Performance e resistência: criada em 2016, Cindy Cindy têm 10 anos de história na arte drag pontagrossense
“Era junho de 2016, nós combinamos de ir em uma festa junina no antigo Deck Club, combinamos que todos iriam de vestidos, e no fim foi só eu. Éramos um grupo de cinco, seis amigos, saíamos todo fim de semana juntos. Até esse momento eu não tinha noção que eu iria ser uma drag queen.” Foi naquela noite que Cindy Cindy deu suas caras para o público. “Eu tinha um salto, estava com um vestidinho rosinha, cheio de babadinho, comprei uma peruca, daquelas bem simples assim e chamei um amigo para fazer uma maquiagem.” Seus amigos, então, antes de chegar na festa apontaram, “Olha, você precisa ter um nome, não podemos chegar no rolê e chamar você de Fábio, né? Afinal, você está todo montado!” Depois de muito pensar nas possibilidades, enquanto estavam esperando para sair, começou a tocar uma música da Cindy Lauper e então o caso foi solucionado. “Você adora Cindy Lauper. Vamos chamar você de Cindy!” disse amigo próximo de Cindy. Chegando na festa, foi um sucesso sem igual, chamou muita atenção, talvez porque Cindy preferiu não tirar a barba, achando que nunca mais ia fazer aquilo em sua vida. E isso se tornou um diferencial em sua drag, “Quando eu decidi sair mais vezes, eu continuei saindo, toda montada, mas com a barba. E eu percebi que algumas pessoas se incomodavam, outras pessoas ficavam curiosas tentando entender porque eu não tirava a barba. O estigma que todas as drags tinham que ser extremamente femininas, ainda existia. Então, todas as drags que faziam algo diferente disso eram mal vistas, precisavam estar depiladas, para performar a feminilidade, e em um mundo onde mulheres são pressionadas diariamente para se depilar, isso pode afetar até a performance do feminino. “Isso vai ser um diferencial da minha drag porque as pessoas não vão me esquecer. Elas vão me ver lindíssima e aquela barba vai chamar a atenção. Foi aí que eu resolvi que a Cindy Cindy seria uma drag barbada”, diz Cindy.
Com ou sem maquiagem, a barba prevalece, e também a essência de Fábio Mendes, quem dá a vida para Cindy Cindy há 10 anos. Diferente de Cindy, um furacão por onde passa, Fábio sempre foi muito tímido, quieto e reservado, mas isso não é mais um problema para ele, foi através da arte, que começou a se impor, porque de repente, a Cindy começou a se destacar, a Cindy começou a ser a Cindy Cindy Drag. Então aquele sentimento de potência também foi para o Fábio. “Eu comecei a entender que tipo, o Fábio também é forte, o Fábio também sabe impor limites, o Fábio também sabe se impor, sabe? O Fábio também tem o seu valor.”
Se, por um lado, a drag trouxe força e segurança para fora, por outro, algumas questões pessoais seguiram caminhos mais silenciosos, especialmente quando o assunto é família. Hoje, aos 42 anos, Fábio conta que só conseguiu se assumir há cerca de três ou quatro anos, quando já tinha quase 38 anos. A decisão não veio a partir de um ponto de ruptura. “Eu só me assumi porque eu estava num relacionamento sério. Ia morar com um menino que eu estava me relacionando. Aí eu pensei: agora eu vou ter que falar.” Esse momento carrega um contexto mais profundo, Fábio é filho adotivo e foi adotado aos oito anos de idade, depois de já ter passado por situações difíceis. Ao chegar na nova família, construiu uma relação marcada por gratidão e responsabilidade, vivendo muito em função deles. “Eu entendi que aquela família me salvou da situação que eu vivia. Então eu sempre fui muito focado neles, vivi muito pra eles, ajudei muito enquanto estive com eles.” Foi justamente esse sentimento que, por muitos anos, adiou o enfrentamento da própria sexualidade dentro de casa. A partir dos 18, 19 anos, esse conflito começou a crescer. A família, religiosa e inserida em uma realidade do interior, nunca fez perguntas diretas, mas o silêncio também dizia muito. “Eles nunca me cobraram nada, nunca me perguntaram. Mas o meu medo era que eles sofressem se alguém descobrisse alguma coisa sobre mim.” Foi então que ele decidiu sair de casa e buscar a própria vida em outra cidade. A distância trouxe autonomia, mas não necessariamente abriu espaço para diálogo. Até hoje a relação com a família carrega alguns limites. “Nós conversamos, tem contato, mas não fala muito sobre isso. É outra realidade.” Se assumir como homem gay foi um passo necessário, mas a drag segue em outro lugar. “A minha sexualidade eu senti necessidade de contar. Mas a drag… eu não sei se eles entenderiam. E também não sei se existe essa necessidade.” A dúvida não é apenas sobre aceitação, mas sobre tradução. “Será que eles vão entender o que é arte drag? Eu não sei. E eu não quero correr esse risco.” Há, nessa escolha, uma tentativa de preservar o vínculo, entendendo que nem todo espaço comporta todas as versões de si. “Tem coisas e lugares pra tudo. Talvez lá, na rotina deles, isso não caiba.” Ainda assim, ele reconhece o que já foi conquistado. “Eles já me aceitaram como filho gay. Têm orgulho de mim.” A drag, então, permanece como um lugar separado, não negado, mas também não compartilhado. “Se um dia eles me perguntarem, eu falo. Mas por enquanto, eu não quero passar por esse processo de ter que explicar.”

Foto: Marina Ranzani
Para Cindy, ser drag é apenas um hobby, pois antes mesmo dela existir, é proprietário do seu próprio salão de beleza, no centro de Ponta Grossa. Conforme o salão foi crescendo, Cindy contratou três homens gays para trabalhar com ela no salão, logo os comentários e olhares desagradáveis chegaram. “No primeiro momento foi o preconceito de: Meu Deus, quatro gays montaram um salão. Eles nem sabiam que o salão era só meu. Tinha gente que vinha, parava no corredor e ficava olhando aqui para dentro. Uma cara estranha. E eu não entendia porquê”. Quando o mundo drag colidiu com o de cabeleireiro, muitas pessoas não entenderam o que era ser uma drag queen, e com isso, as reações vieram. “O fato de eu estar me apresentando como drag teve alguns deboches, algumas pessoas que não entenderam, que acharam que eu ia me assumir uma mulher trans. Vieram me questionar dentro do meu salão, sabe? Com comentários: Ai! nossa, achei que ia chegar aqui e você ia estar trabalhando de peito. Aí eu falei: “Tá, mas se eu tivesse com peito ou sem peito ia ter diferença no meu trabalho, a técnica é a mesma, a minha experiência é a mesma”. O que chocou Cindy Cindy era que os comentários maldosos vinham, principalmente, de pessoas mais novas, as clientes mais velhas, não trouxeram preconceitos, apenas dúvidas sobre do que se tratava a expressão artística. Com isso, Cindy tornou o espaço de beleza dela um lugar livre de dúvidas. “Aconteceu uma coisa muito legal que eu só fui me tocar um tempo depois, eu comecei a fazer uma militância dentro do meu salão, eu comecei a “educar” as clientes, comecei a ajudar elas a entenderem o que que é uma travesti, o que era transexual, o que é uma drag queen, um drag king…” aponta Cindy sobre seu relacionamento com suas clientes.
Quando surgiu o projeto Holofotes, projeto onde Cindy Cindy é a drag apresentadora, vários clientes foram ao teatro para assistir o show das drags, e acharam maravilhosos. “Eu tenho muitas clientes que seguem o meu perfil de drag que elas amam. Elas sabem o que é uma drag queen. Elas entendem, porque antes elas não me entendiam. Me perguntavam: O que é uma drag queen? Quem é Pabllo Vittar? Elas achavam que era um cara que virou mulher. Então hoje em dia, todas as minhas clientes sabem, conhecem, acompanham, e, gostam, acham incrível, maravilhoso.” diz Cindy.
Um dos principais escudos para todo preconceito que escutava dentro e fora de seu salão, foi ser uma pessoa politizada, saber seus direitos e seus limites perante a sociedade. Para ele, se expressar artisticamente fala mais que apenas performar uma música. “A partir do momento que eu comecei a me montar, entendi que ser drag é um ato político também. Você assume um papel perante a sociedade enquanto um artista drag e você assume certos posicionamentos e mandamentos políticos, né? Teve preconceito no começo, mas depois foi muito bacana, porque virou uma forma das pessoas entenderem o mundo drag e a comunidade LGBTQIAPN+”. É nesse espaço que Cindy Cindy transita, levando suas piadas sobre bairros de Ponta Grossa e humores ácidos sobre quem está devendo dinheiro para ela. Ser drag veio para Cindy de uma forma muito natural e bonita, e é isso que ela espera de sua drag para o presente e o futuro: mais 10 anos pela frente, fazendo o que ama e, performando o que gosta. “Eu já consolidei bastante coisa legal, mas acho que ainda tem bastante coisa ainda que eu posso estar fazendo e que aos poucos vão surgindo. Não tenho nada planejado, mas eu ainda quero fazer mais coisas ainda com a drag, quero ainda talvez ser mais conhecida e levar mais a arte drag para outros espaços. É uma coisa que eu amo fazer, então eu não pretendo parar. Acho que tudo vai acontecer conforme tem que ser “, relata Cindy Cindy sobre sua vivência na arte.
Ficha técnica
Produção: Marina Ranzani
Supervisão de produção: Hendryo André
Edição e publicação: Ingrid Muller, Lucas Jolondek e Mafe Sperafico
Supervisão de publicação: Aline Rosso e Muriel Emídio do Amaral
