
Arquivo pessoal: Karina Balestra
Quartas de finais do Campeonato Brasileiro Feminino de 2020. Os ponteiros do relógio se aproximavam das quatro da tarde, momento em que o árbitro Diego da Costa Cidra soaria o apito na Arena do Grêmio, em Porto Alegre. O dia 25 de outubro ficaria gravado na memória de Karina Balestra para sempre: era a última vez que colocaria os pés em campo como jogadora profissional de futebol.
No dia 21 de janeiro de 1982, na capital do Rio Grande do Sul, nascia Karina Balestra da Luz. Ainda na infância, em Cachoeirinha (RS), o futebol já fazia parte da vida dela. Seu despertar para o esporte, por volta dos sete anos, foi ao lado do irmão mais velho. “Meu irmão estava sempre jogando, sempre com uma bola. Onde ele ia, eu ia atrás”, relembra. E o que começou como hobby dentro do ambiente familiar, mais tarde se tornaria sua profissão. “Era minha brincadeira preferida. Eu chegava da escola e já saía jogar futebol na rua”, conta.
No início da adolescência, Karina se viu diante de um impasse: mudar do futsal para o futebol de campo. Por não haver time feminino na cidade, a jovem aceitou o convite para jogar entre os garotos. Os obstáculos, porém, não demoraram a surgir. “Na hora de jogar o campeonato, eu não podia ser inscrita. Foi bem frustrante, porque eu queria competir e não ficar só treinando”, lamenta.
Karina percebeu, então, que o caminho a ser trilhado não seria simples. “Foi aí que despertou a vontade de ser atleta profissional, de jogar somente com meninas, de levar isso para a minha vida”, explica. E foi aos 14 anos, à procura de uma escolinha de futebol em Porto Alegre, que Karina ingressou no Internacional. O êxtase por desfrutar do futebol feminino era indiscutível, mas viver o sonho também tinha um preço. “Eu tinha que pegar dois ônibus para ir até lá. Claro que, muitas vezes, tinha que pedir um dinheiro para tia, para o tio, porque, às vezes, o pai não tinha”. Treinar longe de casa, segundo ela, também foi um desafio. “Tudo era difícil naquela época, não tem como falar que foi fácil.”
Do suor ao sucesso
Em menos de um ano no Inter, a atleta ascendeu à equipe profissional. No fim da década de 1990, disputou seu primeiro Campeonato Brasileiro adulto, com somente 15 anos. Na primeira competição, Karina recorda que pôde jogar contra Sissi, a primeira camisa 10 do futebol feminino brasileiro. Na época, a já consagrada atleta jogava pelo São Paulo. “Eu era muito fã da Sissi. Me vi pensando: ‘poxa’, estou jogando o mesmo jogo que ela”, detalha.
Nos seis anos que passou pelo Clube do Povo (1997-2003), Karina também entrou no radar do comando da Seleção Brasileira. “Me lembro que a Duda [Eduarda Luizelli, ex-jogadora, gestora de futebol e responsável pela reabertura do Departamento Feminino do Internacional] tinha me falado que eu estava sendo monitorada”, diz.
Ela, que dividiu vestiário com nomes como Marta e Cristiane, rememora com orgulho a sensação de vestir a amarelinha. “É uma responsabilidade grande. Quando você chega na Seleção Brasileira, atinge o auge do atleta, da sua carreira”. Desde a primeira convocação em 2001, a ex-atacante representou o país por outros cinco anos.
O ápice servindo à Seleção veio em 2003, com a conquista inédita do Campeonato Pan-Americano: “Aquele Pan-Americano foi o primeiro, então, querendo ou não, ficamos para a história”. Apesar das boas lembranças, e de um título para chamar de ‘seu’, assim como várias atletas, Karina também teve que conviver com lesões ao longo da carreira. Em 2006, vivendo sua melhor fase, ela ficou de fora do Mundial. “Tomei um carrinho durante um jogo do Campeonato Paulista e quebrei meu pé em duas partes. Foi uma lesão que me deixou em dúvida se eu iria continuar jogando futebol profissionalmente”, reflete.
Na bagagem de mais de 20 anos de carreira, Karina trouxe consigo experiências em clubes como Juventude, Corinthians, Suwon FC, na Coréia do Sul, Ferroviária e Grêmio, além do Projeto Duda/Canoas. A passagem pelo Leste Asiático, sobretudo, foi um divisor de águas. Essa foi a primeira vez que a ex-jogadora conseguiu se sustentar somente com o futebol, além de recuperar seu nível físico e técnico. “Quando cheguei na Coréia tive um choque de realidade. Lá os jogos são televisionados, a imprensa acompanha, a estrutura do feminino é a mesma do masculino. Me senti muito valorizada”, enaltece.
A última dança
No Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, em 2017, um novo capítulo de sua jornada no futebol gaúcho se iniciava. “Falo que fui a pessoa que bati na porta do presidente do Grêmio para reabrir o futebol feminino”, brinca a ex-jogadora. Uma das líderes da reativação do projeto, artilheira do clube desde a reabertura, com 57 gols marcados, e responsável por recolocar o ‘Imortal’ na Série A1, em 2019, o status de Karina não poderia ser outro: ela havia se tornado ídola da instituição.
Mas, como toda bela história, a de Karina se aproximava do fim. Na última partida da fase classificatória do Brasileirão Feminino, em 2020, o Grêmio viajou até São Paulo para enfrentar o ‘Tricolor Paulista’. Ao regressar a Porto Alegre, porém, uma notícia abalaria o planejamento do clube para as eliminatórias da competição: 10 membros do time, entre jogadoras e comissão técnica, testaram positivo para Covid-19. Entre eles, Karina Balestra. “Dali oito dias tínhamos jogo contra o Corinthians. Era o jogo que marcava a estreia do futebol feminino na Arena do Grêmio”, recorda.
No fim daquele mês de outubro, o contrato de Karina se encerraria, ou seja, era sua última oportunidade de jogar. A preocupação era visível, seja pela recuperação, ou não, da doença, seja pela possibilidade de haver resquícios dos sintomas, ou até pela falta de preparo e treinamento físico ao longo da semana. “De três em três dias eu fazia o teste para ver se dava negativo, para pelo menos estar na convocação do jogo”, revela.
Na sexta-feira, todos os resultados saíram negativos, porém, Karina ainda não tinha condições plenas para jogar. “Lembro que fiz um treino no sábado e eu não consegui correr, tinha falta de ar ainda, dor no corpo e dor de cabeça”. O desejo de jogar na Arena, contudo, era maior do que qualquer contratempo.
Para que ela participasse do momento histórico, Patrícia Gusmão, então treinadora, e Yura (Júlio Titow), diretor, deram aval à convocação de Karina, que entraria somente nos minutos finais, aos 45’ do 2º tempo. “Foi uma despedida ruim. Gostaria de ter me despedido melhor dos gramados”, desabafa.

Arte: Karine Santos e Marina Ranzani
Depois do ‘adeus’
Aos 38 anos, se aposentar significou mais do que apenas se despedir dos gramados. Representou, sobretudo, se familiarizar com o novo ‘comum’. “Acho que fiquei um ano com a ficha querendo cair, que eu não era mais atleta, que eu não podia mais ajudar dentro de campo”, relembra. Karina compreendia, porém, que também poderia fazer a diferença fora das ‘quatro linhas’.
A ex-jogadora dedicou-se, então, a decifrar os bastidores do futebol e a aprender sobre gestão esportiva. Em 2021, ela ingressou no Sindicato dos Atletas Profissionais no Estado do Rio Grande do Sul (SIAPERGS). Lá, além de se tornar diretora do Departamento de Futebol Feminino, ela também criou o projeto “Atletas Livres Feminino”, voltado a resgatar o sonho de ‘gurias’ que não tiveram a oportunidade de praticar o futebol em sua plenitude. “Isso é gratificante. Ver as meninas jogando, fazendo o que gostam”, celebra.
E quis o destino ainda que Karina retornasse ao clube onde fez história: o Grêmio. No fim de 2023, a ex-atleta recebeu o convite de Marianita Nascimento, também ídola do clube, para ser diretora adjunta do Departamento de Futebol Feminino. Em dezembro de 2025, após três anos de gestão e de forma repentina, Karina recebeu a notícia do seu desligamento do time. “Tiraram duas grandes mulheres, duas ex-atletas, entendedoras da modalidade. Sempre falamos que o Grêmio mexeu em uma coisa que não poderia, que estava dando certo”, expõe.
Em 2026, no ano em que o projeto no SIAPERGS completa quatro anos, a ex-esportista segue acreditando e trabalhando pela modalidade. À medida que a Copa do Mundo Feminina de 2027, sediada pelo Brasil, se aproxima, Karina expressa seus votos para o futuro da categoria. “Nós esperamos que levem a sério o futebol feminino. Que a menina possa viver só disso, não só por três meses”, reivindica. Na visão de quem viveu e, ainda vive, pelo esporte, o “País do Futebol” precisa e deve evoluir.
Esta reportagem integra a coletânea de livro-reportagem investigativo “De dentro do campo: As vivências das “Gurias do Sul” no futebol brasileiro”, que ao longo deste ano irá retratar a trajetória e as experiências que permeiam a carreira de mulheres que dedicam-se ao futebol feminino no Sul do Brasil.
Ficha técnica
Produção: Giulia Neves
Supervisão de produção: Hendryo André
Edição e publicação: Emilly Paitch e Mafe Sperafico
Supervisão de publicação: Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado
