Crítica de Ponta #165

 

Crítica de Ponta

Produzido pelo terceiro ano do curso de Jornalismo da UEPG, o Crítica de Ponta traz o melhor da cultura da cidade de Ponta Grossa para você!

O interlúdio antes do colapso

A trama revela a música como abrigo, uma forma da protagonista enfrentar seus medos e seguir em cena.

 

O curta-metragem Interlúdio de Paloma Costa acompanha o retorno de Gabriela, uma jovem cantora que enfrenta a pressão da mídia, críticas públicas e conflitos internos. A narrativa, vai além do universo artístico e se constrói a partir da exposição. Em um dos principais diálogos, a personagem é pressionada a falar sobre sua vida pessoal. O curta levanta a questão: até que ponto indivíduos se veem obrigados a ultrapassar seus próprios limites diante de pressões externas?

Esse cenário se amplia no cotidiano. No ambiente digital, o julgamento se intensifica, e o Paraná lidera os casos de cyberbullying no Brasil. Em 2024, foram 103 ocorrências, quase um quarto do total nacional. Essa cultura de exposição não se limita à internet e também se reflete no trabalho, marcado por metas e pressão constante por desempenho.

 

Foto: reprodução do curta-metragem interlúdio de Paloma Costa

 

Os impactos são diretos. Dados da Justiça do Trabalho indicam crescimento nos casos de assédio moral, com mais de 140 mil ações no Brasil em 2025. Situações de humilhação contribuem para o adoecimento mental. Mulheres são maioria entre as vítimas, representando cerca de 70% dos processos por assédio sexual no trabalho, evidenciando o recorte de gênero.

Na trama, Gabriela enfrenta resistência ao se posicionar e tem suas falas deslegitimadas. O título remete a um intervalo de tensão e reconstrução, semelhante aos afastamentos para recompor a saúde mental. Fora da ficção, muitos trabalhadores vivem seus próprios “interlúdios”, marcados pelo desgaste emocional. Resta a pergunta: há espaço para o cuidado em uma sociedade guiada por cobranças excessivas?


Por Marina Ranzani

 

Acesso livre, leitura incerta

Iniciativa do Instituto Pegaí Leitura Grátis amplia acesso, mas impacto no hábito de leitura ainda é questionado

 

O Instituto Pegaí Leitura Grátis propõe democratizar o acesso aos livros com estantes gratuitas espalhadas pela cidade. Sem cadastro ou controle, o projeto já disponibilizou mais de 770 mil exemplares e se expandiu para outras cidades.

Os números chamam atenção, especialmente diante de um cenário em que 53% dos brasileiros não leem e a média anual é de apenas 2,6 livros por pessoa. O contraste levanta uma questão: facilitar o acesso garante a formação de leitores?



Crédito: Matheus Leônidas

Os números chamam atenção, especialmente diante de um cenário em que 53% dos brasileiros não leem e a média anual é de apenas 2,6 livros por pessoa. O contraste levanta uma questão: facilitar o acesso garante a formação de leitores?

O Pegaí aposta na autonomia do público. A falta de curadoria também influencia: as estantes tendem a concentrar gêneros mais comuns, reduzindo a diversidade literária.

Além disso, a distribuição não alcança bairros periféricos, restringindo o acesso onde ele é mais necessário. Diferente das bibliotecas públicas, o projeto não oferece ações contínuas de incentivo à leitura.

Por Matheus Leônidas

 

München Fest e a acessibilidade que não sobe ao palco

A München Fest lota o Centro de Eventos, celebra tradições e movimenta Ponta Grossa. Mas, para o público surdo, ainda falta uma resposta clara: a acessibilidade está no palco ou apenas na divulgação?

 

Há mais de 30 anos, a München Fest é um dos eventos tradicionais de Ponta Grossa, que reúne milhares de pessoas e movimenta a cultura local. Mas, existe uma pergunta importante que fica sem resposta clara: a festa é realmente acessível para pessoas surdas? A organização já divulgou, em edições recentes, a presença de intérpretes de Libras. O problema é que a informação para por aí.

Não há detalhes sobre quais shows contam com esse recurso, se o serviço está disponível em todas as noites ou apenas em cerimônias de abertura. Também faltam registros sobre o posicionamento desses profissionais: eles ficam visíveis perto do palco? Aparecem nos telões? Conseguem acompanhar toda a apresentação? Sem essas respostas, a acessibilidade parece mais simbólica do que efetiva.

Arte por Ingrid Müller

Quando falamos de música ao vivo, acessibilidade não pode ser tratada como um extra e a Lei Brasileira de Inclusão garante acesso à cultura e ao lazer.

A München Fest tem potencial para ser referência em inclusão no Paraná, mas isso exige planejamento e transparência. Ter intérprete não significa ser acessível, a inclusão de verdade é quando ninguém precisa procurar onde ela está.

Por Ingrid Müller

 

GTPG abre temporada de 2026 com a encenação A Sanfoneira Careca

Espetáculo traz crítica social e ironia para o Auditório B do Cine-Teatro Ópera

A encenação teatral A Sanfoneira Careca marca a estreia do Grupo de Teatro de Ponta Grossa, neste ano. A peça retrata uma comunidade ignorante e que vai contra princípios como liberdade de expressão, pensamento crítico e cultura. Os 15 personagens interagem entre si simultaneamente durante o espetáculo, o que cria uma dinâmica diferenciada e única nas cenas. Tudo acontece em um só local e as vestimentas dos intérpretes parecem retratar as do século passado. 

Inspirada em elementos do teatro contemporâneo, a peça traz uma crítica irônica e satírica à negligência ainda presente na sociedade. O objetivo é refletir o acesso à cultura e onde ela se faz presente em nosso senso crítico e político. Na narrativa, a misteriosa Sanfoneira traz música e canto à cidade, o que permite que seus cidadãos se alegrem e festejem. Isso incomoda o grupo, que descreve a festa das piores formas em que se pode imaginar. A personagem da Sanfoneira não aparece em cena e fica livre à interpretações, ela pode ser uma pessoa, um ambiente, ou um fenômeno social.

15 atores bolsistas formam o elenco de A Sanfoneira Careca. Todos interagem em cena de forma simultânea. Crédito: João Pimentel/Lente Quente.

Escrita e dirigida por Carlos Alexandre de Andrade, também diretor do grupo, a encenação foi exibida no Auditório B do Cine-Teatro Ópera em três noites. Os artistas e quatro técnicos recebem uma bolsa de mais de mil reais. A seleção dos participantes foi feita ano passado, por meio de editais da Secretaria Municipal de Cultura. Ainda em 2026, o Grupo apresenta mais três montagens. 

Por João Pimentel

 

A liberdade artística como expressão no jornal literário Mural

Jornal Literário criada por estudantes de Letras da UEPG valoriza a liberdade artistica no meio acadêmico

A produção artística nas universidades enfrenta um ambiente que privilegia as normas, teoria e produtividade acadêmica, deixando a criação em segundo plano. 

O jornal literário Mural desenvolvido por estudantes de Letras, da UEPG, desde 2024 é um espaço de resistência que valoriza a liberdade artística e permite aos estudantes publicarem poemas, desenhos e colagens sem o padrão institucional.

Foto: reprodução do Instagram @lit.mural




Mas essa autonomia traz alguns questionamentos. A falta de critérios claros afastou o peso crítico do jornal que foi criado com o objetivo de cobrir a falta de espaços culturais e criativos dentro da universidade.

Ainda assim, a importância do Jornal Literário Mural consiste justamente na sua existência como um espaço dentro de um ambiente muitas vezes hostil à criação. Ao abrir oportunidades para experimentação e visibilidade, o jornal Mural não resolve as questões da universidade, mas as evidências. Ao fazer isso, valoriza o direito à criação artística como parte essencial da vida acadêmica.

Por Larissa Didres

O esvaziamento do shopping total

Funcionários reclamam pela falta de transparência e apoio pela gestão do shopping

Em 2000 o Shopping Total foi inaugurado, um espaço que rapidamente conquistou a população de Ponta Grossa, em especial os moradores da Nova Rússia. Durante três anos, foi o único shopping da cidade.

Com a inauguração do Palladium, o Total começou a perder forças. Ainda assim, resistiu por quase 26 anos, principalmente no setor gastronômico, que continuava atraindo público. Aos poucos, os sinais de enfraquecimento se tornaram visíveis: fechou o cinema e saiu o supermercado Muffato, esvaziando o local.

Crédito: Leonardo Alexandre

Com a inauguração do Palladium, o Total começou a perder forças. Ainda assim, resistiu por quase 26 anos, principalmente no setor gastronômico, que continuava atraindo público. Aos poucos, os sinais de enfraquecimento se tornaram visíveis: fechou o cinema e saiu o supermercado Muffato, esvaziando o local.

A apuração feita em conversa com lojistas e comentários nas redes sociais apontam falta de apoio e transparência. Trabalhadores, especialmente da área gastronômica, demonstraram insegurança de ter que recomeçar fora dali, já que o shopping ainda oferece vantagens como estacionamento gratuito para os clientes que iam almoçar.

O fechamento ainda não foi oficialmente anunciado. Mas os corredores estão vazios, as lojas fechadas e há cartas de despedida que revelam um processo silencioso de abandono, marcado pela ausência de suporte e pelos prejuízos enfrentados por quem dependia daquele espaço como sua principal fonte de sustento.



Por Leonardo Alexandre

 

Sabor acessível e rotina universitária: os carrinhos que sustentam a noite

Entre aulas e correria, os carrinhos de comida ao redor da universidade viraram parada quase obrigatória

Ao redor da universidade, entre aulas, prazos e conversas apressadas, os carrinhos de comida de rua se apresentam como parte essencial da experiência acadêmica. Mais do que um alimento, eles se revelam uma solução  prática: barata, rápida e saborosa.

O destaque inevitável é o carrinho de espetinhos. A 10 reais a unidade, entrega mais do que promete: porções generosas, bem temperadas e preparadas na hora. Funcionando de terça a sexta, das 18h às 22h, vira ponto de encontro de acadêmicos.

Crédito: Leonardo Alexandre

Dividindo espaço, o carrinho de pipoca aparece como opção leve e democrática. Com preços entre 10 e 15 reais, oferece tanto a versão salgada quanto a doce, ampliando o apelo para diferentes gostos. Funciona às terças, quintas e sextas no mesmo horário. Crocante e sempre fresca, cumpre o papel de lanche rápido para quem segue na correria.

Para fechar, o carrinho de churros oferece o toque doce: a 7 reais, entrega um produto simples, macio e com recheio generoso. Em comum, os três mantêm um padrão: organização, limpeza e qualidade. Mais do que matar a fome,os carrinhos ajudam a sustentar a vida universitária, no bolso e no cotidiano.

Por Lorena Santana

O marketing em tempos de polarização 

O que era para ser apenas um calçado que faz parte da identidade nacional acabou virando o centro de uma guerra ideológica

Por décadas, a Havaiana foi o maior símbolo de igualdade no Brasil, unindo o operário e o milionário no mesmo conforto. Mas o que era um item neutro virou uma questão ideológica. A fala da Fernanda Torres na propaganda “começar o ano com os dois pés e não com o pé direito”, foi o gatilho para a revolta de um público hostil. 

A reação foi imediata. As redes sociais foram inundadas por vídeos de pessoas cortando as tiras das sandálias como uma forma de rejeição, empurrando o consumidor mais extremista para a concorrência. A ignorância saiu da internet e ganhou as ruas, com pessoas passando em frente às lojas da marca pulando apenas com o pé direito e exibindo outras marcas como se estivessem marcando território político.

Foto reprodução Havaianas

Apesar da briga política, o cenário revela um Brasil onde até o caminhar se tornou um manifesto. O episódio das sandálias cortadas e das provocações nas portas das lojas é o retrato de uma sociedade dividida. Quando um objeto tão cotidiano quanto uma sandália de borracha se torna uma briga ideológica, percebe-se que a divisão do país não está mais apenas nas urnas.

Por Pedro Moro

 

A estética de um livro físico com o preço de um feed literário no instagram 

Segundo a funcionária do Sebo, o público que vai até a livraria se interessa pelo o que é tendência e o que está repercutindo no momento

De acordo com dados fornecidos pela Câmara Brasileira do Livro, 14 milhões de brasileiros pagaram mais caro, enfrentaram o processo do frete e aguardam o recebimento para ter o livro físico. A motivação de ter o material em papel, é por ser um objeto de status, exposto em redes sociais somente para ter um destaque no perfil pessoal do instagram. Os consumistas literários não compram só pela história, adquirem por simplesmente ter na estante, pela estética bonita da capa. 

A funcionária do Sebo de Ponta Grossa, comenta a  questão do consumo por  status. Ele percebe o movimento do público   com interesse em livros que estão em alta e tem repercussão momentânea ou que saiu filme nos cinemas. Portanto, essa influência absorve a impulsividade das pessoas. 

 

Arte por Lucas Barbato



Em contrapartida, existem clubes de leitura feminino em Ponta Grossa, que valorizam as experiências do contato com o livro físico. Onde são feitos debates com diferentes percepções , discussões de teorias, pontos positivos e negativos. Além disso, as mulheres se conectam e formam relações de amizades, com uma taxa de mensalidade simbólica. 


Por Lucas Barbato

Ficha técnica

Autores: Ingrid Müller, João Pimentel, Larissa Didres, Leonardo Alexandre, Lorena Santana,  Lucas Barbato, Marina Ranzani e Pedro Moro.

Supervisão de produção: Paula Melani Rocha

Edição e publicação: Maria Gallinea e Yasmin Salgado

Supervisão de publicação: Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado

Contato: periodico@uepg.br

 



 

 

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