A saudade que chegou sobre trilhos

Antiga Estação Paraná. Foto: Acervo de Museu Cenas / Acervo Ponta Grossa Histórica

Em meados dos anos 1900, nascia no coração de Ponta Grossa, uma saudade em forma de ferrovia. Antes mesmo de carregar esse nome, a Estação Saudade já fazia parte da paisagem e da rotina de uma cidade que crescia impulsionada pelos trilhos. Entre chegadas e partidas, o espaço se tornou testemunha do desenvolvimento ponta-grossense e da transformação urbana dos Campos Gerais.

Construída entre os anos de 1899 e 1900, pela companhia Viação São Paulo – Rio Grande, a estação surgiu em um momento de intensa expansão ferroviária no sul do Brasil. A antiga Estação Paraná, que funcionava anteriormente na cidade, não conseguia atender ao aumento do fluxo de passageiros e mercadorias que circulavam pela região.

Para além da funcionalidade, o novo prédio ferroviário também foi projetado para impressionar, tanto que foi considerada de primeira classe aos padrões da época, ainda mais em se tratando de uma cidade interiorana paranaense, que consolidava a sua importância econômica.

Durante décadas, a estação teve papel estratégico no transporte ferroviário brasileiro. A nova estação conectava a outros municípios do estado, inclusive de outro estado do interior de São Paulo, até mesmo destino fora do país, como o Uruguai. O som das locomotivas, o apito anunciando as partidas, o vai-e-vem de passageiros junto ao cheiro de carvão e óleo diesel tornaram-se marcas nas lembranças de quem viveu aqueles dias.  E todo esse movimento ajudava a transformar Ponta Grossa em um dos mais importantes entroncamentos ferroviários do Paraná.

Estação Saudade. Foto – Acervo de Jefferson Mainardes / Acervo Ponta Grossa Histórica

Foto – Acervo de Ivete Zampieri / Acervo Ponta Grossa Histórica

Recordações da época 

Para muitos moradores, andar de trem era mais do que uma simples viagem, era um acontecimento. Maria Teresa Muller, hoje com 74 anos, guarda lembranças da infância ligadas à estação e ao fascínio que sentia ao entrar em um vagão. Ela tinha aproximadamente oito anos de idade quando viveu essas experiências. “Na época, se a gente se comportasse , nossos pais nos levavam para passear de trem”, relembra.

Ela conta que a estação sempre parecia cheia, tomada por trabalhadores, vendedores e passageiros que circulavam diariamente pela região central. “ Parecia que a cidade inteira passava por ali em algum momento do dia”, comenta.O prédio também despertava encantamento. “Eu lembro que era uma construção muito bonita, diferente das outras da cidade. Tinha uma imponência”, afirma. Mesmo sendo criança na época, Maria Teresa ainda recorda da sensação de observar os trilhos e esperar o momento do embarque. Para ela, viajar de trem era completamente diferente de andar de ônibus. “O trem parecia mais mágico. O barulho, o balanço, as paisagens passando devagar pela janela… tudo ficava marcado”, diz.

Joanina Schwb, hoje com 86 anos, também construiu parte das suas memórias sobre os trilhos. Ela tinha cerca de 23 anos de idade quando embarcou em uma viagem saindo da estação, no começo dos anos 1960.  Joanina não consegue recordar exatamente qual era o destino final, mas se lembra nitidamente de passar pela cidade de Palmeira, perto de Ponta Grossa. Como aquele trem era o ápice da tecnologia, as viagens eram longas; Muitas vezes, os passageiros passavam horas, ou até mesmo a noite inteira, dentro dos vagões. Joanina conta que essa demora transformava pequenos momentos em lembranças inesquecíveis. “Eu me recordo até hoje que a janta foi um chá e pedaço de broa. Levaram em uma ‘chocolateira’ esmaltada, como os antigos chamavam aqueles bules”, relembra.

Enquanto os passageiros viviam experiências marcantes dentro dos trens, havia também aqueles que eram responsáveis por garantir que tudo funcionasse em segurança. Entre os profissionais fundamentais para o funcionamento ferroviário estavam os telegrafistas, encarregados da comunicação entre as estações através do código Morse, um dispositivo tecnológico, então moderno, para comunicação a longa distância. Parte das lembranças de Sônia de Oliveira sobre seu pai, Álvaro de Oliveira Cruz, permanece viva. Ele trabalhou por 33 anos em diversas funções na estação. Em um vídeo preservado pela família, Álvaro relatava a época em que trabalhou como telegrafista.

Naquela época, havia poucos profissionais preparados para atuar na comunicação ferroviária em Ponta Grossa. Foi então que decidiu assumir a função, aproveitando os conhecimentos adquiridos durante o período em que serviu ao Exército como radiotelegrafista. Os profissionais transmitiam ordens de serviço, informavam horários e autorizavam a circulação das locomotivas, evitando acidentes e garantindo o funcionamento seguro da linha férrea. Álvaro tinha orgulho da rapidez com que conseguia interpretar e transmitir mensagens. Segundo os relatos deixados por ele, fazia contato frequente com os municípios de Londrina, Itararé e Wenceslau Braz e tinha facilidade em entender códigos e escrever informações rapidamente e que poucas pessoas conseguiam aprender o serviço com agilidade. 

No vídeo, ele diz com orgulho: “Quando parei de trabalhar lá, muita gente sentiu falta porque ninguém tinha a mesma rapidez”. O relato de Álvaro revela o quanto aqueles profissionais se tornaram peças essenciais para o funcionamento da estação.

 

Quepe utilizado pelos trabalhadores da Estação. Em memória a Álvaro de Oliveira Cruz. Foto por Yasmin Aguilera

O começo do fim das linhas férreas 

Com o passar das décadas, a movimentação intensa da estação começou a diminuir. O avanço das rodovias, a popularização dos ônibus e as mudanças no sistema de transporte fizeram com que os trens de passageiros perdessem espaço gradativamente. João Ademir Pontes acompanhou esse período de transição. Em 1967, quando começou a trabalhar na empresa Auto Viação Ponta-grossense S. A., no bairro Uvaranas, ele passava diariamente pela região da estação. Segundo ele, naquele período, os trens de passageiros já quase não circulavam mais. Ainda assim, o espaço continuava integrado à rotina da cidade.  O ponto final da linha Palmeirinha era localizado na praça em frente à estação e muitos trabalhadores utilizavam o caminho ferroviário para atravessar a região diariamente. João conta que parte da plataforma permanecia aberta, permitindo que as pessoas seguissem caminhando ao lado dos trilhos até a rua Carlos Cavalcanti. “A gente passava por ali todos os dias para chegar ao trabalho”, afirma.

Pouco a pouco, o silêncio começou a ocupar os espaços antes dominados pelo barulho das locomotivas, o prédio permaneceu de pé, mas já não possuía a mesma função de antes. Ainda assim, nunca deixou de existir na memória coletiva dos ponta-grossenses. Em 1990, a antiga estação foi tombada como patrimônio cultural estadual. Foi também nesse período que passou a receber oficialmente o nome de Estação Saudade, um título simbólico, nascido justamente da ausência deixada pelo fim das atividades ferroviárias.

Foto por Adryan Fernando Muller

Após anos de abandono e desgaste estrutural, o complexo histórico passou por um importante processo de revitalização. Hoje, o espaço abriga o Sesc Estação Saudade, um dos principais centros culturais de Ponta Grossa. O local recebe exposições, oficinas, apresentações artísticas, eventos educativos e atividades culturais que mantêm viva a relação da cidade com sua própria história.

Foto por Adryan Fernando Muller

Locomotiva 250

Entre os símbolos mais marcantes da memória ferroviária de Ponta Grossa está a Locomotiva 250, mais conhecida como Maria Fumaça, que se tornou quase uma personagem viva na história da cidade. Com sua estrutura robusta, o apito forte e a fumaça escura que cortava o céu, a máquina ajudou a compor por décadas a paisagem sonora e visual da antiga estação. Atualmente preservada no Parque Ambiental, como parte da memória ferroviária ponta-grossense, a locomotiva permanece como um dos elementos mais emblemáticos da antiga Estação Saudade, funcionando não apenas como relíquia histórica, mas como um elo afetivo entre diferentes gerações que cresceram acompanhando o ritmo dos trilhos.

Foto por Adryan Fernando Muller

Mais do que preservar uma construção, a antiga estação preserva sentimentos. Através de paredes históricas, trilhos silenciosos e memórias compartilhadas por diferentes gerações, permanece aquilo que talvez nunca tenha partido completamente: a saudade. Este capítulo é uma homenagem a uma pessoa que fez parte da memória da cidade e da minha: meu tio, Adryan Fernando Muller. Onde quer que esteja, obrigada por me dar acesso a esse lindo acervo de fotos. Guardo você na memória e no coração, para sempre.

Ficha técnica

Produção: Ingrid Muller

Supervisão de produção: Hendryo André

Edição e publicação: Marina Ranzani e Mafe Sperafico

Supervisão de publicação: Aline Rosso e Muriel Emídio Pessoa do Amaral

Skip to content