com amigos, família e igreja. Apesar da comunidade apresentar uma resposta positiva a gravidez, Patrícia diz que expor a gravidez assim que confirmada, foi um erro. A filha do casal, Ester, na época com 3 anos, também estava animada, já que sempre pediu um irmão. Na sétima semana de gestação, a costureira relata que sentiu dores pélvicas baixas e um pequeno sangramento. Na gestação de sua primeira filha, ela conta que passou por um deslocamento de placenta, o que na época justificou as dores. No dia seguinte ao ocorrido, Patrícia continuou com mal-estar e aumento do sangramento, o que a levou a buscar atendimento médico imediato. No hospital, ela passou por uma ecografia, exame médico de imagem indolor, na esperança de ouvir o que seria apenas um descolamento ovular. “O médico nos informou de uma forma grotesca, que não tinha mais nada no meu útero, não havia mais batimentos cardíacos, e que era para eu me vestir. Isso para nós foi uma bomba, a tristeza e decepção foram maiores que a alegria que tínhamos sentido no começo”, conta.
Após a consulta, Patrícia foi encaminhada para passar pelo processo de curetagem, decisão tomada pela médica plantonista que atendeu o casal. O aborto espontâneo ocorreu de forma retida, quando o feto para de se desenvolver e o corpo não expulsa os tecidos da gravidez. O processo natural de expelir o embrião demoraria em torno de sete dias, o que poderia causar uma infecção, e risco à saúde da mulher. Em casos de abortos retidos, é necessário um procedimento para abertura do cólon do útero, para evitar que no processo, o mesmo seja perfurado. Eram oito horas da noite quando Patrícia tomou um comprimido intravaginal, para dar início a este processo. A curetagem estava marcada para a manhã seguinte, e as longas horas que seguiram foram de dores físicas e emocionais. “Passavam as horas, e a dor era terrível. Preferia ter tido uns 10 partos normais a estar passando por aquilo. Por volta de umas onze e meia, a médica retornou para ver como estava o andamento e se fosse preciso introduzir mais um comprimido. Ao fazer o toque constatou o cólon totalmente aberto!”.
No mesmo momento, ela foi finalmente encaminhada para o processo, não foi possível tomar anestesia geral e recebeu apenas uma anestesia nas costas, mesma usada em casos de cesáreas. “Nestes momentos senti que estavam matando meu filho. Parecia uma mentira. Apesar de terem me explicado tudo, ainda parecia uma mentira.”
Não houve explicação médica exata para o aborto espontâneo de Patrícia. Ela relata que a possibilidade era de malformação, e que a criança iria nascer com alguma deficiência física ou mental, e que o corpo por si só decidiu interromper a gestação. “Recebi alta na manhã seguinte, ainda com muito mal estar, e enfrentar a vida aqui fora não foi fácil. Explicar para Ester e falar sobre com todos que me perguntavam foi muito dolorido”
Patrícia conta que os meses que se seguiram foram difíceis e tristes, e que o sonho de ser mãe novamente foi substituído por uma depressão. A condição foi agravada após a cunhada, Pamela, perder o bebê com 38 semanas, seis meses depois, em outubro do mesmo ano. A comunidade em que as mulheres participavam ficou abalada, e segundo Patrícia, a resposta foi apoio e “conselhos” mais uma vez.
O protestantismo e suas ideologias
O professor de história e mestre Otávio Teles Indart aborda em sua pesquisa Entre chronos e kairós: renovação litúrgica e identidade cultural do protestantismo brasileiro em O Novo Canto da Terra, como teologias mais liberais nos anos 1960 e 1970, acabaram influenciando a igreja evangélica protestante no Brasil, e como a ela fez para construir um diálogo ou uma relação com a realidade brasileira econômica, social e cultural. O contexto da pesquisa também é a ideia de abertura, de novas oportunidades e de novas relações históricas. Na visão do pesquisador, as igrejas evangélicas reformam sua identidade cultural a partir dessa realidade brasileira que está também em transformação por conta do contexto histórico.
O tema do aborto sempre esteve relacionado com pautas progressistas dentro de igrejas. Vale lembrar que no Brasil, as igrejas evangélicas são consequência da vinda do protestantismo ao país no século XIX, que deu início a vertentes religiosas até chegarmos hoje, no que conhecemos por “igrejas evangélicas”. “O protestantismo no Brasil se configura de um jeito bastante conservador e até um tanto quanto reacionário. E particularmente falando, perdeu muitas oportunidades em se aproximar de fato da cultura brasileira. Nós vemos um fenômeno recente de ascensão dos evangélicos na mídia, na política, uma influência na cultura e tudo mais, mas é uma influência que eu vejo bastante complicada”, relata Otávio.
O professor explica sobre uma grande enxurrada de ações missionárias nas primeiras décadas do século XX que vêm para o Brasil, principalmente dos Estados Unidos. Os missionários então trazem pensamentos, e ideologias políticas próprias, como um modo de vida e como encarar a realidade do mundo. A partir disso, foi criado no Brasil o costume de ser evangélico, sem ser brasileiro. Otávio explica:“Era de condenar tudo aquilo que era visto no país, da cultura popular brasileira, como algo que não poderia fazer parte do ser evangélico, da pessoa convertida à fé protestante. Ela não poderia ser em algum sentido brasileira, porque ela tinha que abrir mão dessas práticas culturais que não seriam condizentes com o evangelho, por exemplo, ou com a vida protestante, a vida evangélica”.
“Você acabava [se] afastando, demonizando elementos culturais que não deveriam ter sido demonizados. Você tem recentemente a discussão no Congresso de acabar com qualquer tipo ou quase todos os tipos de aborto legal, o que seria, de certa maneira, um retrocesso grande. Isso já é complexo na sociedade brasileira, sempre foi, e dentro do mundo gospel ou evangélico, isso é muito mais”.
O pesquisador afirma que a grande maioria das igrejas evangélicas se opõe ao aborto sem nenhum ou qualquer diálogo: “se não existe diálogo, quando acontece, a maior parte das igrejas não vai saber lidar, não vai saber acolher, aconselhar, ou cuidar da vida da mulher que passou por uma experiência como essa. Mas eu vejo que as igrejas não estão preparadas. Na verdade, acho que muitas igrejas não estão preparadas para um monte de questão social”.
A afirmação de Otávio é vista de forma prática na vida de muitas mulheres que passaram por perdas gestacionais, incluindo Patrícia. Ao abominar a ideia do aborto, as comunidades evangélicas não preparam o apoio necessário para estas situações. O que resta para mulheres vulneráveis é a cura através do tempo.
Atualmente, Patrícia dos Santos Dobkowski Mainarte tem 50 anos, dois filhos, Ester e o pequeno Davi, que foi gerado por uma gestação intitulada por ela “perfeita”, que aconteceu três anos depois do aborto espontâneo.
“Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os pessoas; e que os vivos o tomem em consideração” Eclesiastes 7:2
Série de reportagem
Este texto faz parte do livro-reportagem “Do luto à festa”, série de reportagem que aborda abortos espontâneos e seus desdobramentos dentro de comunidades evangélicas. Leia o capítulo anterior aqui. Acompanhe no Periódico as próximas publicações.
Ficha técnica
Produção: Eduarda Leal
Supervisão de produção: Hendryo André
Edição e publicação: Giulia Neves
Supervisão de publicação: Aline Rosso e Muriel Emídio Pessoa do Amaral
