Neli Alves conta sua trajetória familiar em busca da maternidade
Foto: Eduarda leal
Neste capítulo, iremos conhecer a história de Neli Tavares Alves. Durante os 79 anos de vida, Neli passou por três perdas gestacionais. Os casos de aborto ocorreram de forma espontânea, com exceção do segundo caso, que se deu por ataque de animal. Ela compartilha sobre o luto, as consequências da perda no casamento, e qual o papel da fé em sua trajetória.
Neli explica que durantes os três primeiros anos de casados, ela e o falecido marido, Túlio Tavares Alves, não usavam contraceptivos durante as relações sexuais, com o objetivo de engravidar. Em 1973, o casal perdeu a primeira gestação.“Eu comecei com uma pequena perda sanguínea que aumentou gradativamente até que um dia, espontaneamente, ao usar o banheiro, o feto caiu nas minhas mãos. Fui internada em Curitiba, no Hospital Paciornik.”
Neli descreve chegar no hospital em Curitiba e ser anestesiada. A dor e desespero continuaram até o momento de curetagem. Ela relata que ficou sozinha para o processo, e que quando o marido chegou de viagem, o casal sentiu a dor da perda e chorou. Mesmo após a perda, eles continuaram tendo relações sem contraceptivos na esperança de realizar o sonho de ter filhos.
Em 1976, Neli e Túlio se mudaram para Guarapuava, com o objetivo de pastorear uma igreja da denominação Cristianismo Decidido. Certo dia, o esposo estava em viagem, tinha ido para o interior cuidar de um casal que estava em crise. Em um dia comum, Neli relata o acidente que sofreu em casa.“Nós havíamos criado um bambi, um veadinho na mamadeira. E esse veadinho recebia todo dia de tarde um capinzinho fresco, que eu cortava para ele em algum terreno baldio próximo de casa. Nesse dia, eu fui levar o capim para ele, e como ele estava solto no pátio, ele se voltou contra mim e começou a me chifrar no abdômen.”
Neli não sabia que estava grávida, já que, segundo ela, seu ciclo menstrual não havia sido interrompido. A preocupação veio quando o corpo começou a expelir pedaços do feto. Segundo o médico ginecologista que atendeu a mulher, a gestação estava no quarto mês, e as pancadas do animal teriam sido a causa da perda gestacional. Não existe registro ou taxa de perdas gestacionais causadas por animais, mas segundo dados disponibilizados pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), as perdas gestacionais decorrem principalmente de acidentes com animais peçonhentos (como serpentes, escorpiões e aranhas) ou picadas de mosquitos.
Após o ocorrido, Neli não teve gravidez novamente pelos próximos 16 anos. Em 1992, aos 43 anos, ela engravidou. Segundo pesquisa de uma clínica de fertilização, aos 40 anos a fertilidade sofre uma queda, e as chances de engravidar naturalmente se tornam reduzidas. Além disso, mulheres mais velhas têm maiores chances de enfrentar complicações durante a gestação, como pressão alta, diabetes gestacional e parto prematuro. O risco de malformações congênitas também aumenta em gestações tardias. No país , as mulheres estão tendo filhos cada vez mais tarde. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a idade média da maternidade passou de 26,3 anos em 2000 para 28,1 em 2022.
“Eu achava que estava na menopausa e me surpreendi com a terceira gravidez. Foi muito emocionante, porque foi a única vez que eu pude ver algo do feto ainda vivo, num ultrassom. Eu vi o coraçãozinho batendo. De novo começou o sangramento, procurei médico do SUS. Fui bastante questionada pela minha idade já não ser adequada para uma gravidez.” Neli recebeu ordem de repouso absoluto e recebeu medicações, com a esperança de manter o bebê. Após semanas, o sangramento não cessou, e o casal descobriu a morte do feto através de ultrassom. Ela conta que, apesar dos três abortos espontâneos, nunca foi diagnosticada com disfunções ou endriometriose.
A ‘esposa de pastor’
Neli Tavares enfrentou a responsabilidade e o peso religioso durante os 55 anos de casada. Isso não era algo colocado pelo marido, mas pelas comunidades cristãs evangélicas que ela e ele pastorearam nesses anos. “Como eu sentia tudo isso diante de Deus, é bem difícil de explicar, porque eu sou uma pessoa muito emotiva e apegada. Como mulher, tive um sentimento de inferioridade perante o marido. Pensei assim, existem mulheres que muitas vezes nem querem filhos, mas conseguem ser mães. Então não foi fácil, como filha de Deus, aceitar o fato de que eu não pude ser mãe.”
Neli explica que durante todas as perdas, recebeu apoio de amigas. Mas como já percebemos em capítulos anteriores, a resposta da igreja evangélica é conservadora em casos de perdas gestacionais e acaba se tornando apenas conforto. Os casos dos abortos de Neli não foram levados abertamente à igreja, já que o perfil do marido era reservado. Ela explica que a tristeza a levava a momentos de silêncio e afastamento do marido e da comunidade, e que durante esses períodos ela se sentia sem orgulho de si mesma.
Neli carregou por muitos anos o peso de seu lugar na comunidade como esposa de pastor, uma figura que, em sua maioria, precisa refletir perfeição e seguir as regras impostas pela religião e comunidade evangélica. Nem sempre as igrejas abrem espaço para essas mulheres assumirem uma personalidade humana e real. Apesar das perdas, Neli e Túlio sempre mantiveram a conexão emocional. Mesmo com a personalidade mais reservada e quieta, o marido não deixou de apoiá-la e cuidar como fosse necessário.
Adoção
Apesar do foco deste livro-reportagem não ser a adoção, como jornalista positiva, julgo importante contar esta parte da história. Durante os anos das perdas, Neli e Túlio adotaram três filhos, dois meninos e duas meninas. Aos 31 anos de idade, Neli virou mãe. O marido deu início ao processo de adoção, e o casal recebeu Timóteo, de ainda poucos meses. Três anos depois, a esposa conta que Túlio a surpreendeu com mais um filho adotado, e que teria adotado o bebê sem comunicá-la. Apesar da surpresa, sempre foi o sonho de Neli ter mais do que um filho. Na época, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) não existia.
“Foi uma coisa totalmente fora do normal. De repente, me tornei mãe, de um minuto para o outro. Este segundo filho chama-se Nathanael, com a minha inicial. O sonho do meu esposo sempre foi uma filha com o nome Letícia. Ela chegou com cinco dias de vida, quando eu tinha 48 anos de idade.”
Segundo o Tribunal de Justiça do Estado do Paraná (TJPR), de 2019 a 2026, foram concluídos no Paraná 4.290 processos de adoção, colocando o estado como região com mais adoções no período. Nessa modalidade, o Paraná é responsável por quase um terço de todos os processos concluídos no país. Outra opção para além da adoção é o apadrinhamento, processo que ajuda na autoestima e estimula o vínculo de crianças e adolescentes em situação de acolhimento institucional. Em parceria com a Associação Juscidadania, o TJPR, por meio da Coordenadoria da Infância e da Juventude (CIJ) e da Escola Judicial do Paraná (Ejud-PR), disponibiliza o curso preparatório para o Apadrinhamento Afetivo. A capacitação está ligada ao projeto Dindo, que há 12 anos atua em Curitiba na construção de vínculos afetivos responsáveis.
A família Tavares Alves se estabeleceu de forma não convencional. Apesar das lutas emocionais e físicas, o casal permaneceu unido e ensinou aos filhos aquilo que acreditavam. Neli finaliza a história afirmando que Deus está no controle de tudo, e que confia nos planos dele para sua vida.“Hoje eu recordo com muita alegria, que no dia das mães, ao me abraçar, meu esposo, uma pessoa muito fechada, calada, disse para mim: “esse primeiro abraço é pelos três que nos aguardam na glória. E o outro abraço é de mim e dos três à nossa volta”. Essa é minha história, para a glória de Deus.”
“Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a deus”
Romanos 8:28
Série de reportagem
Este texto faz parte do livro-reportagem “Do luto à festa”, série de reportagem que aborda abortos espontâneos e seus desdobramentos dentro de comunidades evangélicas. Leia o capítulo anterior aqui. Acompanhe no Periódico as próximas publicações.
Ficha técnica
Produção: Eduarda Leal
Supervisão de produção: Hendryo André
Edição e publicação: Amanda Los e Celyne Stefani
Supervisão de publicação: Aline Rosso e Muriel Emídio Pessoa do Amaral
